Diz o velho ditado: "um dia a casa cai". Sabedoria popular. O Vasco levantou o moral de sua torcida com a conquista da Copa do Brasil do ano passado e, nos festejos do título inédito, a volta do clube à disputa de uma Libertadores e à ponta dos cascos das grandes conquistas inebriou a todos. O estado de encantamento durou quase um ano.
De lá pra cá, apagamos da nossa memória, por exemplo, quão sofrida (desnecessariamente) foi a partida decisiva daquela conquista. Apagamos, também, o péssimo planejamento para 2011 que nos levou ao pior desempenho em um turno de Estadual de nossa história. Esquecemos que a grande virada aconteceu em cima da hora, com jogadores contratados em medida de socorro, dando base para o time que, então, se sagraria campeão da Copa do Brasil.
Depois disso, outro baque: ficamos sem o treinador oficial, Ricardo Gomes, e as consequencias que o levaram ao afastamento foram outro turbilhão de emoções. Novamente inebriados por uma "corrente pra frente" em favor de seu interino - o voluntarioso Cristóvão Borges, jamais cogitado para ser treinador até então - vimos novamente a torcida "blindar" time e elenco em comentários e apoio incondicional. Era proibido criticar qualquer coisa. Nenhuma critica era construtiva: todo apoio era necessário. O time atravessou várias competições com uma garra incomum para prestar tributo ao ex-comandante em recuperação. Corria sentado, voava, comia grama. Com isso, quem era fraco ou estava mal nem aparecia, dado o empenho em equipe. Os resultados apareciam, independente do comando da equipe estar nas mãos de um profissional improvisado que começou "segurando a onda" e acabou sendo efetivado. O grupo tinha o comando de dois jogadores veteranos idolatrados por feitos antigos e por uma abnegação atual.
Estranhamente, os resultados não vieram. Duas eliminações por goleada no Cariocão, uma eliminação na Libertadores e os brios se feriram ao ponto de uns olhos se abrirem. A princípio, tentou-se (mais uma vez) justificar um erro em um personagem: Diego Souza, sozinho, havia eliminado o Vasco ao perder um gol imperdível! A culpa era dele! Ninguém mais o queria no time! Até ameaçarem vendê-lo, o que subitamente mudou o discurso de todo mundo: Diego "Sono" voltava a ser "Diego Showza", artilheiro, craque, jogador fatal etc. Após as vendas de Rômulo e Allan, parece que a casa caiu e a torcida não quer mais saber de "pipicos" vestindo a camisa cruzmaltina. Veio a vitória suada e ameaçada contra o lanterna do campeonato para provocar a reflexão: o Vasco, na briga pela liderança, deixou a torcida irada, revoltada, soltando os bichos em todo canto! Querem time, querem reforços, querem postura, querem tudo!
Mesmo Felipe, até aqui blindado em aço escovado, passou a ser questionado por atuações muito abaixo da crítica. Ele que, após abandonar a lateral aos 26 anos porque não queria nada com a correria, foi reeditado pelo treinador como lateral aos 36 anos e todo mundo achou genial! Porque Rômulo foi vendido e o veterano ficou sem cobertura.
Sabem o que acho disso tudo?
Acho normal. Coerente. Certo. É o futebol: coerente com sua incoerência.
O Vasco não precisa de reforços agora, a meu ver. O Vasco precisava de reforços desde que começou a perder de forma inexplicável TODOS - eu disse TODOS - os títulos que disputou. Se não tem milhões de dólares para trazer um megazagueiro, também não precisava sair correndo para investir ouro em Renato Silva, um zagueiro comum e fraco que poderia ser substituído por outra nova tentativa. Um urugaio, por exemplo. Se andava às turras com o sono de Diego Souza, já deveria ter pensado em outro meia ofensivo que pudesse lhe fazer sombra. Sobre Juninho e Felipe, já deveria ter encontrado um substituto para Bernardo, que tinha toda a envergadura para ser o projeto futuro desse comando da meiuca vascaína. Ficamos sem Bernardo por conta daquela fofocada toda e NENHUM substituto foi providenciado.
O problema do Vasco tem sido esse: os abortos. Tivemos um interino efetivado até que o titular voltasse. O titular não voltou (não acredito que volte nunca) e abortaram o projeto. Tivemos dois veteranos vindos para trazer experiência e vivência à equipe, inspirando uma nova geração (Allan, Bernardo, Rômulo) de armadores. Perdemos todos da nova geração e abortamos o projeto de novas referências. Como a divisão de base do Vasco inexiste (e promover um Max é a prova de que há uma conspiração para nos convencer de que a base só tem fruto podre), renovação zero!
Diego Souza caiu na apatia irreversível? Éder Luís corre muito e não acerta em gol? Alecsandro é "um cone"? Felipe tem que jogar na lateral porque não temos latetal? E por que essas deficiências estavam "blindadas" lá atrás e a diretoria nunca armou um "plano B" de contratações? Será que aquelas vaias tão censuradas da torcida lá atrás não eram o prenúncio dessa unanimidade crítica de agora?
Saiu Rômulo, "caiu o esquema". Ou seja: não tinha esquema, tinha um jogador segurando a onda do lateral cansado. Como eu sempre achei, o time é carregado por jogadores, não pelo comando. Vide Felipão campeão da Copa do Brasil, que é o contrário: treinador sem elenco chegando lá.
