SRZD


18/07/2012 14h23

Greve das Federais: por que os professores não aceitaram a nova proposta do governo?
Daniel Guimarães

A greve das Universidades Federais completou dois meses na última terça-feira. O governo fez uma proposta de reajuste para os professores que parece ser ótima, mas mesmo assim, os líderes das Universidades não mostraram muito contentamento com a proposta. A proposta anunciada pelo governo foi de um aumento salarial de 45%.

O SRZD entrou em contato com o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Luiz Mors para entender por que a proposta não foi vista com bons olhos e rejeitada por unanimidade pela ADUFF (Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense). Luiz falou sobre as reivindicações. "A greve tem como pauta três pontos: aumento salarial, melhoria nas condições de trabalho e reformulação do plano de carreira. A proposta só atende a uma das reivindicações, a do aumento salarial. E os 45% não são para todas as classes", reclamou.

Sobre o aumento, Luiz Mors disse que as pessoas precisam tomar mais cuidado para tirar uma conclusão. "Os jornais já divulgaram que o governo propôs 45% de aumento, noticiando inclusive que o professor passaria a ganhar R$ 17.000 reais. O aumento não é de 45%. O aumento é diferente para cada classe de professor. Só receberão os 45%, os professores titulares e os associados, que somados, chegam a aproximadamente, 25% do número total da classe. Outras classes ganham aumentos distintos. Professores adjuntos recebem 33%, e a classe mais baixa recebe o menor aumento, 22%. Olhando assim, pode até parecer uma boa proposta. Acontece que esses aumentos não são para agora e não serão dados de uma só vez. Serão concedidos em 3 parcelas, a primeira no meio de 2013, a segunda no meio de 2014 e a última, no meio de 2015", afirmou. Atualmente, a carreira do professor Universitário é dividida em auxiliar, assistente, adjunto, associado e titular.

Mors também falou sobre o tempo que a classe está sem reajuste. "Tirando os 4% de aumento que tivemos esse ano (e que havia sido acordado ano passado), não temos aumento desde 2010. Somando a inflação de 2010, com a de 2011 e com a previsão oficial de inflação para os próximos três anos (números do próprio governo), temos um total de 35,5%. Ou seja, para a grande maioria dos professores, o reajuste não cobre sequer as perdas com a inflação. As únicas classes que teriam aumento real de salário seriam os titulares e os associados, que receberiam uma aumento real de cerca de 9,5%. Para piorar, as aposentadorias não estão contempladas nos aumentos, levando a uma discrepância entre aposentados e ativos inadmissível", disse. Os professores titulares e associados seriam as classes que mais se beneficiariam com o aumento, porém, para se tornar professor titular, é preciso realizar um novo concurso. É o ponto alto da carreira. Por isso, poucos professores da UFF chegaram ao nível. Além disso, pela atual proposta de governo, apenas 20% de professores podem chegar ao nível de titular.

Condições de trabalho:

"As condições de trabalho na Universidade vem se deteriorando nas Últimas décadas. Antes do governo Lula, os salários não eram aumentados a 14 anos. Lula reajustou os salários, mas condicionado, entre outras coisas, ao aumento do número de cursos e vagas oferecidas pela Universidade. Um estudo feito no âmbito da UFF mostrou que o número de professores hoje é igual ao número de professores no ano de 1995. As vagas novas serviram somente para repor os professores que se afastaram durante os anos anteriores (seja por aposentadoria, morte ou afastamento). Mesmo número de professores com mais alunos, fica claro que o professor passa então a ter mais trabalho. Você pode pensar que quem dá aula para um, dá para dez. Mas isso não é verdade, porque cada aluno tem que ser incluído em algum projeto de pesquisa, tem que ser recebido nos laboratórios, tem que ser inserido em algum projeto de extensão, e por aí vai. Tudo isso demanda muito trabalho ", explicou o professor.

