SRZD | Livros e filmes


Livros e filmes

Soares Junior | Soares Júnior | 05/09/2008 19:36:00

Encontrei-me com os livros tardiamente. Apesar das coleções que meu pai tinha em casa, como "Tesouros da Juventude" (essa, só os muito antigos vão lembrar), não me interessava. 

Minha infância foi nos anos 70 e a televisão foi minha babá em várias oportunidades. Frustrava-me por não saber fazer os desenhos do Daniel Azulay ou os recortes do Plim-Plim. Em compensação, me sentia o próprio Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo. Armado com uma atiradeira, pensando em subir na árvore para comer jabuticaba. Claro, também sentia uma pontinha de ciúme do príncipe Escamoso por ele flertar com a Narizinho. Inconscientemente a escolha do nome do meu filho pode ter passado por essa fascinação por um Monteiro Lobato televisivo.

De repente entro na Biblioteca Infantil Maria Mazzetti, na Fundação Casa de Ruy Barbosa. Fui abduzido pelo mundo das letras. A primeira paixão literária foi a Inspetora. Escritos por Santos Oliveira, os livros contavam a história de uma menina que usava óculos e desvendava vários mistérios. Peraí, a Welma do Scooby-Doo também usava óculos. Ih, na ficção as mulheres inteligentes usam óculos. Eu conheço várias na vida real que não usam. Aliás, com a experiência de mulher, filha e cinco irmãs, asseguro, todas as mulheres são inteligentes, pelo menos as que me cercam.

Acho que toda criança deveria se deparar com a magia de uma biblioteca. O universo se descortina, a gente viaja no tempo, tira espada encravada em pedras e vira amigo do Hércules. As facilidades da internet não deveriam distanciar as crianças de uma sala (não-virtual) recheada de livros. Em contrapartida, fico feliz com eventos como feiras de livros infantis, às quais  crianças de 5 anos  são levadas em excursões por suas escolas e lá escolhem e compram seus livros. No meu tempo nem se pensava nisso

Ainda por esta época vi dois filmes que me trouxeram paixão, angústia e vontade de cultuar os amigos. Perdão, não vou citar Fellini, Bergman ou Truffaut. O primeiro é "Conte Comigo", estrelado por River Phoenix. Um grupo de meninos se reúne para achar o corpo de um garoto no meio do mato. No percurso cada um coloca as suas mazelas, recalques e no fim aflora o heroísmo.  O filme não impressionou só a mim. Milton Nascimento compôs uma canção para o protagonista. O outro é "O primeiro ano do resto de nossas vidas". Neste típico exemplar dos anos 80, Rob Lowe (com a cara do Alain Delon), Demi Moore (antes de todas as plásticas e linda) e Andie MacDowell fazem parte de uma turma que tenta se manter unida mesmo depois da faculdade.

Nossa quanta nostalgia!

Estes filmes me lembram juventude e incertezas. Nessa fase achamos que chegará o dia da certeza absoluta. O tempo passa e quero confessar tanto aos que me conhecem há mais de 20 quilos- quer dizer anos- quanto aos que chegaram agora: sei menos a cada dia e isso é angustiante. Continuo lendo para ter mais coisas a perguntar, mas se tenho mais coisas para perguntar é porque as dúvidas aumentaram.

Que paradoxo!?

 


| Topo

Notícias relacionadas


Atenção: Maiúsculas e Minúsculas são consideradas diferentes!. É necessário digitar essa imagem para evitar Spams e mensagens automatizadas.

Declaro que as informações acima são de minha inteira responsabilidade, cabendo a mim toda responsabilidade sobre o conteúdo aqui escrito.

Declaro saber que o SRZD registra informações que possibilitam rastrear a localização e informações reais do autor deste comentário e que estarão à disposição imediatamente sob ordem judicial.


