
Fernando Meirelles é, dos novos diretores, o mais promissor. Apesar de quererem encaixar seu último belo filme, Ensaio sobre a Cegueira, em uma trilogia - idéia completamente sem pé nem cabeça -, suas três obras serviram para consolidar uma identidade narrativa e uma linguagem visual únicas.
Saramago enrolou Meirelles por cerca de dez anos até entregar os direitos de seu livro. O maior medo do escritor era que Meirelles transformasse Ensaio em um filme sentimentalóide ou pior ainda, em mais um dentro do gênero "o-mundo-está-acabando-por-uma-epidemia-biológica". Assim que assistiu à primeira cópia, Saramago deixou bem claro - estava tudo na medida certa.
O trunfo de Meirelles como excelente diretor é retirar das adaptações dos livros (Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio foram, antes de tudo, obras literárias) o sumo narrativo e transportar perfeitamente para a linguagem cinematográfica. O romance de Paulo Lins é mais uma obra histórica que uma análise pop/violenta/arquitetônica das favelas do Rio. Jardineiro, originalmente, é um livro policial. Já Ensaio é uma obra cruel, nojenta e implacável - cegos, somos animais.
Apesar do que possa parecer no trailer, o que sobressai, ao fim de duas horas de filme, é uma enorme delicadeza. Esperança. A solidariedade e o companheirismo que Saramago tanto trata em suas obras transborda aqui. Meirelles não deixa de filmar a maldade do ser humano quando reduzido aos instintos mais primários, mas há luz. Uma luz ao final do hospício onde os cegos foram internados.
Juliana Moore - a Mulher do Médico - espantou-se com a ténica de direção absorvida por Meirelles de Kátia Lund, que co-dirigiu CDD: o improviso. Em Hollywood é tudo marcado, ensaiado à exaustão e nada pode sair do lugar. Já com o brasileiro, cada ator tem liberdade para dominar o seu personagem. Essa característica do diretor tornou os personagens do filme ainda mais complexos e interessantes que os do livro - o mais curioso é assistir ao vilão de Gael Garcia Bernal, o cego da Ala 3.
No livro, ele é a vítima do mal branco que decide vilanizar e sodomizar seus companheiros de quarentena. No filme, Bernal expande o horizonte dessa figura - ele se auto-declama rei, tem uma estranha obsessão sobre um esmalte de unhas - ele não consegue ver, certo? -, é despojado, gargalha sangue, e canta. Bernal cantando Stevie Wonder é uma das cenas mais amargas de todo o filme - invenção do mexicano.
A fotografia de Charlone é o outro trunfo de Ensaio - se ele radicalizou o sentido de fotografia no cinema brasileiro, explodindo as cores para seduzir o espectador, agora ele utiliza do branco para atormentar. No início do filme, quando somos apresentados ao desespero dos personagens, Meirelles e Charlone pintam toda a tela de branco para nós experimentarmos a sensação do que é essa cegueira, tão diferente de todas. Ao longo das duas horas, esse quadro ainda vai se repetir - são dois artistas provocando, espizinhando "e se fosse com você? seria assim que você estaria". E como angustia não ver nada e ouvir tudo.
Os críticos franceses reclamaram da frieza de Juliana Moore no filme, elogiada por Saramago. A atriz, que foi contra a orientação de Meirelles para permanecer ruiva, tingiu os cabelos de loiro e quase não usou maquiagem. Em determinadas seqüências, parece um fantasma se movimentando em meio ao horror. Mas ela tinha que ser fria - a Mulher do Médico nunca quis ser responsável por trezentas pessoas, ela foi obrigada. Ela é a única que vê. E naquele microcosmo da humanidade, é responsável pela sobrevivência de todos. Ninguém suportaria tamanho fardo. Todavia, na parte final do filme Moore se supera, quando decide lutar apenas pelo seu grupo, e não mais pela humanidade inteira.
Provavelmente houve algum problema no encanamento da água de Cannes, que certamente gerou uma contaminação e atingiu todos os críticos e os membros do júri - bem ao estilo da história que os americanos gostam de contar -, para terem colocado no pedestal o insosso Linha de Passe e terem repudiado a obra-prima que é Ensaio sobre a Cegueira. Longa, longuíssima vida a Fernando Meirelles.
Thays Batista
20/09/2011 14:36:26
Esse filme esta de parabéns, assiti ele hoje, meu professor de historia passou para mim e meus colegas de turma assistirem,achamos muito bom esse filme, o autor esta de parabéns!!!






Comentários (1)