Para concluir, o professor Luiz Mors falou sobre o atual estado das instituições e disse o que espera da greve. "A expansão das Universidades nos últimos anos não foi acompanhada de um aumento na infra-estrutura das mesmas. Ninguém mais ignora o estado de calamidade em que se encontram os Hospitais Universitários. Houve um processo de interiorização das Universidades. Torço para que as demais Universidades façam como a UFF, e rejeitem a proposta do governo. Caso isso de fato aconteça, entraremos em um momento delicado da greve, onde os professores serão demonizados por não aceitam um aumento de 45%. Por isso, é importante que vocês saibam que os números não são bem esses e estão sendo colocados para a sociedade de forma leviana, sem a correta contextualização. Não se iludam, a proposta é fraca", disse.

Leia também:

- Pesquisa diz que apenas 26% da população é plenamente alfabetizada


Comentários
  • Avatar
    07/09/2012 23:24:26nestorAnônimo

    As Universidade públicas brasileiras são as que produzem o maior volume de pesquizas reconhecidas pelo mundo inclusive com estrangeiros vindo buscar conhecimento. Os alunos são os mais aplicados porque tem objetivo,ideal e deixaram em média 3 anos de baladas,finais de semanas para vencerem a disputa por uma vaga. O pai e mãe de um estudante numa faculdade pública e no caso nas federais tem muito orgulho do filho que por única e exclusive mérito e competência pessoal consiguiu alcançar um "sonho", Portanto é até justo que nossos impostos deem total apoio ao estudo com toda a estrutura de docentes,materiais e outros funcionários porque estes certamente pela garra serão potencionalmente grandes profissinais na saúde salvando vidas, na construção fazendo estradas e moradias seguras, na informatica de engenharia criando robos para operarem onde a mão do homem não chega para salvar um paciente com tumor e se Deus quiser sairão muitos professores com conteúdo para criarem novos profissionais. Portanto com tantas explicações já dadas pelas pessoas aqui do lado dos professores está na hora de dar tratamento de salário, materiais a quem pode fazer uma nação que crie sua indepedencia.

  • Avatar
    07/09/2012 22:57:38nestorAnônimo

    Só existe uma maneira de uma nação vender seus produtos, pela inteligência estimulada para a criação. Isso é feito pelos educadores classe de profissionais que deve ser respeitada,valorizada na sua remuneração e ter direito a trabalhar oito horas por dia e descanço com a familia. Aliás antes da eleição o PT na pessoa da presidente dizia isto mas há mais de 2 meses educadores,alunos e pais estão desencantados. Afinal porque o piso salarial de um deputado,funcionário público temporário é muitas vezes mais de que os educadores fazedores do futuro brasileiro indepedente.

  • Avatar
    23/07/2012 09:32:25Nivaldete Ferreira da CostaAnônimo

    A melhor interpretação, o melhor resumo da situação. E por fim alguém tocou na tecla dos aposentados, a grande omissão disso tudo. Será uma forma de brecar as aposentadorias? Ou aposentado vira/virou anjo?... Uma repudiável desconsideração por quem trabalhou décadas...

  • Avatar
    21/07/2012 22:43:27carlos biaziAnônimo

    Sou advogado e tenho um filho na Federal, esse país é feito de políticos analfabetos e falsos "doutores", como esse Mercadante, e outros tantos que deveriam se aculturar antes de se meter a "mestre, intelectual". Esses caras são ridículos. Minha mãe era pedagoga, e conheço bem esse nó. Abaixo esse modelo falido. Parabéns ao professores e alunos que resistem a essa vergonha nacional, chamada EDUCAÇÃO.

  • Avatar
    20/07/2012 00:57:05LuanaAnônimo

    O que muitos se esquecem ou nem sequer chegam a pensar é que uma boa parte dos alunos, que estariam sendo lesados pela greve, são futuros professores e que seriam realmente lesados, mais à frente, em sua prática profissional pelo não respeito de suas condições futuras de trabalho.

