O futebol tem seus jargões. O juiz, a gente sabe, não pode falsear: ou vira "ladrão" ou tem a moral da mãe posta em cheque. Jogador que não corre é "sanguessuga"; se vive na enfermaria, "chinelinho"; se mente a idade, é "gato". Goleiro de mão furada é "frangueiro".
E treinador?
Treinador, quando escala mal, mexe mal ou não ouve a voz da torcida (esse último item é o mais agravante) é "burro".
Semanas atrás, vaiado e criticado pela torcida, o sereno treinador do Vasco defendeu-se do coro de "burro" apontando para seus feitos matemáticos (posição na tabela, desempenho em todas as competições que disputou) dizendo: "Sou burro, mas tenho sorte".
Entendemos o recado.
Futebol é jogo. E jogo requer, é claro, sorte. Nem esse time do Vasco, nem o do ano passado, nem o campeão da Copa do Brasil, nem o da Mercosul, nem o da Libertadores, nem o do tri estadual... nenhum time do Vasco está livre de perder uma partida por um lance ou outro de azar ou sorte. Porque é mazela do jogo, artimanha do destino no esporte. O cronista Nélson Rodrigues chamava isso de "Sobrenatural de Almeida". O eterno mestre Luiz Mendes nos lembrava da máxima uruguaia: "Yo no creyo em bruxas... pelo que las hay, las hay!".
O problema é que, quando alguém faz um autorretrato e chega a essa conclusão acerca de si mesmo, publicamente (ainda que por ironia), corre o risco de cair em contradição. Abusando de sua própria sorte, Cristóvão entrou em campo, nesta quarta-feira, com um time esfacelado, sem seus principais jogadores de criação (tanto no meio quanto na frente) e tomou uma decisão desde cedo reprovada pelo séquito vascaíno. Escalou o time com um meio campo defensivo, povoado por quatro volantes.
Não se discute aqui o ser ou não ser ofensivo. Porque Cristóvão definitivamente não é um defensivista. Fato. Esperava-se, então, que seu plano de quatro volantes fosse dar maior cobertura à defesa para estudar o ímpeto do mandante em campo e, assim, pensar em como atacar no jogo. O estranho é que o treinador vascaíno passou o primeiro tempo todo gritando para que nenhum de seus homens de meia descesse para o apoio.
O que ele esperava? Que Tenório e Alecssandro voltassem à porta da zaga para roubarem bolas e saíssem - os dois - tabelando contra o time inteiro do Náutico até chegarem à área, sem nenhuma apoio do meio campo?!
Ninguém entendeu isso. Se ele não tinha Juninho nem Felipe, tinha Carlos Alberto. Se Carlos Alberto não vinha jogando nenhuma proeza, menos ainda se pode dizer de Wendel, Eduardo Costa e Fellipe Bastos. O critério deveria ser privilegiar ao menos um armador criativo. E esse seria Carlos Alberto. Como não o fez, deixou seu time vulnerável a toda sorte de ataques, sem ação criativa para contra-atacar e intimidar. Resultado disso: nem os quatro volantes impediram que o time da casa saísse na frente. E deixassem barato o placar de 1x0 no primeiro tempo!
Veio o segundo tempo e, antes de Carlos Alberto... Auremir! Pra quê? E o Vasco, ainda montado no chororô da perda recente de quatro jogadores de alto nível, esqueceu que, lá no Náutico, não tem ninguenzinho no nível técnico de um Carlos Alberto (de quem ele abdicou mesmo assim) ou de um Tenório. O gol de Fellipe Bastos, ao contrário do que se pode pensar, não corroborou a opção do técnico: antes deixou claro que somente uma jogada isolada, num chute de muito longe, poderia fazer o que o esquema tático de volantes e pouca criação jamais faria. O Vasco criou pouco, Fernando Prass mais uma vez colaborou para nos confundir a seu respeito (ele entrega lances decisivos e faz milagres como os de hoje... e aí???).
Ao final do jogo, todo mundo reclamou de um suposto pênalti sofrido por Nílton e não marcado pelo comediante de preto Vuaden. Assisti ao lance várias vezes num vídeo da internet. Nenhum toque no pé do jogador vascaíno. A meu ver, nenhum pênalti. Mas o juiz poderia ter marcado, porque, sem as repetições, o lance dava pra enganar.
Se não marcou, é porque, lamentavelmente, faltou sorte ao time do Vasco.
E nós começamos esta conversa falando sobre jargões, sorte e azar.
