De alguma maneira, todo mundo busca encontrar uma resposta do porque de sua existência. Um sentido para sua vida, digamos assim. Uns fazem terapia, outros trocam de trabalho e religião a cada seis meses, e alguns, simplesmente, arrumam as malas e seguem viagem, literalmente, rumo ao desconhecido para entender melhor quem eles realmente são.
- Veja o trailer de 'Na estrada'
Em Na Estrada (On The Road), baseado na semi-biografia do escritor Jack Kerouac, o consagrado diretor Walter Salles toma as rédeas desse filme que há décadas era considerado algo audacioso, porém, um tanto capcioso, por todos os tipos de cineastas e foi na cara e na coragem - vide um orçamento baixo para a magnitude desse projeto - recriar esse universo mitológico da geração "Beat".
Com o apoio e co-produção de Francis Ford Coppola, que adquiriu os direitos do livro em 1978, Salles ilustra os detalhes efusivos da juventude americana dos anos 40, suas inquietudes e questionamentos, degustando as palavras de Kerouac com o vigor de um jazz de alta qualidade, onde os improvisos e suas notas deleitam cada cena, cada interpretação, de forma hipnótica e sedutora. Sua direção impecável ainda ganha um condimento fotográfico deslumbrante nas mãos de Eric Gautier, responsável por dois clássicos da mesma seara de personagens itinerantes, Diários de Motocicleta, sua primeira parceria com o diretor, e Na Natureza Selvagem, obra prima de Sean Penn.
Com um elenco primoroso com nomes como Viggo Mortensen, Kristen Stewart, Sam Riley, Amy Adams, Terence Howard, Steve Buscemi, Kirsten Dunst, Alice Braga, entre outros, quem dispara na frente como azarão é Garrett Hedlund, o pseudo estreante, arrebatando o público com seu Dean Moriaty em potência máxima. A viagem que seu amigo Sal Paradise (Riley) faz, no intuito de ir além de suas fronteiras, reais e psicológicas, não seria tão interessante e reveladora sem sua presença marcante. É ele quem abre as portas do desconhecido, o apresentando a esse novo mundo, a essas novas pessoas, libertando seus pensamentos, dando-lhe as doses de coragem necessárias para seguir em frente.

Porém, depois de tanto entusiasmo, eis que me aproprio de certa fala de uma jovem numa cena do filme: "Perdão meu Deus, mas, vou pecar". Como aquele motorista que, certo momento, parece não confiar no breque em que esta pisando, Walter puxa o freio de mão. E é nessa hora que muitos colegas de profissão irão dizer, "Não falei?" Contudo, isso é apenas um detalhe que, acredite se quiser, não pesa muito quando colocado na balança junto às qualidades que o trabalho nos oferece. Prova disso é a sensação onipresente que se instaura no meio de tanta discussão na saída da sessão: vontade de ver novamente.