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Dinamite: tão longe de nós...

Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho | 01/08/2012 22h10

O circo está armado! Roberto Dinamite acatou o pedido do Fluminense e cedeu a Colina Histórica para seu rival. Diplomaticamente essa notícia e essa decisão não teriam causado nenhuma repercussão mais ácida, a não ser pelo fato de o Fluminense vir se constituindo - nos últimos anos - em um suposto aliciador de jogadores e dirigentes do Vasco. 

É impressionante como a diretoria híbrida do tricolor (fusão indissolúvel da bandeira do clube com a insígnia do plano de saúde que o colonizou) especializou-se nisso: acossar e assediar o que dá certo no Vasco. Apoiados no discurso de que "quem tem, paga", escrutínio característico do jogo de cavalheiros do atual futebol brasileiro, tudo se justifica e a ética some. Era de se esperar que, numa hora em que os cavalheiros tricolores ligam para Sâo Januário para pedir a cessão do estádio em detrimento da "parada" do Engenhão, o presidente vascaíno ao menos lhes perguntasse onde eles acharam o telefone, visto que ninguém nunca ligou para lá antes de surrupiar atletas e dirigentes com contrato firmado em São Januário.

Mas não. Sereno, pacífico e tolerante, o presidente Roberto Dinamite seguiu o diapasão dos complacentes. Julgando ser um ato político de "boa vizinhança", sorriu para a interpelação e cedeu o estádio. Acreditou, com isso, ter dado um bom exemplo.

Não me interessa, neste momento, julgar a conduta ou a atitude de Roberto. Não me interessa por alguns motivos. O primeiro deles é que respeito por demais a gloriosa torcida do Vasco da Gama, essa massa enorme de corações apaixonados. E ela já deu, praticamente por unanimidade, a sua sentença. A torcida "vaiou" Roberto. Se ela vaiou, não importa o que eu penso ou escrevo a esse respeito, porque ele já foi julgado por uma maioria que o considerou equivocado. Somos um clube que várias vezes acolheu os adversários locais nas suas dependências, com menos celeuma que desta vez. São Januário já foi cedido até para desfiles de escolas de samba, e eu tenho orgulho de saber que a minha Portela foi a campeã histórica de 1943 desfilando lá dentro do estádio. O caso é que, agora, o ato pareceu equivocado diante de fatos recentes nas relações entre esses dois clubes.

O que me chama atenção, nessa história toda, é a distância entre Roberto e a torcida. Como presidente, como governante, ele parece alienado do que está no coração do seu torcedor. Ele, que como ídolo sempre soube ouvir e atender os apelos da torcida, parece ter vencido seu "prazo de validade", pois também foi eleito sob indiscutível apelo popular dos vascaínos. Pois bem, esse Roberto outrora tão cônscio, agora parece independente... ou distante... ou blindado!

Pois é. Eis aí no que deu a blindagem toda. É por isso que não gosto de transformar políticos, ilibados que sejam, em seres únicos, mistificados, transcendentais. Parece que o Roberto - o presidente do Vasco - aprisionou-se no universo da blindagem que tanto lhe ofereceram, e, agora, acha-se tão aceito e tão impoluto diante de sua torcida/eleitorado ao ponto de tomar, sozinho, uma decisão como esta. Por não ser um tirano impositivo, eu acredito sinceramente que ele desconheça o que pensa a torcida do Vasco a esse respeito. Só deve ter tomado conhecimento de como isso repercutiria mal para ele após ter tomado a decisão. Amoleceu no telefonema porque esqueceu a quantas anda o "sentimento que não pode parar" dentro do peito de cada um de nós - eu, você, o Erasmo Carlos, a Fernanda Abreu, o Lédio Carmona, o Claudinho da Força Jovem, o seu Manoel da Padaria, o Rogério de Vila Isabel, o Carlos Buruca, o Vitor Roma, o Diogo Moraes, o Rafael Guilherme, o Dudu da Portela, o Marcos Lima, o Oswaldo Neto, o Carlos Gregório, o Weder de Belém, a Linda Elane, o Dr. Jorge Veríssimo, a Bethynha vascaína, o Leandro da Bahia...

Roberto não conhece mais a torcida do Vasco. Que pena...

Senhor presidente do Vasco, este clube tem torcida! Esta torcida, que o elegeu e o aclamou maior ídolo de todos os tempos, tem coração! Errados ou certos, preferem até serem contrariados, mas JAMAIS ignorados ou vistos assim, de tão longe, numa situação como essa!

Foi assim, queridos vascaínos, que Fagner e Diego Souza saíram. Juninho só não sairia assim porque ele é tudo o que nos comove: ouvidos, olhos e coração dentro da torcida que o proclamou - não presidente, mas Rei da Colina!

Eu lamento profundamente por essa distância entre o presidente Roberto e sua torcida. Lamento pela má assessoria também, embora ele nem devesse precisar dela para isso.

Só espero que, caso ele se sinta muito mal após refletir sobre essa mancada, o dono do plano de saúde providencie uma ambulância bem bonitinha, para justificar a troca de gentilezas.

Mas temo que a sirene da ambulância chegue a Sâo Januário tocando o hino tricolor. E o presidente aceite! "Em nome do futebol carioca"...

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