Pois bem, isso não é prenúncio de crise nem exagero. O Vasco está na segunda colocação no campeonato. Como sempre, eu acho melhor encontrar e consertar erros agora do que fazer que nem na Taça Guanabara 2011: esperar o buraco abrir para começar a se mexer.
Questionar, refletir, criticar nunca é demais. Mas ontem eu confesso que fiquei assustado. Geral caindo de pau no time!
Eu, que andei antecipando essas coisas todas, estou em outra fase Sóbrio. Porque apanhei muito sozinho quando disse tudo isso lá atrás. Agora, cobro o que é devido, mas me divirto.
Então, aproveitando a oportunidade de mercado, quero avisar a todos: estou vendendo a minha corneta!
PS: O título desta coluna foi inspirado num comentário de Twitter do leitor Weber Fadel, de Belém do Pará. Corram todos, porque acho que ele compra a corneta primeiro...
Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter @hrainho
A torcida comum e as organizadas morrem de medo Dele, por isso não protesta. De fato, um dia a casa vai cair. E Ele voltará. Há, há, há...
O MAIOR CULPADO DE TUDO ISSO É O TORCEDOR VASCAÍNO, QUE EM SUA GRANDE MAIORIA APLAUDE TUDO E NÃO CONTESTA NADA. NINGUÉM TEM PEITO DE ENCARAR O DINAMITE O MANDARINO, POR QUE? ONDE ESTÃO AS TORCIDAS ORGANIZADAS????? CADE A FORÇA JOVEM???????
Mercadante, deixa eu tentar explicar. Quando elogiei o elenco, estava dizendo uma verdade. Aliás, quantos jogadores melhores do que Juninho, Diego Souza, Felipe e Dedé - todos em campo ontem - tinha o Atlético GO? Elenco eu acho até que o Vasco (ainda) tem. Mas repare que, da lista que citei, perdemos Rômulo e Allan. Sem reposição à altura, Eu estava mostrando que ainda temos valores no grupo que nos façam capazes de, com um treinador de mínima inteligência, montar uma equipe competitiva. Os reforços a que me refiro eram providenciais: um zagueiro que não fosse tão distante da categoria do Dedé (porque ele se machucou e ficamos com uma zaga-lixão), um substituto à altura de Bernardo como sucessor de Juninho e Felipe (não temos, não temos!). Eu cansei de escrever que, numa longa temporada desgastante como a desse Brasileirão que inventaram, ter dois veteranos como jogadores principais seria uma temeridade. Então que fique claro: o Vasco precisava desses reforços desde sempre, vendo sob o ângulo da diretoria. Agora, sob o ângulo do treinador, ele tem na mão coisa muito melhor do que muita gente que tem aí. Entendeu o porquê dos comentários parecerem desencontrados mas, no fundo, estarem apenas pontuados por ângulos diferentes? Um abraço e obrigado pela integração.
Prezado Hélio, gostei muito desse seu texto. Mas, motivado pela leitura, fui lendo outros e.. Vc diz: "O Vasco não precisa de reforços agora, a meu ver. O Vasco precisava de reforços desde que começou a perder de forma inexplicável TODOS - eu disse TODOS - os títulos que disputou." Muito bem dito. Mas, no dia 14.06, quando o timo era lider do brasileiro, vc dizia "A equipe de São Januário tem, hoje, o plantel mais equilibrado do país. Se não ostenta nenhum "queridinho da mídia", goza de raro equilíbrio técnico em seus setores. No caso do Vasco, temos força de conjunto, espírito de equipe, futebol solidário e - sim! - talentos. Já disse aqui, algumas vezes, que não conheço outro time com um elenco que aporte Fagner, Dedé, Juninho, Felipe, Diego Souza, Rômulo, Allan, Carlos Alberto e Éder Luís de uma tacada só. Uns mais completos, outros já meio veteranos, um "mito" entre eles... não importa: há força de elenco e, também, talento individual." Dias atras vc dizia "Já que o futebol nada mais é do que um instrumento para que pessoas se afirmem e se reafirmem como sabedores disso ou daquilo outro,..." Hoje, depois do péssimo jogo de ontem, vc diz "eu, que andei antecipando essas coisas todas..." Não entendi. Abraço.
Não só a atuação do Vasco frente ao Atlético-GO me assustou, também a declaração de Juninho no intervalo do jogo se referindo ao Cristóvão como "Cris".Me parece que alguns jogadores o tem como amigo,pessoa sensível aos jogadores,de fala mansa,gestos calmos, incapaz de gritar com alguém ou exigir algo.Essa postura do "treinador" agrada alguns jogadores do Vasco que,uma vez formada a panela,fazem o que querem.Juninho joga quando bem entende ,Felipe prefere aparecer na lateral do que ficar no banco.Já Diego Souza e Alecsandro fazem o que querem(ou o que não querem) e não são incomodados.Esse tipo de treinador,há algum tempo,era chamado de churrasqueiro.Por isso a frase fica melhor assim "...o time é carregado por ALGUNS jogadores,não pelo comando".A diretoria para não entrar em atritos com jogadores líderes,deixa o barco passar.Mas,com tantas pedras e tropeços,eu ainda acredito.Saudações vascaínas.