Qual é o fundo do poço?
Julio Hegedus Netto* | Economia | 05/09/2008 19:26
O fantasma da recessão voltou a assombrar o mundo na semana passada. Em função de uma série de indicadores negativos nos EUA, na Europa e no Japão, os mercados de ativos acabaram oscilando nervosamente, com maior destaque para as bolsas de valores. Na semana, o Ibovespa recuou mais de 9% na primeira semana de setembro, já mostrando perdas maiores do que 20% no acumulado ao ano.
Muitos consideram que o pior da crise ainda não apareceu, sendo refletido na quebradeira de um grande banco, tanto europeu como norte-americano. Por lá, cerca de dez instituições de menor porte já declararam falência. Daí, a indagação deste Panorama: afinal, qual é o fundo do poço ? Muitos considerariam este o momento atual para irmos às compras no mercado de ações, dadas as pechinchas nas principais ações. Difícil ter esta certeza, visto que os acontecimentos recentes configuram um ambiente de fraco crescimento da economia mundial por um longo período.
A justificar este receio, o fraco desempenho dos PIBs na Zona do Euro e no Japão, além da inflação ameaçando, o que obrigou os bancos centrais da Europa e da Inglaterra a manterem uma postura de neutralidade nas reuniões da semana passada, mantendo suas taxas de juros básicas estáveis. O BCE, com as recomendações de Jean Claude Trichet, resolveu mirar o ritmo mais fraco da economia real, mantendo o juro nos 4,25% anuais, mas com um "viés de baixa", embora a inflação siga preocupando, já tendo registrado 3,8% anualizados em agosto. Informalmente, assim como para o Fed, a autoridade européia determina uma meta implícita de inflação de 2% para a região.
Na Inglaterra, o mesmo ocorreu, com o Banco Central de lá, mantendo sua taxa de juros nos 5% anuais. Percebe-se, para ambos, o mesmo dilema, entre aquecer a economia, evitando uma recessão, ou controlar o movimento de alta dos preços. Por enquanto, dado o cenário atual, optou-se pela primeira opção.
Nos EUA, uma série de indicadores de mercado de trabalho, divulgados na semana passada, foram indícios fortes de que a crise de crédito e depois financeira já afetam a economia real, com reflexos sobre a taxa de desemprego, tendo registrado 6,1% da PEA, a maior em cinco anos, e sobre o nível de renda real.
Sendo assim, na opinião desta Consultoria, a previsão é de um crescimento da economia norte-americana em torno de 2,0% neste ano, recuando a 1,0/0,8% no ano que vem, com o desempenho deste ano só não sendo pior em função do pacote fiscal anunciado (restituição de imposto de renda), tendo gerado efeitos expansivos na economia no primeiro semestre do ano. Com este pacote, o crescimento do PIB acabou em 3,3% no segundo trimestre, mas deve recuar nos próximos trimestres do ano, dada a diluição dos seus efeitos. Na Zona do Euro se observa o mesmo enfraquecimento, com a economia não devendo crescer mais do que 1,3% neste ano e no próximo, com o Japão devendo evoluir no mesmo patamar.
Paralelo a isto, observa-se nas últimas semanas um processo de desmonte de posição no mercado futuro de commodities da Bolsa de Chicago, diante da perspectiva da economia mundial crescer menos, com a demanda por estes ativos se reduzindo, e o dólar se fortalecer, num movimento generalizado de ?aversão ao risco? dos mercados. Isto contribuiu para derrubar as cotações das principais commodities, comercializadas na economia mundial, nas últimas semanas. Resta saber, no entanto, qual deverá ser a extensão deste movimento de quedas, visto que a economia chinesa segue como "grande motor do crescimento", puxando a economia mundial e amortecendo uma possível recessão global ou, na opinião de alguns, um surto recessivo entre os desenvolvidos.
