
No alto de uma das favelas mais valorizadas pelo turismo no Rio de Janeiro, Vitor Lira, de 31 anos, pertence à quarta geração de uma família nascida e criada no Morro Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul da cidade. Em uma das casas mais antigas da comunidade, crescem também um menino e uma menina que, no futuro, Vitor espera terem a chance de conhecer de perto a história de vida dos pais.
Eles vivem em uma das pelo menos 57 habitações que serão riscadas daquele cenário por ocuparem "uma área de altíssimo risco", de acordo com um estudo feito pela Fundação Geo-Rio, da Prefeitura do Rio, em 2010.
Vitor Lira, que ganha a vida exercendo a atividade de guia turístico no Santa Marta, procurou o SRZD para emitir um grito de protesto contra o deslocamento involuntário. Segundo ele, vários especuladores já visitaram a comunidade interessados em investir negócios no mesmo terreno avaliado como perigoso pela Geo-Rio, entre eles representantes do Grupo EBX, do empresário Eike Batista, e de algumas redes de fast food. O morador classifica a decisão do poder público como arbitrária e mercantil.
"Hoje a favela está sob alvo de especulações hoteleira, turística e comercial. Os pontos de vista panorâmica são almejados por empresas privadas que querem demolir as habitações para ter retornos financeiros. A parte mais alta do morro se tornou alvo de cobiça depois do projeto de pacificação [o Morro Santa Marta foi o primeiro do Rio a receber uma UPP, em 2008] e da construção do plano inclinado [sistema de transporte sobre trilhos que facilita a locomoção até a parte mais alta do morro]", desabafa.
"Terreno de futuros apartamentos era lixão", diz morador
A Secretaria Estadual de Obras, por intermédio da Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop), já deu início à segunda fase das obras de urbanização na comunidade, orçada em R$ 8,77 milhões. De acordo com a pasta, 64 unidades habitacionais serão construídas na área conhecida como Campo do Tortinho, que fica nos fundos do Palácio da Cidade.
O governo já identificou 57 imóveis condenados e cadastrou 38 famílias, que poderão optar por se mudar para as novas habitações, pelo recebimento de indenização ou pela compra assistida. Ao SRZD, porém, a Geo-Rio informou que 150 casas do topo do morro terão de ser removidas.
"A realocação tem como objetivo melhorar as condições de vida dos moradores. Ela vem acompanhada da implantação de um programa de educação sanitária, ambiental e patrimonial, além da promoção de geração de trabalho e renda na comunidade", afirma a coordenadora geral do PAC Social 2, Ruth Jurberg.
Os moradores, entretanto, temem que uma tempestade de verão possa causar uma tragédia no local onde eles serão realocados, como aconteceu no Morro do Bumba, em Niterói, já que o terreno hoje em construção serviu de depósito de lixo no passado. Além disso, eles reclamam do tamanho dos apartamentos, com área de 37 metros quadrados.
"Eles estão fazendo esses apartamentos num local que é considerado de risco pela prefeitura e pela Defesa Civil. Aquele é um local condenado que antes era um lixão. Inclusive já aconteceram acidentes no início da fundação desses blocos. É um imóvel muito pequeno que não comporta a maioria das famílias", destaca Vitor.
"Nós conseguimos apresentar um contralaudo que diz que aquela área não é de risco e que existem possibilidades de se fazer contenções de encostas bem menos dispendiosas do que construir quatro blocos de apartamentos para alocar essas pessoas. Eles não mostram números", complementa o guia turístico, referindo-se ao parecer técnico apresentado pelo engenheiro Maurício Campos dos Santos, a pedido da população, no último mês de julho.
Em nota, a Geo-Rio informou ao SRZD que os demais pontos da comunidade Santa Marta não representam risco iminente, e que, ao longo dos últimos anos, diversas obras de contenção de encostas foram executadas pela Fundação, mitigando as áreas de risco. Até a publicação desta reportagem, a equipe do SRZD não conseguiu localizar o engenheiro Maurício Campos dos Santos para comentar o parecer de seu laudo.

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