Na semana passada recebi um telefonema da jornalista Cleo Guimarães, do Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos (O Globo). Preparavam uma página motivada pela morte recente do grande cantor Roberto Silva, considerado "o príncipe do samba" e para isso estavam perguntando a pessoas da área quem seria, em nossa opinião, o maior cantor de samba de todos os tempos.
Não precisei pensar nem um segundo: Roberto Ribeiro, é claro. Razões afetivas à parte - Roberto foi um querido amigo -, acredito mesmo que ninguém cantava samba como ele. No samba de enredo foi um monstro, mas passeava com segurança por outros gêneros. Os sambões românticos que o consagraram conviviam bem com os calangos e também com as mais tradicionais composições, por exemplo, de seu conterrâneo Wilson Batista, que Roberto regravou como ninguém.
Sua voz era magnífica, mas tinha algo mais do que isso: sabia cantar samba! Tinha ritmo, tinha malícia, tinha presença, tinha alegria. A gente sentia, ao ouvir, que ele gostava de samba, que estava à vontade no gênero.
Já que eu era sua fã de carteirinha, não houve dificuldade em responder. Só que a Cleo me pediu outra indicação, pois Roberto Ribeiro já tinha tido uma indicação. Pronto, complicou! Não é que não haja outros bons cantores de samba: há muitos. Mas como é que eu, mais do que fã, amiga, poderia não indicar Roberto? Ia ficar até feio para mim. Já estava quase desistindo de opinar, quando me lembrei de outro cantor que eu admirei e admiro e que merecia ser mencionado: Jamelão. Foi ele, portanto, o meu indicado.
A matéria saiu há uma semana e desde então muita gente tem me questionado sobre o fato de não ter indicado Roberto Ribeiro. Teria sido alta traição? Talvez, mas há males que vem para bem. Por sorte, quem indicou seu nome não foi um qualquer: foi Nei Lopes, que além de sambista e grande compositor é um intelectual de peso.
Por isso tomo a liberdade de reproduzir aqui a sua opinião, para quem não teve oportunidade de ler o Gente Boa daquele dia: "O Roberto Ribeiro tinha uma voz impressionante e uma ligação profunda com Madureira, com o Império Serrano. Ele veio de Campos, mas revelou-se para o mundo artístico através do Império. Foi um cantor fundamental para o samba".
Que bom que foi o Nei Lopes que disse isso e não eu. De mim pareceria exagero e falta de isenção. Dele é um elogio e tanto, que me deixou muito feliz e orgulhosa. E feliz fiquei também de ter dado meu voto ao Jamelão por sua longa e impecável atuação como puxador de samba na Estação Primeira de Mangueira.
Desculpe, mestre, sei que não gostava de ser chamado assim e conheço seus motivos, expressos em tantas entrevistas. É que eu, ao contrário, acho a palavra puxador muito expressiva para designar aqueles que, como Jamelão e Roberto, são capazes de puxar, de arrastar sua escola pela Avenida, como autênticos líderes.
Não era só com a voz que puxavam, era também com o carisma, com a credibilidade e o amor à sua escola que conseguiam levar o componente a cantar com eles. Era bonito de ver e de ouvir. O termo puxador presta homenagem a isso que se define modernamente por "atitude". Cantores e intérpretes há muitos. Puxadores são poucos. E Jamelão e Roberto Ribeiro o foram.
Foi deles que me lembrei para escolher o príncipe do samba. Porque para mim o samba na sua essência é o samba-enredo, o épico e maravilhoso subgênero que apaixona e arrebata. E foi o samba-enredo que consagrou esses dois monstros sagrados.
A final foi no Boqueirão ,perto do aeroporto Santos Dumont,pois entrara um trem na quadra do Império.Torci muito pelo samba derrotado,pois já o considerava uma obra prima.Tenho quase certeza que ele tinha um refão,que foi retirado na gravaçao de meio de ano.Um dos compositores , o Cardosinho ganhou a disputa em Oscarito.
