Plebe, Keane, Maroon e Dream Theater em sete dias
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 01/09/2012 15h02
A falta de tempo aliada à pequena maratona musical fez com que este desleixado blogueiro deixasse para um único post as resenhas dos quatro shows que assisti de pouco mais de uma semana para cá.
Plebe Rude racha concreto na Lapa

Na sexta-feira da semana passada o Circo Voador lotou para mais um show comemorativo de seu trigésimo aniversário. Depois de Titãs com "Cabeça Dinossauro" e O Rappa com "Lado B Lado A", foi a vez da Plebe Rude tocar na íntegra seu disco de estreia, "O Concreto já Rachou". E o quarteto brasiliense já começou quebrando padrões ao não apresentar o álbum na sequência original das faixas. "Nós somos a Plebe Rude e não este monte de MPB chato que rola aqui na Lapa". Este foi o boa noite de Philippe Seabra, bem ao estilo punk rock. "Plebiscito", do álbum Plebe Rude III, de 1988, abriu o show, seguida de "O Que se Faz" e "Censura".
A primeira música do "Concreto" foi "Brasília" e logo depois "Minha Renda", esta antecedida por uma gravação onde Chacrinha anunciava a banda, uma crítica aberta ao jabá. Cabelos grisalhos e corpos não tão em forma se debatiam nas rodinhas abertas na pista. Em um determinado momento, um homem de seus 40 e tantos anos subiu ao palco e arriscou um mosh. Ou quase isso. Se conseguiu levantar no dia seguinte, ninguém sabe.
Clemente, ex-Inocentes, ocupa com maestria o lugar de Ameba. Sua guitarra se encaixou muito bem com a de Philippe e em nenhum momento causaram confusão sonora. No baixo, Fred Ribeiro substitui André X, que está no exterior e na bateria, Marcelo Capucci, "enfim um baterista de verdade", segundo o vocalista. Em "Voto em Branco" ("seja alguém, vote em ninguém"), Philippe lembra que esta canção foi composta há quase 30 anos: "das duas uma: ou éramos videntes ou este país é uma palhaçada". "Proteção" e "Até Quando Esperar" levaram o público ao delírio. Durante o show, citações à Celso Blues Boy, Paralamas e Legião, cover de "Pânico em SP", da ex-banda de Clemente, e encerramento com Sex Pistols. Showzaço. Como faz falta uma Plebe Rude para ensinar a essa molecada como se faz.
Keane: gosto de quero mais
No dia seguinte, HSBC Arena igualmente lotada para ver Keane e Maroon5. Quanto ao Keane, sou suspeito por ser tiete, admito de peito aberto. É claro que a grande massa presente era de fãs dos americanos, mas me surpreendi com a quantidade de gente que estava lá para ver os ingleses e não o Maroon5.
Com um show compactado em uma hora cronometrada, o Keane abriu a noite com "You Are Young", faixa inicial do novo álbum, "Strangeland". Logo depois, as arrebatadoras "Everybody's Changing" e "Bend and Break", do disco de estreia "Hopes and Fears". É incrível como o tecladista Tim Rice-Oxley preenche todos os espaços musicais, apoiado apenas por contrabaixo e bateria. Tom Chaplin dispensa comentários. Sua voz é belíssima e não há diferença nenhuma dos registros em estúdio para o palco. Um monstro. No set list, todos os quatro álbuns estiveram representados. O único porém foi a ausência da linda "Disconnect", do novo disco.
Em "Somewhere Only We Know", o grande hit da banda, o público soltou a voz a pedidos de Chaplin, como de costume. "Bedshaped" fechou o show e deixou um gosto de quero (muito) mais. Sensacional. Sem palavras para definir, mas como opinião de fã não deve ser levada muito à sério, respeito quem discordar. No fim, o vocalista se despede com um "see you soon", deixando uma esperança de um breve retorno para um show completo.
Maroon5 surpreende ao trocar recursos eletrônicos por peso

O Maroon5 entrou no palco pontualmente às 23h30min para botar em prática o mesmo repertório do show da véspera, em Curitiba. Desde que optou por uma guinada radical em seu estilo, a banda angariou uma legião de fãs adolescentes, adeptos ao estilo bate estaca característico de seus último trabalhos. Confesso que não gostei da mudança. Sou mais chegado ao Maroon de "Songs About Jane", um suspiro de novidade e bom gosto dentre as bandas que surgiram no início do século. Porém a sonoridade ao vivo me surpreendeu positivamente. No lugar do uso abusivo de recursos eletrônicos, levadas funkeadas com um peso bastante satisfatório.
"Payphone", do novo álbum "Overexposed", abriu o show. A voz de Adam Levine, apesar de afinadíssima e suave, cansa um pouco depois de certo tempo, talvez por causa do excesso de agudos. O cantor mostrou versatilidade executando solos de guitarra e tocando bateria em "Seven Nation Army", do White Stripes. "She Will Be Loved" em versão acústica foi a última do setlist, assim como no Rock in Rio do ano passado.
No bis, um cover de "Don't You Want Me", do Human League e pra fechar, o megahit "Moves Like Jagger". A garotada amou, as menininhas suspiraram por Adam e eu fechei minha semana musical exausto.
No Dream Theater, sobra talento e falta música
Na última quinta-feira, foi a vez do Dream Theater. Perdi as contas das vezes que eles estiveram por aqui e, até então, eu resistia bravamente a vê-los ao vivo. Donos de técnicas invejáveis em seus instrumentos, os membros da banda fazem o que eu costumo chamar de "masturbação musical", onde só sente prazer quem está tocando. Sempre achei muita habilidade a serviço de pouca música. Desta vez me rendi e fui conferir ao vivo o show da turnê do novo álbum "A Dramatic Turn of Events". Por um momento achei que acabaria dando o braço a torcer.

De perto, é tudo muito impressionante. A precisão do baixista John Myung, a simplicidade com que o guitarrista John Petrucci toca as coisas mais complexas possíveis, a velocidade do tecladista Jordan Rudess e o empenho que Mike Mangini demonstrou em reproduzir toda a complexidade criada pelo baterista original, Mike Portnoy. Volta e meia, Rudess o orientava com sinais, talvez para lembrá-lo de algum detalhe. A bateria (o instrumento em si), diga-se de passagem, era um show à parte. Mesmo antes do show, fãs babavam ao admirar o enorme set de Mangini. Sim, não me esqueci de James LaBrie, um exímio cantor que acaba ofuscado pelo gigantismo da massa sonora instrumental.
"6:00", do disco "Awake" de 1994 e a segunda música da noite, é a que mais me agrada na obra dos americanos. Mas depois da terceira ou quarta música, quando passa o choque inicial, começa a sobrar virtuosismo e a faltar música. É tanta nota por segundo que fica difícil identificar mais da metade delas. Nada disso, porém, tira o brilho da apresentação da banda.
Independente do meu gosto, dentro do que se propõem a fazer, são perfeitos. Arranjos mirabolantes e canções com várias partes distintas entremeadas por solos de todos os instrumentos são executados com uma destreza ímpar. Depois de 2h40min de show, os fãs saíram de alma lavada. Talvez com 25 anos a menos nas costas eu adorasse. Hoje em dia prefiro buscar beleza nas coisas mais simples.
Alex Feitosa
26/09/2012 13:58:43
Belas críticas! Me senti nos 4 shows (embora só tenha ido a 2), e concordo com cada linha escrita. Também quis mais do Keane e me surpreendi com o Maroon 5. E a Plebe e o Dream Theater são diametralmente opostos. E na guerra entre o visceral e o virtuoso, vou ficar sempre com o visceral!




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