"A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação de palavras". Essa frase do mestre da ficção científica Philip K. Dick tem muito a ver com a trama de O Vingador do Futuro (Total Recall - 2012).
Não exatamente por ser dele, Philip, a obra original que inspirou as duas versões do filme. Mas fundamentalmente porque o atual estado das coisas, na sociedade em que vivemos, aponta para um domínio exercido pelo poder da palavra, pela neurose da comunicação. É quase uma pincelada nas teorias de Foucault em sua aula clássica "A Ordem do Discurso". Só que comprimida numa versão x-tudo de requintada tecnologia cinematográfica. O mais intrigante de tudo é que a comunicação de massa deixou de ser privilégio de oligarquias corporativas e passou a ser uma comunicação "viral", contagiosa, exercida cruelmente nas redes sociais. Visto que perfis dessas redes (Orkut, Facebook, Twitter e congêneres) converteram pessoas comuns em "líderes de audiência" por contingente de seguidores, não é mais a mensagem tratada da Comunicação Social (o texto jornalístico ou publicitário) que atua como instrumento único de dominação: indivíduos comuns podem usar diálogos e conversas pessoais para criar situações.
O inferno de Douglas Quaid (Colin Farrel, cada vez melhor!) em O Vingador do Futuro não está exatamente naquilo que ele vê ou vive, mas nas trocas de diálogos, nas falas com os demais personagens. A cada afirmação, a cada questionamento, a cada diálogo com seus pares ele entra em nova realidade, descobre-se ludibriado, percebe-se pertencente a um mundo ilusório construído para obscurecer sua memória real.
Em O Vingador do Futuro não chegamos a viver a agonia de uma trama que nos confunde. A sensação que se tem é de que o personagem vive sozinho sua agonia: nós conseguimos entender o que se passa, ao largo da crise existencial do protagonista.
É interessante como a questão da cidade tem sido abordada na ficção científica. Nesta releitura da obra de Dick, há referências à Metrópolis de Fritz Lang (Metropolis - 1927) e ao clima soturno e poluído de Blade Runner - O Caçador de Andróides (Blade Runner - 1982). Ao contrário da versão filmada por Paul Verhoeven em 1990 com Arnold Schwarzenegger - ambientando a Colônia no planeta Marte -, esta nova versão mostra uma cidade futurista hiperpovoada com ares orientais. A referência imediata é à China, atualmente a grande ameaça aos impérios mundiais, a exemplo da antiga União Soviética. Deve ser por isso que a cidade fictícia de Colônia, onde ficam as minorias dominadas, tem letreiros alternando textos em chinês/japonês e em russo.
No filme, as metrópoles futuristas apresentam-se com hangares, com níveis e plataformas que sugerem "camadas sociais" literalmente arquitetadas para comportar o excesso populacional, visto que a Terra encontra-se quase toda devastada e as populações de todo o globo estão concentradas em duas áreas restritas do mapa. Faz-se necessária a convivência numa espécie de "cidade-beliche", sobreposta em camadas, e não fica claro se existe alguma distinção social para seus patamares diferenciados de altura.
A luta obstinada de Douglas Quaid para alcançar um posto avançado em sua jornada profissional acaba por fazê-lo recorrer a uma experiência virtual para sentir-se recompensado em sua frustração real. É essa escolha que desencadeia toda a trama. Sob tal aspecto, a entrega de Quaid a essa experiência de alienação como recompensa pessoal nos remete às doses a mais de saquê na sociedade japonesa (onde o alcoolismo caminha paralelo às exaustivas jornadas de trabalho) ou ao fenômeno das drogas nas sociedades contemporâneas (o ópio mortal contemporâneo). É no escapismo, na fuga de sua realidade, pretendida apenas como algo momentâneo, que Quaid acaba descobrindo o indesejado: a viagem pela alienação e pelo ilusório pode ser de ida sem volta. Ele perde o controle da situação e não mais consegue distinguir real e virtual.
São as palavras - fundamentalmente as dos outros, dos discursos alheios - que o encaminham adiante. Tanto para se encontrar quanto para, em alguns casos, perder-se ainda mais de si mesmo.
É injusto dizer que esse filme é um remake. Incorreto, até. O diretor Len Wiseman parece ter encomendado a seus roteiristas Kurt Wimmer e Mark Bomback uma versão direta do original, com nuances próprias, não obstante algumas citações de cenas da obra do diretor Paul Verhoeven.
Coadjuvado à altura pelas belas Kate Beckinsale e Jessica Biel (a primeira, sobretudo, em estado de graça no quesito estética feminina, irrepreensivelmente encantadora), Colin Farrel está, mais uma vez, brilhante. E isso já não traz aceno de novidade: antes consolida-se como lugar comum. É realmente um plus ter um ator expressivo como ele à frente de um filme do gênero. Até mesmo na foto-referência do filme, com o ator sentado à cadeira que o teleporta a outra dimensão, a comparação com as caretas canastronas de Scharzenegger denota a distância gigantesca entre um ator profissional e um ex-mister universo alçado ao cinema. Com todo respeito e toda a reverência merecida ao velho e bom (mesmo quando ruim) Schwarzenegger, Colin é infinitamente mais expressivo, convincente. Sua filmografia denota e reitera tratar-se, de fato, de um grande ator.
O melhor de se assistir a um filme como O Vingador do Futuro é saber que o cinema pode ser mais do que simplesmente o entretenimento prometido pelo lastro de efeitos especiais e inigualável produção de arte que os estúdios de Hollywood ostentam em seus arcabouços técnicos. Quando perfeita, a combinação dessa linha de produção tecnológica com uma reflexão dramática que revolve temas presentes em nossa sociedade torna-se um ponto importante para reflexão.
Este deve ser o papel da ficção científica: criar entretenimento, sobretudo, com vistas a uma projeção futura acerca das coisas presentes.
É no engodo das palavras, na perturbação de seu uso e no aspecto viral dos discursos que todos nõs, homens e mulheres do século XXI, estamos sujeitos a ficar encantados pelo canto de sereia do mundo moderno e perdermos a nossa consciência e a nossa memória para aquilo que nos é introjetado virtualmente.
Ainda que não precisemos sentar em uma cadeira da Rekall, como no filme, com cabos ligados às nossas cabeças. Talvez esse estado de alienação nos ocorra diariamente, nos tirando de nossa realidade, quando sentamos no sofá de nossas salas, diante da televisão.
Que venham as poltronas do cinema para nos libertar dessa Colônia...
Hélio Ricardo Rainho é roteirista, diretor teatral, colunista do SRZD e colaborador da editoria de
cinema.
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