Pelos dados da CRB Reuters, o movimento de forte alta das commodities teve início a partir de 2002, puxado pela abundância de crédito da economia mundial, fruto de uma política monetária leniente entre os países desenvolvidos, com destaque para o Fed de Alan Greenspan. Lembremos que entre 2001 e 2003, ele acabou se vendo "forçado" a afrouxar sua política monetária, reduzindo a taxa de 6,25% anuais para cerca de 1%, visando fazer frente aos escândalos contábeis ocorridos nas empresas energéticas, o ataque às ?Torres Gêmeas?, o esgotamento das "ponto.com", entre outros fatores. O problema é que, diante da necessidade de manter a inflação controlada e dosar esta retomada de crescimento da economia norte-americana, Greenspan acabou elevando o juro no período subsequente, gênese na opinião de muitos para se explicar a "crise do subprime", detonada entre 2006 e 2007.
Este movimento de forte crescimento da economia mundial, entre 2001 e 2006/07, com taxas próximas a 5%, no entanto, acabou beneficiando os emergentes, ainda mais com a inserção de um importante país, a China, num ambicioso projeto de crescimento sustentável de longo prazo e a aplicação de um modelo econômico conhecido como "socialismo de mercado." Nos dias de hoje, a China se coloca como a "grande demandante mundial por commodities", dada a poupança doméstica da sua economia, sua mega população e o muito a ser feito em termos de investimento em infra-estrutura produtiva e urbana. Por isto, considera-se que este "dragão asiático" ainda deve manter por um longo período, um bom ritmo de crescimento de longo prazo, próximo a 8,5/9,0% ao ano, puxando a demanda mundial por metais, petróleo e alimentos.
Este movimento, inclusive, pode ser visto pelo índice CRB Reuters. De algo em torno de 200 pontos no início de 2002 foi a 475 em meados de julho passado, com uma variação positiva de 137%, mesmo que tendo recuado a 375 agora em setembro, com uma variação negativa de 21%. Isto pode ser visto pelo gráfico ao fim, mostrando a trajetória deste índice que engloba cerca de 19 commodities desde abril passado.
Neste caso, podemos enumerar as commodities em três grupos bem definidos: o primeiro, a matriz energética, com o petróleo, o segundo, dos produtos agrícolas, com destaque para trigo, milho e soja, e o terceiro, as metálicas. Abrindo estas janelas, observa-se o petróleo em boa acomodação, previsto num patamar entre US$ 100 e US$ 120 para os próximos meses; no segundo, sendo preocupantes os fatores climáticos e os estoques mundiais baixos, e no terceiro, numa trajetória mais estável, dado que o balanço entre oferta e demanda é mais equilibrado e portanto mais previsível. Neste caso, o que pode afetar a trajetória do preço do minério de ferro está muito mais relacionado às restrições de importação dos países interessados. Sobre o petróleo, por outro lado, o que preocupa são os chamados gargalos pelo lado da oferta, dado o lento processo de maturação dos seus investimentos, além dos fatores geopolíticos de sempre. Outro fato a preocupar vem sendo a postura muitas vezes "política" do cartel da Opep, interessado no agrado de alguns dos seus países membros, em sua maioria pseudo-ditaduras populistas.
Neste emaranhado de junções e interesses, muitas vezes conflitantes, e diante de uma demanda asiática ainda forte, até porque a China segue aquecida, não se acredita num "derretimento" das commodities para os próximos meses, sendo mais plausível prever uma acomodação do forte movimento de alta em passado recente.
E como ficam os desenvolvidos ? Impactados pela crise financeira, tanto a Europa, como o Japão e os EUA crescerão bem menos nos próximos trimestres, até podendo acarretar em taxas negativas seguidas, configurando quadros recessivos. No entanto, acreditamos que as ações dos bancos centrais e dos Tesouros dos países envolvidos serão cruciais para se evitar uma recessão duradoura. Teremos estas economias andando de lado por um tempo, com uma recuperação lenta, possivelmente, ao fim do ano que vem. Definitivamente, o ciclo agora é de baixa e de lenta recuperação no "circo da economia mundial". Estas são, por ora, as nossas expectativas.
* Julio Hegedus Netto
Economista-chefe
Lopes Filho & Associados, Consultores de Investimentos
julio@lopesfilho.com.br
Caros amigos, acessem o meu blog "De olho na economia" pelo portal www.ondeinvestir.com.br.


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