  • Avatar
    19/07/2012 23:28:47PauloAnônimo

    (o final perdido...) E apesar disso, as divindades brasileiras conseguem fazer pesquisa reconhecida mundialmente (por exemplo em Medicina, em Farmacologia, em Engenharia, em nanotecnologias, em Informática, em Genética, em Geologia, em Economja, em Pedagogia e muitas outras áreas). Muitas vezes os resultados não chegam à sociedade, seja por culpa do Olimpo, seja por culpa das decisões políticas e de seus vícios, seja pelo desinteresse da própria sociedade. Quando um médico descobre uma enfermidade numa pessoa e a cura, raramente esta pessoa sabe quantos anos de pesquisa demandaram numa dessas torres de marfim até que se chegasse a esse resultado. Sim, é para isso e muitas coisas mais que a Universidade pública trabalha. E é nisso que nós, professores, acreditamos, senão não estaríamos lá. Para finalizar, registro o fato de que quando comecei com professor federal substituto em 2005, com carga horária de 40 h, meu salário bruto não chegava a R$770,00 (isso mesmo, não errei na digitação não!). Hoje, como professor temporário mestre, trabalhando 40 h, meu salário mal chega R$3.000,00 (não é e nem será de R$17.000,00, como o governo anuncia). Não fosse por acreditar que a educação é a base de qualquer sociedade desenvolvida, não estaria lá. Não fosse por acreditarmos que as mentes jovens e criativas das quais falei precisem ser estimuladas para, um dia, nos sucederem nessa árdua tarefa de fazer desse país, enfim, uma grande nação, provavelmente eles seriam dispensados das aulas não por motivo de uma greve, mas porque não haveria professores para eles (como muitas vezes já ocorre). Talvez algum de vocês tenha filhos ou venha a tê-los. Mais do que por nós mesmos, é pelo futuro deles que batalhamos, pela qualidade do ensino que recebem e pela carreira que poderá ser a deles um dia.

  • Avatar
    19/07/2012 23:23:07PauloAnônimo

    (a continuação perdida...) A Ciência que a Universidade pública produz (ou o sexo dos anjos que discutimos)se materializa em livros e textos, em políticas públicas, em medicamentos, no tomógrafo que busca identificar um tumor, em tecnologia, em produtos, em invenções e patentes, em maior produtividade, no conhecimento da nossa história, na reflexão sobre a nossa existência etc. Ela está no nosso almoço, no veículo e no combustível que usamos, na parafernália eletrônica do nosso dia-a-dia, no jornal que lemos e assim por diante. Além das atividades citadas, temos que orientar alunos em monitoria, projetos, pesquisas de iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso, mestrado e doutorado, pois em geral eles tomarão o bastão de nossas mãos quando nos aposentarmos, para seguir no processo de estimulação das mentes jovens e criativas. É comum, enquanto grande parte da população faz seu churrasquinho no final de semana ou no feriado, o professor estar em viagem de campo com alunos, coordenando atividades voltadas à sociedade, produzindo textos para publicação ou corrigindo provas. É simples! Como as universidades públicas são públicas, qualquer um pode se dirigir a um instituto qualquer delas e verificar como são as torres de marfim em que trabalhamos, qual o tamanho das salas dos professores, como são suas mesas (quando eles têm uma, pois muitos como eu não têm mesas próprias para trabalhar), como são seus computadores (quando eles têm um exclusivo seu, pois eu tenho que usar o meu particular) e se possuem uma impressora (porque nós não temos nenhuma funcionando), em que estado estão suas salas de aula e laboratórios (e como eles fazem para consegui-los). Que se tente comparar como são as Universidades do Primeiro Mundo... E apesar disso, as divindades brasileiras conseguem fazer pesquisa reconhecida mundialmente (por exemplo em Medicina, em Farmacologia, em Engenharia, em nanotecnologias, em Informática, em Gen