Postado por:Cristiana Alvim Richard | 16/09/2008 13:28:21

Que delícia poder relembrar bons tempos!! Tempos de 'Tesouros da Juventude', de Daniel Azulay e Plim-Plim. Nossa tô ficando velha....rs. Este último me traumatizou pra sempre....porque na hora do plim!, minha dobradura nunca dava certo. Os primeiros livros dos quais me lembro que tive contato foram "A fada que tinha idéias', 'Ou isto ou aquilo' e o livro do 'Porquê'. Estes títulos já revelam meus questionamentos e dúvidas. O mundo informatizado com certeza veio aumentar estas dúvidas, mas como viver sem 'Google' e cia?? O importante é separar o que presta do lixo eletrônico.....e para isso acredito ser importante conhecer outros 'mundos', como subir em árvores, comer fruta direto do pé e ler um bom livro na sombra de uma árvore. A formação lúdica e social é essencial na formação infantil. Que bom que ainda temos questionamentos.....é sinal que o cérebro ainda funciona......rs. Acho que o desafio será separar o joio do trigo ....quem conseguir achar este equilíbrio será mais feliz.....mas que é difícil é. Até a próxima. Bjs

Postado por:Chelly Sarah | 16/09/2008 13:12:28

Nossa! Esse texto é f... ormidável... Lembrei de um fato na minha vida que foi marcante d+. Qdo estava na 2ª série, meu colégio nos levou à Bienal. Eu estudava em colégio particular pago pelo meu padrinho e minha família estava numa dureza assustadora. Consegui o $ para o passeio vendendo figurinhas. Fiquei encantada qdo cheguei num mar de livros, principalmente infantis. Chorei. Por 2 motivos: ao ver tantos livros legais que queria ler e ao lembrar que não tinha $ para comprar nenhum. Minha professora acabou me dando um livrinho bem fininho. E minhas colegas compraram vários livros para várias pessoas e um monte de besteiras que também estavam à venda. O seu texto retrata muito das frustações de alguns que tiveram uma infância movida a fantasias e conduzidas pela imaginação. Hoje tudo é muito imediatista, tem imagens e movimentos demais e os livros foram substituidos pelo MSN e Orkut... dá um certo pânico do que tem por vir... Tempos bons... ai, ai... que nostalgia mesmo... Pode deixar que continuarei lendo sempre, querido professor... Grande abraço...

Postado por:Gabriel Portugal | 11/09/2008 01:38:21

Eu fui da época sem computador. E quando criança não cultivava grande amor pelos livros. Minha vida era esporte, esporte e mais esporte. Praticar, ler no jornal, assistir...livros só na hora de estudar! Meu amor por eles começou quando eu parei de ler para fazer provas da época do ginásio. Ai eu conheci um universo novo e me interessei pelo jornalismo. Da mesma forma conheci o PC. Dai em diante vivemos um caso de amor e ódio. Hoje acredito que os dois podem viver em perfeita sintonia. Comigo funciona.

Postado por:Viviane da Costa | 10/09/2008 21:28:10

Assim como o Heitor, acho que eu ainda peguei o finalzinho da transição livros/internet. Até a sexta série, mais ou menos, ia pra biblioteca da escola abrir aquelas enciclopédias enormes pra fazer trabalho. Foi lá eu que "descobri" meu amor pela leitura, quando li um livro no qual vc montava sua própria história. Hoje eu vejo no meu irmão, que é apenas cinco anos mais novo, a perda de magia dos livros, o que é uma pena. Ele até lê, mas não tem aquele brilho nos olhos qd pega num livro novo. É uma pena. Mas outros valores virão, espero eu. Os próximos têm que ter alguma motivação mesmo que seja virtual.

Postado por:Heitor Lannes | 09/09/2008 22:02:22

Ótimo texto. É angustiante mesmo a relação livros X computador. Acho que sou da geração da transição. Lembro-me das primeiras pesquisas para trabalhos escolares no Palácio da Cultura, biblioteca municipal de Campos. Mas o Google não tardou a entrar na minha vida. Hoje ainda me vigio para ver se estou lendo o suficiente. Durante um tempo só lia sobre jornalismo, tenho muitos livros sobre isso. Agora quero voltar aos clássicos. Estou tentando ler, por prazer, aqueles livros obrigatórios ? logo, chatos - do colégio. Mas somos todos cada vez mais dependentes do computador, não sei como vai ser a geração do meu filho.

Postado por:marcus | 06/09/2008 14:08:57

gostei de sua cronica, que chegou até o meu e-mail devido ao 'alert' do yahoo para Monteiro lobato, que sou fã e estou devorando sua obra adulta. me identificquei com seu texto e os sentimentos que vc coloca nele. abrs!

Soares Junior

Jornalista desde 1996. Depois de passagens pela TV Bandeirantes e Rádio Tupi ingressou na rádio CBN. Durante os 9 anos no Sistema Globo de Rádio, ele apresentou e redigiu O Globo no Ar, fez cobertura aérea de trânsito, ancorou e foi chefe de reportagem. Soares Júnior é professor da PUC e da Escola de Rádio.