Estácio de Sá: Recompondo a ala
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 04/09/2008 16:35:24
Depois de três anos castigada por reedições a ala de compositores da Estácio está se recompondo com altivez. Já no ano passado a escola teve pelo menos quatro sambas num nível parecido. É perceptível a evolução para 2009. Há sete sambas com chances de vitória.
Há algumas diferenças entre eles, mas a quadra pode desfazer o desequilíbrio sentido nas gravações. Algumas parceiras investiram mais que outras nos estúdios o que pode deixar uma impressão equivocada de superioridade.
A análise abaixo segue a numeração oficial da disputa.
2 - Alexandre D´Mendes, Marechal, Edu Brasil, Aldir Senna e Bira da Globo
Samba alegre, "pra frente", de letra resumida. Deve funcionar muito bem na quadra. Procura facilitar o canto dos componentes, com notas altas e divisão bem espaçada. Não possui, entretanto, um diferencial de poesia ou melodia, um toque extra que o faça brilhar.
5 - Magrão, Betinho Santana, Luis Fernando, Reginaldo, Pezão, Silvano, Buru Falado, Silvinho e Jefferson
A decisão de fazer o refrão todo em cima de Chacrinha pode dar a idéia errada do que é o enredo. O "velho guerreiro" é apenas uma passagem dentre tantas outras que ganharam menos destaque na letra. A poesia descreve a história da Chita com leves deslizes que não comprometem o todo. Melodia tradicional, fluente, correta, boa para o canto dos componentes - mas sem inovação.
8 - Osmar, Antonio da Conceição, Magu, Marcelo Buda, Neneu, Hugo Bruno e Lucio Moraes
Belíssima melodia: encorpada sem deixar de ser valente; refinada e ao mesmo tempo alegre. Tem momentos absolutamente originais, o que é sempre bom de ouvir. A letra é descritiva e direta, sem usar de metáforas ou imagens poéticas. Peca apenas por deixar de citar com clareza a tal participação da Chita na democratização do país. Samba de gente grande, sem arestas, sem escorregões.
Vale ressaltar a perfeita interpretação de Nino do Milênio, garoto de Belford Roxo que em breve será um nome conhecido no mundo do samba.
10 - Wanderley, Rogerão, Robson Ramos, Rafael, Sergio Careca e Gatto
É um samba de avenida, com força melódica e sem correria. Entretanto, faltou fôlego à criatividade dos autores que não conseguiram manter o mesmo nível em toda a obra.
O refrão principal, por exemplo, começa muito bem ("Esse colorido estampado em seu olhar"), mas se perde a partir do terceiro verso. O mesmo acontece com a segunda parte do samba: quando promete engrenar ("Profano, sagrado, vestiu sem distinção / Do hippie ao Velho Guerreiro"), a inspiração cessa e o samba cai no lugar comum.
12 - Claudinho Raiz, Niquinho Azevedo, Wagner Cristal, Luis Sapatinho, Tio Gil, Paulinho Costa e Valença
Excelente refrão final. Descreve parte do enredo, é alegre, gostoso e fácil de cantar - o melhor trecho do samba. A obra como um todo é de excelente nível: valente, guerreira e de letra correta. Conta a história de forma objetiva e clara, apesar de, em alguns momentos, usar recursos "batidos" para provocar empolgação como a expressão "Tô que tô".
Precisa de alguns pequenos ajustes melódicos no verso inicial da segunda parte, que lembra demais o samba sobre o SAARA da própria Estácio. Deve ser um dos bons momentos das noites de eliminatórias na Salvador de Sá.
13 - Thiago Daniel, Dilson Marimba, Diego Nicolau, Marcelo Motta, Diego Tavares e André Fullgaz
Que refrão! Uma pancada! O samba tem uma musicalidade muito forte, especialmente na sua primeira parte, entremeada por variações de entonação muito bonitas, que se casam bem com a poesia. É com certeza a letra mais refinada da safra, buscando a linguagem indireta em várias passagens para ganhar em lirismo. É certamente um diferencial.
A melodia, muito alegre, perde um pouco a força no refrão do meio (sem a mesma pegada do final) e na segunda parte, ligeiramente acelerada - mas que não deixa de ser bem construída e agradável. Depois volta a crescer com uma boa preparação para a explosão final.
16 - Caixa D´água, Alexandre Fernandes, Peralta, Rafael, Arnaldo, Roberto Naval e Juvenil
Caixa D´água e Alexandre Fernandes foram campeões na Portela em 2003 em parceria com a atual presidente da Estácio, Lilian Martins. Mas vão precisar trabalhar bem na quadra para que a ex-parceira lhes dê a vitória. A gravação está abaixo da média daqueles que têm alguma chance de vitória. Isso dificulta uma melhor análise da obra - que perece ter seus méritos, mas soa apenas correta.
O ponto alto está na melodia da segunda parte que tem variações interessantes. A letra é sensível e inteligente embora deixe a sensação de uma ausência de rima no verso final.
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