  • Avatar
    19/07/2012 21:43:52PauloAnônimo

    Ao Jorge Filho e à Cristiane: Na instituição onde trabalho, por exemplo, se voltarmos às aulas não haverá salas de aula suficientes para os alunos no segundo semestre de 2012, em função dos vestibulares do meio do ano. Não temos laboratórios para as aulas práticas previstas na grade curricular. E muitos problemas mais. Temos que fazer mágicas e acrobacias para atender aos milhares de alunos. A questão salarial é secundária, mas chegaremos a 2015 ganhando menos que hoje, se vocês entenderam o que foi explicado no artigo. Um professor universitário com doutorado estudou intensamente em média 11 anos desde que entrou no 3º grau e, quando abraça a profissão de professor pesquisador numa Universidade pública, nunca mais deve parar de estudar, o que demanda adquirir livros mensalmente (e vocês sabem quanto os livros custam). Para publicar pesquisas em congressos, precisamos nos inscrever neles (algumas inscrições passam de R$1.000,00), gastar com viagens e e hospedagem. E o governo (via MEC/CAPES) nos cobra cada vez mais produção acadêmica, inclusive como está maldosamente embutido na proposta apresentada na sexta-feira 13. Quanto ao papel da Universidade para a sociedade, é um longo assunto, mas dela saem os profissionais capacitados ao desempenho das diferentes atividades e funções na sociedade, como salientou Ciba neste espaço. De nós é exigido fazer pesquisas e publicar incessantemente seus resultados em revistas científicas e congressos, assim como promover atividades de extensão, que se constituem em atividades voltadas diretamente para a comunidade, fornecer consultorias não remuneradas ao poder público, orientar graduandos e pós-graduandos, oferecer cursos e palestras a segmentos da comunidade (acadêmica ou não), participar de tarefas e cargos administrativos e muitas coisas mais. Dar aulas costuma ser a menor das atividade que temos que cumprir. A Ciência que a Universidade pública produz se traduz em livros, em po

  • Avatar
    19/07/2012 21:05:30PamelaAnônimo

    Parabéns pela matéria, muito esclarecedora. Um dos maiores erros no Brasil é a falta de investimento na educação pois ela é a base de tudo. Até quando o governo vai fingir não enxergar isso? A desvalorização do profissional da educação e das instituições de ensino só podem resultar nesse país cada vez mais decadente.

  • Avatar
    19/07/2012 17:32:04GláuciaAnônimo

    Finalmente uma reportagem esclarecedora sobre a greve dos professores! Enfim a VERDADE! Uma vergonha a proposta do governo! Um país que não valoriza seus professores está fadado ao fracasso!

  • Avatar
    19/07/2012 16:50:21jorge filhoAnônimo

    Entendo a situação dos professores, mas vejamos que temos no pais, outras categorias também com problemas de diferenciação nos salarios.Agora não podemos mais arrastar esta greve que já foram 60 dias e temos mais de um milhão de alunos que estarão prejudicados, em função do segundo semestre!!!!!! E ai como fica a carreira destes alunos que estão parados e sabe lá quando voltarão aos estudos!!!!Muitos estão prestes a se formar neste semestre conturbado.

  • Avatar
    19/07/2012 14:19:25CarolineAnônimo

    Matéria muito esclarecedora e de ótimo conteúdo. Parabéns !

  • Avatar
    19/07/2012 14:17:57CristianeAnônimo

    Será q sou a única a discordar de tudo isso? Eu não concordo que a solução pra educação esteja em aumento de salários. Acredito que a universidade, através de seus professore, principalmente, deve ser mais atuante na sociedade, eu sinceramente não vejo esse retorno social prático nenhum dessas universidades, onde são investidos os nossos recursos, para a sociedade, vejo sim as divindades enclausuradas no Olimpo, discutindo entre elas e seus alunos o sexo dos anjos, e o povo aqui embaixo precisando de atitudes, de ações que poderiam ser pensadas lá para serem aplicadas aqui. Ou uma universidade não é pra isso?

  • Avatar
    19/07/2012 14:05:12CibaAnônimo

    excelente esclarecimento. O professor universitario precisa ser valorizado pois é ele quem forma os Juizes, médicos e outras classes de grande remuneraçao neste país. Funcionários do MCT pesquisador pleno com exigencia de doutorado já entram ganhando mais de 9000,00! enquanto um professor adjunto com doutorado ganha 7300,00 hoje. É um absurdo, Sr. Mercadante!

  • Avatar
    19/07/2012 13:16:19Henry da SilvaAnônimo

    Dilma... Educação nunca foi despesa. Sempre foi investimento com retorno garantido.

Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.