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Charlie Kaufman estréia na direção com Sinédoque, Nova Iorque

Antônio Augusto Valente | Cinema | 30/09/2008 14:21

Interminável viagem metalinguística

Estreando na direção, o famoso roteirista Charlia Kaufman dá um passo maior que as pernas e embarca na interminável e aborrecida viagem metalinguística que se revela ser "Sinédoque, Nova Iorque". Pela primeira vez sem um diretor para polir seus devaneios, ao final das duas horas de projeção a impressão é de que Kaufman chegou a um lugar que nem ele mesmo sabe qual é.

Philip Seymour Hoffman (excelente, como sempre) é o alter-ego de Kaufman da vez, Caden Cotard, um diretor de teatro em eterna crise existencial, que se vê ainda mais perdido na vida ("Eu não sei o que estou fazendo" é o que o personagem mais diz, ao longo do filme) quando sua mulher muda-se para Berlim com a filha e, por alguma razão obscura, suas funções biológicas vão progressivamente parando de funcionar. 

Depois se envolver com a bilheteira do teatro onde trabalha (Samantha Morton, também muito bem), moradora de um apartamento que está sempre pegando fogo (no esquema do andar 7 e ½ de "Quero Ser John Malkovich"), Caden ganha um prêmio de uma fundação qualquer, que reconhece seu talento e dá a ele dinheiro suficiente para a realização de um projeto extremamente ambicioso.

O dramaturgo passa a encenar, em um enorme galpão, sua própria vida e a das pessoas ao seu redor. Cada ator interpreta a si mesmo em cenários idênticos aos da realidade, num jogo de duplos que vai se multiplicando ad infinitum. As complicações são muitas, mas o non-sense é paradoxalmente amenizado pelos elementos pop-surrealistas, como o apartamento incendiado, que funcionam como espécie de molho para o todo. Apesar de existirem a maior parte do tempo em função de si mesmos, os risos da platéia sempre que pinta uma nova firula da imaginação fértil de Kaufman sinalizam a aprovação do público para este tipo de exercício criativo. O problema é que essa espécie de efeito especial particular do diretor é muitas vezes mais forte que o drama humano proposto em paralelo, dificultando que o espectador se aproxime dos personagens.

As grandes ambições de Kaufman são explicitadas já no título, "Sinédoque, Nova Iorque". A figura de linguagem em que a parte representa o todo, ou vice-versa, seguida do nome da cidade, nos avisa que o galpão é um microcosmos para o mundo. Como se precisasse. Está claro que Kaufman olha longe e quer englobar todos os seus pensamentos sobre Vida, Morte e Arte, logo em seu primeiro filme como cineasta. Obviamente, no entanto, é muito.

Muito, aliás, é palavra-chave em "Sinédoque, Nova Iorque". A grandiloqüência do filme realmente impressiona, prova de que o sucesso de Kaufman como roteirista (no currículo, além de "Quer Ser John Malkovich", "Adaptação" e "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças") deu a ele dinheiro e liberdade. Com tanto na mão, porém, o diretor, na tentativa claramente pessoal de realizar algo grande, acaba tropeçando nas próprias limitações. No fim das contas, "Sinédoque" não passa de um labirinto disforme, ao qual a adesão depende de muita paciência e boa-vontade.


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