"Acho a palavra 'puxador' muito expressiva para designar aqueles que, como Jamelão e Roberto, são capazes de puxar, de arrastar sua escola pela Avenida, como autênticos líderes. Cantores e intérpretes há muitos. Puxadores são poucos." - Eu seria capaz de dizer: "Jamelão, deixe de bobagem".
Acredite se quiser, Antônio Carlos, mas eu estava presente na final que escolheu o samba de 1975, Zaquia Jorge, vedete do subúrbio, estrela de Madureira, do compositor Avarese. O samba derrotado não era de autoria do Roberto Ribeiro, que só começou a fazer samba no ano seguinte. Era dos compositores Acyr Pimentel e Ubirajara Cardoso. Com o tempo todos eles se tornaram queridos amigos meus, mas na época eu não conhecia ninguém e torci, pasmem!, pelo samba que ganhou. O carnavalesco Fernando Pinto desejava um samba alegre e vibrante e a comissão julgadora entendeu que o do Avarese preenchia melhor essa exigência. Anos depois, Roberto Ribeiro retomou o lindo samba que perdeu e hoje ele é muito mais conhecido do que o que foi cantado na Avenida. Coisas da vida...
O nosso Roberto Ribeiro é realmente o maior de todos os tempos, Rachel. Em Madureira, é quase uma unanimidade.
Com certeza eu vou “ partilhar “ o voto da Rachel. Ouvindo as belas canções desse “ malandro maneiro “ , “ quem lucrou fui eu “. Foi uma “ triste desventura “ ele nos deixar tão cedo, e de certa forma nos deixou um “ vazio “, mas a nação Imperiana muito se orgulha que esse “ inquilino do universo “ fez sem “ artifício “ parte desse “ império de bamba “ . Salve Roberto Ribeiro !
Caro Antonio Carlos, o Roberto tinha vários sambas enredos que concorrerram e não ganharam gravados em discos de carreira. Além desse feito para o enredo de 75 do Império Serrano sobre a vedete Zaquia Jorge (9 anos antes da morte de Clara Nunes), ele gravou sambas como "Flor de Madureira" (novo nome para o samba que concorreu na Portela em 78 no enredo "Mulher à Brasileira") e Combustível da Ilusão (concorrente no Império em 85). Acho que ainda tem mais exemplos.
Rainho-Raquel! Lhes digo mais. Aquele samba " Estrela de Madureira" gravado pelo Roberto Ribeiro está no panteon dos maiores sambas de todos os tempos. Ao ouvir dá pra chorar ( Está no Youtube pra quem quiser curtir esta maravilha) Na verdade para os que não sabem é um samba enredo do Império que perdeu na disputa. Ficou esquecido por muito tempo e em 1975 o R. Ribeiro para nosso contentamento o gravou. É uma obra prima. Eu antes pensava ser uma homenagem a Clara Nunes depois que se foi pois a letra cabe perfeitamente à ela. Mas não é uma homenagem a uma antiga vedete de Madureira lá dos anos 60. Enfim acho que de todas é a canção mais bonita gravada por este grande sambista brasileiro, senão o maior. Um abraço e obrigado pela lembrança.
Gênio, Gênio e Gênio! Simplesmente isso, em poucas palavras! Roberto Ribeiro é uma das heranças culturais que meu pai me deixou. Até hoje eu e ele ouvimos as canções do Roberto e nos emocionamos. Meu pai, imperiano de fé, frequentou por anos a quadra da escola e ambos ficaram amigos. Lembro-me, na infância, quando o Hélio Pai chegou em casa e disse: "filho, escuta essa música...é pra você". Tratava-se de "Todo Menino é um Rei",, na voz do Roberto. Cresci ouvindo todos os seus sucessos. Uma influência musical ímpar. Meu celular tem uns dez álbuns dele armazenados. Jamelão tem seu lugar de honra no samba. Mas, realmente, Roberto Ribeiro é o meu cantor eterno também! Parabéns pela bela coluna... de uma mestra falando sobre um mestre! Tá tudo em casa e tá tudo na Serrinha Gloriosa!