Em 21/Nov/08 03:11:45

Meu inesquecível contato com o Rei do Soul

Hoje estou a fim de dividir, com quem me dá o privilégio da leitura, histórias antigas. A história a seguir aconteceu quando eu ainda estava no ciclo básico da faculdade, portanto não tinha tarimba nem conhecimento para ao menos passá-la a algum colunista.

Os amigos antigos servem-me como testemunhas e a leitura do maravilhoso livro Vale Tudo, o som e a fúria de Tim Maia, escrito por Nelson Motta, mostra que o episódio fazia parte do repertório do Rei do Soul.

Na metade dos anos 90 trabalhava com música. Talvez para compensar a tímida e frustrada vontade de ser cantor (tem gente que até me acha afinado). Testemunhei durante este tempo momentos que não saem da memória como Nana Caymmi cantando Modinha, de Vinicius de Morais e Tom Jobim, no dia do enterro do maestro, em 1994. Ou ainda um show de Ney Matogrosso e Rafael Rabello para arrecadar fundos para a compositora Rosinha de Valença. Tenho pena de quem gosta de música e não teve a oportunidade de apreciar Rafael Rabello dedilhando arte num violão rebelde e único.

Além do trabalho como assistente de produção no People (tradicional casa de shows dos anos 80 até meados dos anos 90), durante um ano trabalhei com uma cantora. Irônica, inteligente e geniosa, ela tinha talento para se tornar a maior de sua geração. No entanto, seu estilo pouco tradicional e seus hábitos distantes da ortodoxia a impediram.

Quando o telefone tocou naquela manhã já não trabalhava com ela. Não houve barracos, nem nada durante nossa separação, apenas seguimos caminhos diferentes. Eram 8 da manhã. Eu trabalhava até de madrugada, levada que agüentei até a metade da faculdade. Uma ligação naquele horário ainda me pegava no primeiro sono.

Uma voz estridente interrompeu meu idílio com Morpheu: "poderia falar com o senhor Créuso?" Eu interrompi impaciente e disse: "meu nome é Creso." Ela ignorou minha assertiva e prosseguiu: "Peraí, o seu Tim Maia vai falar". Pensei: qual dos meus amigos seria canalha o suficiente para passar o trote num cansado trabalhador.

A segunda pessoa perguntou: "O seu Créuzo está?" Impaciente, reiterei a pronúncia certa do meu nome. Ele prosseguiu: "O seu Tim Maia vai falar". A "pilha" era profissional.

Do outro lado da linha veio um "alô, posso falar com o Creso?" Aquela voz tonitruante era inconfundível. Tim Maia estava falando comigo. Antes que eu pudesse perguntar ele me contou o motivo da inusitada ligação: "Eu quero dar um levado para pagar um advogado para a cantora. Tem muito preconceito com a gente, ela tá certa."

Havia mais de um ano que eu não trabalhava com a cantora. Com seu talento para arrumar confusão, ela havia chamado uma apresentadora de TV de lésbica e foi processada. Quando o oficial de justiça foi notificá-la, ela não abriu a porta e criou uma imensa confusão. Ao saber do tumulto, Tim Maia teve uma "típica solidariedade de doidão", como classificou uma amiga na época.

Depois que assegurei a ele que levaria o recado à cantora ele me presenteou com uma pérola: "Vem cá, teu nome é Creso mesmo? Isso não é nome de gente, é de fechadura de carro - Cresolock". Deu uma inesquecível gargalhada e desligou.

Nunca mais encontrei profissionalmente Tim Maia. Quando ele morreu, alguns anos mais tarde, eu ainda não estava trabalhando em redação. Como fã, lamento que ele não esteja mais colocando aquele vozeirão em alguma canção. Para quem conhece Tim Maia, é bom ouví-lo no auge da forma cantando "These are the songs", num dueto insuperável com Elis Regina. A coletânea Noites Tropicais, produzida por Nelson Motta, traz este tesouro da música produzida por aqui.

Numa próxima oportunidade conto uma história da cantora. Vivi no céu e no inferno durante o trabalho com ela.

 

 

Generosidade e parceriaFantasmasAbatido no vôoO bife em Campos dos GoytacazesBom ler as histórias que há algum tempo escutava na redação. SaudadesAh... tranquilo te chamar de Cresolock agora, né ?! hahhahahahaha Abraço.Hahahahahahahahaha! Sabe que até hoje eu divulgo essa história?! Tim Maia representa uma época musical que muitos tiveram o privilégio de conhecer, mas poucos tiveram o prazer de viver e curtir. Eu era criança, mas curto até hoje. Tive ua forte influência dos meus pais... época booooa...Sr Crézio, poderia ter sido o personagem do Casseta & Planeta... Estou lendo este livro também. Ser acordado pelo Tim é pra colocar em seu histórico... Parabéns pelo texto.. Abçs Ruy JobimEssa história é sensacional!!!!!! Já ouvi algumas vezes e sempre dou risada. Cresolock é demais! Por isso Tim Maia era Tim Maia. Agora, dá logo o nome da cantora. Você já entregou quase tudo mesmo...Oi Creso! Poxa essa do "Cresolock" foi terrível. Sei exatamente o que é ter um nome diferente e sofrer com os vários apelidos e piadinhas...rs..."faz parte"... Também achei engraçado o termo "típica solidariedade de doidão"...rs... Um grande abraço!Fico intimidado de fazer meus comentários "distantes da ortodoxia" na frente de todos. Por isso, vou passar lá na "redação" amanhã pra te contar porque não te liguei esse fim de semana. Um dos motivos foi a ridícula (para dizer o mínimo) derrota de meu "time". Aquele abraço, Pagé.Juninho, te ler para mim é uma emoção muito especial. Me lembro dos vários momentos da nossa infância e poder ver essas histórias que vi acontecer contigo é muito legal, emocionante. Tim Maia, eu conheci no seu apartamento na barra. Quando fiz uma matéria para a Manchete com ele. A matéria acabou num grande porrete. Ele sentia o mundo de forma diferente. Parabéns. Teu irmão aqui tá emocionado.Melhor do que essa aí do "Cresolock" só a do Eric... " Créééééso... e tem cinco velocidades ". Um abraço professor !Vem cá, Juninho: você nunca patentou o Cresolock, não? Isso rende um levadinho... Hehehe Abração!É... do leme ao pontal não há nada igual! Bom te ler! Um abraço.

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