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08/01/2013 11h28

'Me ajude a morrer': o inusitado tributo a Paulo Sérgio

No dia 27 de julho de 1980, o cantor Paulo Sérgio foi afetado por um derrame cerebral (atualmente chamado de acidente vascular cerebral) enquanto se apresentava na cidade paulista de Itapecerica da Serra. Levado às pressas para um hospital da região, não resistiu e morreu dois dias depois da internação. O enterro no Cemitério do Caju, no Centro do Rio, foi uma verdadeira manifestação de comoção popular, a mesma comoção que continuou (e ainda continua) por muitos anos. Passou a ser costume informar que um dos túmulos mais visitados na cidade durante o Dia de Finados é o de Paulo Sérgio.

As circunstâncias da morte até hoje são obscuras, mas o que se sabe é que o cantor se envolveu em discussão com uma suposta fã durante sua última apresentação na tv (no "Programa do Bolinha", na "Rede Bandeirantes"). Enquanto algumas testemunhas disseram que quem começou a confusão foi a moça (ao fazer insinuações a respeito do casamento do artista e lhe atirar uma pedra), a mesma alegou que foi assediada por Paulo Sérgio nos corredores da emissora e que precisou se defender afirmando que Roberto Carlos era melhor cantor do que ele. Os fatos relatados mostram as marcantes na vida deste artista: a estranha citação constante de temas soturnos em suas obras (com destaque para a tristeza) e as comparações com RC, tanto no repertório quanto no timbre de voz. Para maior destaque, os dois eram oriundos do mesmo estado, o Espírito Santo: Paulo nasceu na cidade de Alegre, enquanto Roberto é de Cachoeiro do Itapemirim. Se há semelhanças, a diferença estava no alcance de público: enquanto o Rei conseguia ser apreciado por todas as classes socioeconômicas do país, Paulo Sérgio era o cantor do chamado "povão", o que atualmente pode ser enquadrado no conceito "classes C, D e E".

Além do choque com a morte de PS, o mais espantoso veio depois, no final daquele ano de 1980: o lançamento de um disco pela gravadora Magazine reunindo músicas gravadas em compactos e sobras de estúdio da década de 1970 com o título inacreditavelmente oportunista e "lisonjeiro" de "Me ajude a morrer", referência ao nome da assustadora faixa de abertura composta pelo próprio Paulo Sérgio em parceria com Alberto Luiz: "Me ajude a morrer / Não posso viver lembrando você / Me ajude a morrer / Se já não me ama, tem pena de mim... Se Deus perguntar / Prometo falar / Que a culpa foi minha...". A capa e a contra-capa totalmente ainda reforçavam o clima que poderia ser classificado de "dark-brega".

Mas o interessante em "Me ajude a morrer" é que, se do ponto de vista estético-crítico, as faixas podem ser vistas com alguma reserva (mesmo com o relançamento em cd, é possível notar que algumas músicas tiveram gravação precária), do lado musical-sociológico o trabalho desperta uma surpreendente atenção. Embora com letras banais sobre temas de amor popularesco (a dor-de-corno, o abandono, a rejeição, o desejo de reatar negado, a decepção e a volta por cima atualmente conhecida como "a fila anda") adquirem um sentido universal com a força interpretativa de Paulo Sérgio em conjunto com os bons arranjos. O lado triste e soturno está presente em "Um amor nascendo e outro morrendo", dele e de Eustáquio Sena ("Toda vez que eu olho pra você / Sinto um amor nascer e outro morrer"); "Eu bem sabia", de Getúlio Côrtes ("Só porque pude abrir os meus olhos e ver / Que sou bem mais feliz com você / E por isso voltei aqui / Ficarei desta vez para sempre ao seu lado / Não reclamo, pois fui o culpado / E preciso do seu perdão") e "Benzinho", versão de Maurileno Lopes para "Dear Someone", de Cy Cohen: "Benzinho / Por que deixou-me assim / Sozinho / E triste e a recordar / O seu beijo, seu carinho / O seu modo de falar / Não consigo viver assim / Benzinho tenha dó de mim":

Paradoxalmente, pelo fato de Paulo Sérgio ter sempre gravado temas tristes, várias músicas presentes em "Me ajude a morrer" são marcadas pela interpretação quase humorística e por arranjos em orquestrações divertidas de big-band. Assim foi em "Vou pedir outra vez" e "Você não é como eu quis" (composições de Paulo Sérgio e Eustáquio Sena), "Logo agora" (Tony Danilo e Eustáquio Sena) e no charleston "Eu não sou o que você está pensando" (Paulo Sérgio e Maurileno Lopes). Nesta última, a semelhança com a voz de Roberto Carlos é bastante acentuada e percebe-se que PS parece forçar um pouco a fanhosidade, dando motivo aos que acusavam de ser um mero imitador do conterrâneo:

Além do mais, o disco também traz o início do cantor na Jovem Guarda com o ingênuo e infantilizado rock "Lagartinha", de Rossini Pinto e Paulo Bruner ("Eu fui ver no sítio uma lagarta infernal / Que deu na lavoura, destruiu meu milharal / E dizem que a lagarta, a lagarta / A lagarta é o fim / Tudo já comeu, tudo já roeu / Não deixou nenhum capim"), uma leitura do tema pós-separação "Tudo isso me faz lembrar que o nosso amor morreu" do colega contemporâneo Odair José, e um surpreendente "sambalanço" de tom auto-biográfico (e quase profético) "Minha madrinha", outra parceria de Paulo Sérgio e Eustáquio Sena, cujo destaque fica para o órgão psicodélico no arranjo: "Vou contar, a cidade em que eu nasci / No lugar onde a infância eu vivi / Fui passear, ninguém me deu atenção / Só porque sou cantor e não tenho fama / Virou-me o rosto a dama que um dia me batizou / Minha madrinha, vou ser grande e um dia vou voltar...":

No total, ele gravou 13 discos e fez extremo sucesso popular com as músicas "Última canção", "Amor tem que ser amor" e "Índia". Em uma de suas últimas entrevistas, ao radialista paulista Altieres Barbiero, o cantor respondeu se tinha medo de morrer: "Não sei se tenho, às vezes tenho, às vezes não. Acredito que todos nós temos medo de morrer… Se ela vier agora, vai me pegar desprevenido e não vou ter medo. Mas tenho certeza de que daqui a alguns anos, quando eu estiver mais velho e souber que ela está chegando, vou ter medo, sim". Paulo Sérgio tinha 36 anos quando passou mal em seu último show.


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