Caído ou de pé: Juninho, Sempre Rei!

Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho | 26/07/2012 16h08

Diz o velho ditado: "em terra de cego, caolho é rei!". Então podemos concluir que São Januário não é "terra de cego". Porque o rei que lá está, empossado com honra e dignidade na envergadura exemplar da camisa que veste, é um rei que de caolho não tem nada. Reinando soberano em uma terra onde o séquito e os súditos têm os olhos bem abertos, prevalecem a graça e a perenidade do futebol de Juninho Pernambucano.

Já devíamos estar calejados com tamanha grandeza. Mas parece que ainda não estamos. Ao vermos o lance decisivo do jogo de ontem à noite, lembramos imediatamente de outro dito popular, aquele que diz que "quem foi rei, nunca perde a majestade". E se a glória de ser um rei é estar sempre erguido, seja no trono ou na sacada para o pronunciamento, um rei de verdade não perde a majestade nem mesmo quando está caído. Dali mesmo, da queda subita ao chão, acossado por adversários, um rei não se entrega: briga, luta, se esforça. Decide o jogo com raça, entrega, emoção.

Juninho é uma afronta ao modelo de futebol que está aí. Sim, ele, na suprema simplicidade de seu futebol vistoso, elegante e produtivo, é uma afronta ao invencionismo que adentrou o futebol brasileiro. É também uma afronta (e eu já disse isso com outras palavras, porque tenho muitas para dizê-lo) à mentira da imprensa cínica e canalha que promove e derruba seus objetos de prateleira a três por quatro. Juninho não faz parte do modelo show business enquadrado no trinômio "sexo-drogas-rock'roll" que a onda midiática promove, interessada que é em lucrar abusivamente em cima dos cadáveres que ela mesma cria, propaga e sepulta.

Juninho, não! Ele prevalece como prevalecem os reis. Sem perder a majestade porque ficou gordo, porque ficou "velho", porque ficou sem contrato, porque ficou sem salário, porque ficou sem qualquer outra coisa.

A impressão que eu tenho, quando vejo Juninho em campo, é de que ele pode ficar sem qualquer coisa, a não ser sem uma camisa do Vasco sobre a pele! Sem uma cruz de malta sobre o peito, sem o canto uníssono de sua torcida-família a proclamar seu reinado e sua graça.

A imagem de Juninho caído, acossado, marcado ferozmente por adversários (diga-se de passagem, leais) é emblemática para o futebol atual. Ela mostra um rei tombado, caído. Mas, apesar disso, é um rei com o mesmo espírito bíblico presente no discurso do apóstolo Paulo... "atribulado, mas não angustiado; perplexo, mas não desanimado; perseguido, mas não desamparado; abatido; mas não destruído".

Dali, do chão onde qualquer outro na sua "idade" se fartaria em acenos e gestos espalhafatosos, em apelos sensacionalistas para um portador de apito que vagasse sobre os gramados, Juninho permaneceu rei.

Ilhado, solitário, derrubado, o reizinho da Colina mostrou que um rei de verdade, para reinar, nem precisa estar de pé. Tombado, criou a jogada decisiva e fatal que, num relance, definiu o clássico.

Deve ser por isso que o reinado de Juninho ofusca os falsos "impérios" que a máfia da imprensa-supermercado impõe. Como se fosse uma milícia ofertando falsa segurança, falso bem estar e falso acesso a bens de consumo, a mídia arrasta multidões de incautos com suas promessas de informação rápida e conhecimento de causa. Seduz, alicia, atormenta. Precisa, portanto, de garotos-propaganda criados à sua (vil) imagem e semelhança para conseguir seu intento comercial, que nada mais é do que o ciclo de vida de seus "produtos" inventados: introdução, crescimento, maturidade e declínio. De todas essas fases alimenta-se a imprensa-supermercado.

Mas quando se tem um rei como Juninho, de causa devotada a uma paixão, de genuína entrega e de sincera dedicação, a coisa muda de figura. Talvez ele não atraia os mesmos patrocinadores, as mesmas audiências escusas, os mesmos investidores sensacionalistas, os mesmos holofotes. Mas o seu lugar está guardado, assegurado. Ele permanece inviolável, blindado, à prova de assédio. Pela força que tem, ninguém o compra, ninguém o usa, ninguém o suborna, ninguém o explora!

Juninho não está cansado, não está com preguiça, não está à venda.

Juninho Pernambucano não está numa prateleira de supermercado.

Assim, fiel a seus princípios e apaixonado pela camisa que veste, ele prova que nem mesmo quando o derrubam ele efetivamente cai.

Do chão, caído, mostrou na noite de ontem a sua admirável classe.

E a torcida - esta sim! -, para aplaudi-lo e aclamar o seu nome, fez questão de ficar de pé.

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Comentários (11)

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pablo vitor

14/08/2012 22:24:58

ele foi muito bom de falta que nem o reiZinho da colina que e o juninho pernanbucano

Matheus Oliveira

27/07/2012 23:32:10

Parabéns Hélio Ricardo! Sábias palavras.... Juninho é o meu MAIOR ÍDOLO no futebol dá-lhe Vascão Rumo ao Penta SV

Adalberto José de Farias

27/07/2012 14:01:58

Reizinho e Rainho (Hélio) Insuperáveis! São reis no que fazem, monumentais.

Luiz Fernando

27/07/2012 13:10:56

Hélio, parabéns ! Faz tempo que não vejo, ou melhor leio, um texto tão verdadeiro com sentimentos que todos os vascaínos possuem pelo REIZINHO. Um abraço.

Cléber

27/07/2012 11:04:41

É verdade ! Se a mídia, cheia de gente "boazinha" com estórias emocionantes, fosse autêntica, teria um belo exemplo de decência a ser exibido a toda hora. Mas não, meus amigos !!! Nada é dito. Nenhuma referência ao homem ou ao clube. Um cara desse. Um exemplo para uma sociedade e nenhuma mídia, nenhum programa do gugu, fantástico, faustão...nada. INCRÍVEL MESMO !!! Mas dá para entender. Nele, se concentram duas coisas que eles mais odeiam : A VERDADEIRA DIGNIDADE e CLUBE DE REGATAS VASCO DA GAMA !!! SV

luciana de sousa de castro belan de lima

27/07/2012 02:35:22

Excelente... sem palavras,ammooooooooooooo o VASCO E O REIZINHO.

Weber Fadel

26/07/2012 18:59:40

Que coluna magistral, meu querido amigo. Depois dessa ode a um rei, linda e poeticamente decantado por você, faltam-me palavras para descrever o meu encanto. Apenas leio e releio... Parabéns, Hélio Ricardo!

Carlos Alberto

26/07/2012 17:24:46

Linda demais cara esta coluna Hélio, cara vc disse em maestria a qualidade deste guerreiro vascaino, pena que não temos tantos juninhos no restante do elenco. Mas fazer o quê? Somos imperfeitos.

Gabriel Nobre

26/07/2012 16:58:08

Essa tem o DNA do Hélio, por isso é belíssima! E o Rei, ah o Rei...eu já elogiei e falei tanto nele hoje que só alta escrever ao Papa uma ordem de canonização para o Rei!

Jorge

26/07/2012 16:46:21

Belíssimo texto Helio!!!!

Jaciel Costa

26/07/2012 16:19:25

Perfeita!