Duas preocupações me rodeiam a cada vez que imagino um tema para meus posts: não exagerar no saudosismo frente à escassez de qualidade na música atual e não puxar excessivamente a sardinha para as coisas que eu gosto. Mas hoje peço licença ao leitor para deixar minhas neuras de lado e render uma justa homenagem a uma banda que faz parte da minha vida. Será uma espécie de "nossa linda juventude, páginas de um livro bom".
Era uma fria noite de algum sábado de 1986 quando chegou em minha casa um amigo de colégio, Flávio Bisaggio, com a missão de me arrastar para o SESC Tijuca, onde o resto da turma iria assistir ao show do 14 Bis. Relutei muito, pois conhecia pouquíssimo desta banda, talvez umas duas músicas apenas. Andava muito antenado em outras coisas como o B-Rock ou em bandas do período pós-punk, como The Cult, Echo & the Bunnymen, Talking Heads e The Cure. A banda mineira atingia uma geração acima da minha. Seu disco de estreia fora lançado no ano em que eu completava apenas dez anos. Mas após certa insistência, cedi e lá fui eu, a pé, para a Barão de Mesquita. E posso dizer que ali, sem exageros, minha formação musical ganhou uma nova amplitude.
.jpg)
Ainda com Flávio Venturini, o 14 Bis gerava um som encantador. Era uma mistura de progressivo com rock rural. Meio Yes, meio Sá, Rodrix e Guarabira. As simples levadas de Hely (bateria) e Magrão (baixo) sustentavam uma maravilhosa viagem dos teclados de Vermelho e Flávio. Cláudio Venturini é um capítulo a parte. O Brasil tem ótimos guitarristas, mas poucos possuem o bom gosto de Cláudio. Encontrar o solo perfeito para cada harmonia não é missão para qualquer um. Sei que muitos preferem guitarristas mais técnicos, outros preferem os mais velozes. Eu prefiro Cláudio Venturini. Os riffs de "Nova Manhã", "Uma Velha Canção Rock'n' Roll", "Mesmo de Brincadeira" ou "Perdido em Abbey Road", só pra citar as mais conhecidas, seriam uma perfeita aula de "feeling" se isso fosse algo possível de ser ensinado.
Daquele dia em diante a música do 14 Bis estaria presente na minha vida para sempre. Aprendendo a tocar violão há apenas dois anos, me debrucei sobre seus discos e tirei (de forma rústica) dezenas de canções. Muito, mas muito longe do talento de meu ídolo, me orgulhava de, ao menos, ter o mesmo nome que ele (embora, na verdade, se chame Luis Claudio). No colégio, "Espanhola" tinha espaço garantido nas rodinhas da rapaziada, o que me fez cansar um pouco dessa bela música. Nas bandinhas por onde me aventurava, me juntava a amigos como os saudosos Rolf Neubarth, André Rocha, Luciano Leone ou Eduardinho Dederichs para, nos intervalos dos ensaios, tocarmos (mais uma vez, de nossa maneira) uma ou outra da mineirada.
Desde então, raramente perco um show deles por aqui. Talvez já tenha visto o 14 Bis por volta de 20 vezes. Na última sexta-feira, no sempre aconchegante Teatro Rival, tirando Flávio Venturini que deixou a banda em 1987, estávamos todos lá: Hely, Vermelho, Magrão, Cláudio, eu e todas as mesmas músicas que me emocionaram há 26 anos e continuam me tocando como se fosse a primeira vez. É inevitável a recordação daquele sábado de 86, assim como dos amigos que me carregaram para o ginásio do SESC-Tijuca ou daqueles que dividiam comigo os momentos de estúdio ou rodinhas de violão. Como diz um trecho de "Perdido em Abbey Road": "e os meus amigos / dispersos pelo mundo / a gente não se encontra mais pra cantar aquelas canções / que disparavam nosso coração".
"Perdido em Abbey Road"
"Mesmo de Brincadeira"
"Natural"