Aleijadinho e os Profetas
Claudia Ferraz | Fé | 04/09/2008 17:16
Antonio Francisco Lisboa nasceu no apogeu da era do ouro e dos diamantes nas Minas Gerais do século XVIII dominado pelo pensamento Barroco e suas tensões, inquietações, religiosa, política e econômica. O Barroco se espalhou pela Europa a partir da Itália e chegou ao Brasil colônia com a sua forma modificada e adaptada pela cultura portuguesa. Affonso Romano fala de uma "tropicalidade do Barroco", os trópicos são contrários à rigidez, valorizando as formas sensuais, o excesso de luz gera um coquetel de cores, é uma estética diferente, intensa que influenciou de modo fundamental a expressão do estilo Barroco no Brasil.
Nas Minas Gerais do Tempo de Aleijadinho, a população de Vila Rica era maior que a do Rio de Janeiro e os gostos, as modas e produtos europeus inundavam as ricas cidades mineradoras. Cada vez mais rápido as novidades chegavam do outro lado do oceano mesmo tendo a metrópole fechado o acesso a região por um período dificultando a comunicação da região com outras cidades. O ouro atraiu um excesso de população masculina e o pequeno número de mulheres brancas ajudou na miscigenação de raças. Aleijadinho era mulato e foi fruto desse tipo de união tolerada e mesmo incentivada. Mas os mulatos viviam em situação humilhante e mesmo sendo talentosos eram discriminados nas atividades esculturais e arquiteturais. Eles não podiam ser chefes e a licença para trabalhar era sempre temporária chegando algumas irmandades a não aceitar negros, mulatos ou qualquer um que não fosse pura raça branca para freqüentar suas igrejas. Mas o preconceito não foi forte o suficiente para impedir que o talento de Aleijadinho servisse as irmandades mais segregadoras e fosse reconhecido como mestre em vida mesmo não podendo assinar os termos contratuais por não ser branco.
No auge da exploração do ouro, a coroa chegou a proibir por um determinado tempo a entrada de padres, do clero regular e de ordens religiosas na região, temerosa do poder que estas poderiam exercer na administração e na exploração das riquezas levadas para Portugal. Desse modo, as sociedades mineiras se organizaram em ordens leigas, irmandades e confrarias que se encarregaram da construção de igrejas rivalizando e disputando os mestres disponíveis. Na "Meca da Liberdade", era assim conhecida a cidade de Vila Rica, o isolamento fortaleceu aquela sociedade e gerou um clima de maior flexibilidade dando oportunidade aos artesãos de criarem novas formas a partir dos padrões europeus de arquitetura, da talha e de toda a imaginária religiosa. As ordens eram as maiores encomendantes, traziam da metrópole gravuras e modelos a serem seguidos debatendo sobre os materiais, os aspectos teóricos e estéticos com os artesãos. Nessa mistura tropical cresceu e viveu Aleijadinho, a sua obra vai surgir no começo do período de decadência do ouro, época conturbada onde a fé teve papel apaziguador sobre o espírito humano. A escassez do ouro e a crise econômica acarretada levou a uma grande devoção aos santos, algumas igrejas foram financiadas por civis como promessa e outras foram erguidas através de várias doações.
Erguida para pagar uma promessa após a graça recebida, na Igreja de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo doze profetas em pedra sabão recebem os fiéis revelando de forma genial o conhecimento espacial arquitetônico que Aleijadinho aprendeu no ofício e na tradição dos mestres portugueses. Na época, em Portugal, as construções não colocavam a escultura como uma arte autônoma, ela era um apêndice da arquitetura, um complemento decorativo que exigia um cenário, um local próprio para ser vista e entendida. Aleijadinho criou uma disposição dramática para as seis capelas dos Passos a partir do ponto de vista de um observador. Ele conduziu conscientemente o olhar do espectador em direção ao adro da Igreja, é evidente sua perícia e grande segurança para realização de uma obra desse porte. O conjunto dos Passos tem 66 imagens esculpidas em madeira de cedro e em cujos traços vemos deformações e características que acabaram por se tornar uma marca pessoal do artista como olhos alongados, maçãs do rosto salientes, queixo bipartido e cabelos em caracóis. O fascinante na "Bíblia de pedra sabão" é a organização cenográfica de todo santuário, no adro os profetas de Bom Jesus de Matosinhos encenam atos bíblicos, existe um conteúdo religioso sendo ensinado.
Esta foi sua última obra executada com muita dificuldade, pois suas mãos estavam deformadas por uma doença degenerativa que muitos atribuíam aos "excessos venéreos" praticados. No século XX os modernistas tiraram Aleijadinho do ostracismo e o levaram para o mundo.

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