Então, depois da péssima experiência no primeiro tempo de hoje, o treinador vascaíno deveria aprender a nunca mais abusar da sorte. É preciso trabalhar com o que ele tem, e escalar o melhor do que ele tem. O que passou, passou. E, se ele se acha (foi ele quem disse) um "burro com sorte", era melhor resolver o problema do primeiro termo ("burro") do que ficar contando apenas com o segundo termo (a "sorte").
Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter @hrainho
Cléber
08/09/2012 18:10:01
Hélio, vou repetir o meu penúltimo comentário na íntergra : "Hélio, Fiquemos tranquilos : nada vai mudar ! Não temos um meia-atacante com, ao mesmo tempo, velocidade e qualidade. E não teremos, salvo uma mudança brusca de visão dos nossos comandantes. Pois este meio não virá de fora, pois não há dinheiro. E não serão marlone e john Clay(não se é assim escrito), pois não há interesse em testá-los e, por um aborto da natureza, eles possam entrar, terão que jogar muito, demais mesmo, na primeira chance, pois jamais o Felipe ou qualquer outro figurão aceitará mais essa barração. Portanto, ficaremos nessa. Ataque lento ou débil, de toca pra cá e toca pra lá, e contra-ataque inexistente, vencendo equipes medianas em casa, empatando ou perdendo fora. E nos clássicos internos e externos, uma vez decisivos, perderemos sempre com ou sem erros dos apitadores. Desculpe, mas estou p.p.c. SV" SV
paulo henrique
06/09/2012 13:05:54
Ricardo Gomes não era lá um grande treinador, fez o óbvio, ganhamos uma copa do brasil e só. Cristóvão um eterno aprendiz, um burro com sorte, mas hoje ele se superou. escalou mal, substituiu pior ainda. Perdemos os últimos campeonatos por culpa desse cara. Mas sempre temos a desculpa da arbitragem, e agora, além desta, temos a perda do diego morto, do fagner, do romulo e do alllan, este eterno reserva. Enfim, se nos irritavamos com a desculpa da "herança mldita" que nao deixa a diretoria reforçar o time, temos a próxima, a divida com o Romário. Quando o vasco vai recuperar sua identidade e largar a bipolaridade???????????
leandro
06/09/2012 08:15:15
Olá Hélio,mais uma vez vc sintetizou a história do jogo.Mas como responsável formador de opinião foi sucinto e elegante na crítica ao Cristovão,eu que tenho compromisso apenas com a minha paixão, passional que sou portanto,disseminei ontem todas as minhas dúvidas a respeito do nosso comandante.Ainda que seja um homem polido,educado,bom caráter e que escapa do esteriótipo dos treinadores atuais,ele é muito fraco,ruim mesmo, e pelas declarações que vemos como a do Alecsandro ontem no intervalo,é centralizador.Não houve o grupo,nem a torcida e decide pela suas próprias convicções, errôneas e digamos até "estrambólicas" como as de ontem.Quem ao saber das ausências de Juninho e Felipe ontem não se lembrou da única opção de armação do time? CA era uma obviedade juvenil,clara e evidente,mas o opção por 4 volantes e as orientações para que jonas não apoiasse beirou o Ridículo,e tudo leva a crê que foi substituído por conta de sua veia ofensiva,que decididamente contrariava o "esquema" do nosso treinador.Cristovão,que pena,pois faria bem ao futebol com a sua postura,me parece fadado a síndrome "Andrade".A não ser que mude,ouça,pondere e faça o óbvio,simples,sem querer inventar,e deixe a covardia de lado,covardia que nos fez perder um Brasileiro e uma sul-americana e parece que vai nos levar novamente a um fracasso em 2012.
Ângelo Barros (MACEIÓ/AL)
05/09/2012 23:12:26
Mestre Hélio, vc é o " colunista " da palavra fácil,o saudoso Luíz Mendes era o "comentarista", não suporto comentar mais nada a respeito do nosso asno treinador, vai ser teimoso assim na conchichina, ele consegue numa facilidade tremenda, irritar a todos os torcedores do VASCO, e hj foi " jenial " mais uma vez, e diferente de muitas opiniões, acho SIM que perdemos 2 pontos, e não conquistamos 1, esse time do Náutico é muito ruim, um pouquinho mais de ousadia sairíamos com a vitória, mas quem tem Cristóvão Bastos no banco, não pode esperar muita coisa.
Monstros da Nossa Própria Criação...
Hélio Ricardo Rainho | 26/04/2013 16h41
Despedida Melancólica
Hélio Ricardo Rainho | 22/04/2013 18h42
Humano x Profissional
Hélio Ricardo Rainho | 05/05/2013 16h54
Refletindo sobre os Ciclos e Movimentos de Torcida
Hélio Ricardo Rainho | 13/05/2013 09h44





Comentários (4)