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"Causos" da minha cantora preferida

| Soares Júnior | 24/09/2008 16:29

Promessa é para ser cumprida. Disse que contaria mais histórias sobre a cantora com que trabalhei, então vamos. O país estava disputando a Copa do Mundo de 94, em busca do tetracampeonato. Três lugares disputavam a primazia de ser o melhor do Rio para um tipo de público. Jazzmania, Mistura Fina e People. As três tinham uma platéia de 200 a 300 lugares e atendiam a um público de classe média alta na pré-histórica época antes do Real.

Minha cantora estava fazendo a temporada no Jazzmania de duas semanas. Uma querida amiga, que também era cantora, estava em crise no relacionamento e decidiu ir aos shows. Levei-a na primeira semana. Como a minha cantora conhecia minha amiga há algum tempo, convidou-a para subir ao palco, o que no jargão musical chama-se "canja".

No meio da semana toca meu telefone. Minha cantora liga e pergunta: "A fulana é gay?"

Eu expliquei que não, no que minha cantora rebateu: "que pena, estava pensando em pagar um jantarzinho e um vinho francês para ela".

Semana seguinte estamos lá para a segunda semana da temporada. No último dia, chamo minha amiga para o espetáculo. Ela faz a ressalva de que minha cantora poderia achar a presença estranha e algum sinal de interesse. Eu disse que não tinha esse perigo, que minha cantora já tinha entendido o recado.

O show vai evoluindo e minha cantora começa a exagerar no álcool. Perigo à vista. Acaba o espetáculo e minha cantora traça uma reta até a mesa em que eu estava. Olhos vidrados, andar trôpego a chegada foi apoteótica. Ela olha para minha amiga e dispara: "fulana, eu quero te comer". O tempo parou. Minha amiga do alto de mais de 10 anos de análise emendou: " você tem todo direito de expressar seus desejos". Minha cantora atalhou: "chega de conversa fiada, eu quero é te comer, venha aqui no cafofo, me fazer um carinho". Tentando afrouxar a saia justa, chamei a atenção para Regininha Poltergeist, que acabava de entrar no recinto. Nada adiantou e minha cantora começava o assédio e deu a cartada definitiva: "te botei no palco e você não quer me fazer um carinho". O contra-ataque de minha amiga foi em voz baixa, mas genial: "homem é tudo igual, até quando é mulher". Só para ajudar a entender minha amiga, é dela a expressão "solidariedade de doidão" que tornei pública na coluna passada.

Outro "causo" envolvendo minha cantora. Teatro Rival, fila de cumprimentos no camarim. Eu tentava fazer um filtro. Em determinado momento, a artista decidiu que não receberia mais ninguém. Nisso, chegam duas meninas lindas e perguntam se podem entrar. Achei que pela beleza das garotas, a patroa abriria uma exceção. Nada feito. Ela não queria. As meninas não desistiram e fizeram a proposta: "diz pra ela que a gente quer tomar um vinhozinho com ela". Voltei ao camarim desesperado para que minha cantora aceitasse a proposta. A resposta foi desanimadora: "É a Ava Gardner? É a Marilyn Monroe? Então dispensa". Não acreditei, protestei, mas não adiantou.

Essa vida de produtor me deu alguns trotes. Certa manhã fui acordado com a ligação. Minha cantora queria mandar flores para Billie Holiday. Tudo bem se uma das divas do Jazz não tivesse morrido havia mais de 30 anos. Comecei a pensar como descobrir onde a cantora estava enterrada. Era uma época sem sites de busca. Quando comecei a me mexer para descobrir o telefone volta a tocar: "Além das flores, compra um quilo de ração também". Entendi tudo, Billie Holiday era a gata que minha cantora tinha com a namorada. As duas tinham brigado e gata tinha ficado no apartamento com a outra. Coisas de casal.

Em meio a um tiroteio no alemão, ou num plantão de fim-de- ano, (ho-ho-ho) sempre me lembrava destas histórias para ver que a vida poderia ser bem pior.

 


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Postado por:Lorena Cecília | 29/09/2008 14:14:00

Estou adorando matar saudades do "Seu Creso" por aqui. Ana Carolina? Ha-ha-ha... A "cantora preferida" ganhou o apelido, que carrega até hoje, por causa da voz grave e rouca, nada angelical, que tem desde criança. Quero mais causos!

Postado por:Georgia | 28/09/2008 00:49:12

Esse foi genial! Não sei se morro de rir com o primeiro "causo", ou com a história da Billie! Po! Vou morrer nada! Escreve mais p/ gente ler! Abraços. ps.: vc se divertiu mto com a "sua cantora". Hohoho! rss

Postado por:Vivi | 26/09/2008 22:29:21

É Soares, digamos que "bem pior" foi um eufemismo mais do q generoso da sua parte, né? Sobre a cantora não posso dizer q eu estou curiosa pq a Tatiana acabou com minha felicidade, mas se quiser contar mais histórias, eu venho aqui comentar no seu blog. :)

Postado por:Heitor Lannes | 26/09/2008 21:33:52

Bem pior mesmo!!!

Postado por:Bia | 25/09/2008 14:25:59

Adoro suas histórias! Saudades de ouvi-las ao vivo na redação.

Postado por:Luiz Marcelo | 25/09/2008 10:46:11

História sensacional, mas a pérola "homem é tudo igual, até quando é mulher" é magnífica!!!!!

Postado por:Tatiana Carvalho | 25/09/2008 09:59:41

É a Ana Carolina?

Postado por:Edu | 25/09/2008 06:27:35

SENSACIONAL! Quando eu era estagiário, tentei convidar a ''sua cantora'' para o camarote da Globo no Maracanã. Desconfiada, ela pediu meu número e disse que me retornaria. Não acreditei quando o telefone tocou. E pra quê? Tomei um passa fora tão bem dado que até hoje não sei se era mesmo a ''sua cantora'' ou um trote genial de alguém da própria rádio. Vou morrer sem saber.

Soares Junior

Jornalista desde 1996. Depois de passagens pela TV Bandeirantes e Rádio Tupi ingressou na rádio CBN. Durante os 9 anos no Sistema Globo de Rádio, ele apresentou e redigiu O Globo no Ar, fez cobertura aérea de trânsito, ancorou e foi chefe de reportagem. Soares Júnior é professor da PUC e da Escola de Rádio.