O auto-elogio
Soares Júnioe | Soares Júnior | 27/08/2008 15:00:00
Lembro-me de uma dinâmica de grupo em que avaliava candidatos a um estágio. Éramos uma banca, e é cruel, mas tudo que o candidato faz é avaliado. Existem candidatos de todos os tipos. Tem um que me intriga particularmente, aquele com excesso de autoconfiança. O rapaz fez a "perigosa" redação de apresentação. O texto era irônico, com aquela falsa modéstia que, no fundo, é a constatação da "genialidade" do escriba. Lá no meio do texto - o golpe fatal. Uma provocação e uma espetada na empresa que ele pleiteava ingressar. Apesar de talentoso, sua pretensão tirou sua chance.
Uma chefe falou uma frase que sempre me vem à mente quando a pretensão bate à porta: "fulano é bom, ele não se leva tão a sério". Acho que se levar a sério demais é arrogância.
José Roberto Guimarães é duas vezes campeão olímpico, e uma das primeiras coisas que disse ao término da partida final é que deixara um pedaço de sua alma no fracasso superior. E, no capítulo do não se levar a sério, disse que a medalha dessa vez era amarela, mas amarela de ouro. Em nenhum momento fez aquele discurso fajuto e irritante do "agora os críticos devem se calar", "provamos que éramos os melhores", ou coisas assim.
Vou colocar mão em vespeiro, sei, mas vou criticar o brilhante Bernardinho. Realmente um dos maiores técnicos do voleibol no mundo, comandante da maior seleção da história do esporte, provavelmente. Mas na sua entrevista com o repórter Bruno Laurence, ao fim da derrota para os EUA, ele "se levou a sério" demais.
"Se eu dissesse quando assumi, há oito anos, que ganharíamos seis ligas mundiais, dois campeonatos mundiais, um ouro e uma prata olímpica, o que você acharia?". Bernardinho está certo, ele transformou suor em ouro, mas na minha modesta opinião, alguém deveria dizer isso por ele. Não ele mesmo. Pareceu se justificar. A trajetória dele não precisa disso. O pouco que entendo de vôlei me mostrou que o Brasil perdeu para um time que jogou melhor. Bastava dizer isso. Reitero, esta é minha modesta opinião.
Acho que o brilhante técnico às vezes se perde nas palavras. Quando venceu o mundial em 2006 dedicou o título à mulher. Seria uma bela homenagem se a citada não fosse Fernanda Venturini. Ela e José Roberto não vivem num "mar de rosas". A seleção feminina acabara de amargar mais uma derrota daquelas no mundial da categoria. Teve um certo tom de farpa. Lembro-me que na ocasião Juca Kfouri mandou Bernardinho para o "chuveiro" no CBN Esporte Clube. Neste quadro o jornalista costuma citar as derrapagens de personagens esportivos. A família Bernardinho teve um desempenho pra lá de bom e a frustração pela medalha de prata foi só porque esse time mágico acostumou mal a torcida.
E por falar em auto-elogio, o que dizer do Comitê Olímpico Brasileiro? Receber jornalistas com aquela falácia de melhor participação brasileira em olimpíadas? Dom Carlos I e Único se supera a cada episódio.
P.S.
Voltarei ao assunto clima tenso. Há situações em que sobreviver e entrar no ar são sinônimos e aí, tenso fica o clima, mas como li no comentário do Compan, clima de tensa calma é inacreditável.
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Postado por:Lisandro Violante | 01/09/2008 10:27:29
Ao contrário do José Roberto, boa parte das jogadoras após a vitória na final soltaram o famoso "agora os críticos devem se calar". Como se os fins apagassem os meios. Como se perante as vitórias as criticas anteriores perdessem a legitimidade. Por conta dese pensamento que "Dom Carlos I" se mantén inabalável no posto de comandante do esporte nacional, afinal o Brasileiro (conhecido por sua mémoria fraca em certos assuntos) sobrepõe as esporádicas vitórias aos inúmeros fracassos. E ainda tira onda!
Postado por:Lisandro Violante | 01/09/2008 10:25:39
Ao contrário do José Roberto, boa parte das jogadoras após a vitória na final olímpica soltaram o famoso "agora os críticos devem se calar". Como se os fins apagassem os meios. Como se perante as vitórias, criticas anteriores perdessem a legitimidade. Por conta dese pensamento que "Dom Carlos I" se mantén inabalável no posto de comandante do esporte nacional, afinal o Brasileiro (conhecido por sua mémoria fraca em certos assuntos) sobrepõe as esporádicas vitorias aos inumeros fracassos. E ainda tira onda!
Postado por:Guga Coelho | 30/08/2008 23:01:17
Vou guardar essa recomendação sobre excesso de confiança. Ultimamente o meu ego tem andando maior do que a minha barriga. "Dom Carlos I e Único" é uma sacada tão boa, acho que nem eu teria pensado nisso. Droga, lá vou eu de novo...
Postado por:Gabriel Portugal | 29/08/2008 13:30:46
O mesmo clima de auto-elogios nós encontramos na nossa seleção masculina de futebol. Dunga fez uma campanha ridícula em Pequim e volta ao Brasil enaltecendo os seus resultados como técnico. O Brasil ocupa a QUINTA colocação nas eliminatórias, atrás de Chile e Colômbia! É hora de parar e falar e manter o foco no trabalho. Comemorar terceiro lugar é brincadeira. Bronze a gente comemora no atletismo e no judô.
Postado por:Edu | 28/08/2008 16:49:37
zé roberto não torceu contra. não é disso. mas, lá no fundo, deve ter passado pela cabeça dele um pensamento inconfessável. algo como: "segura essa, bernardinho". além do ouro que veio pelas bolas levantadas pela eterna sombra da fernanda venturini (que tentou voltar à seleção, mas foi barrada), o apagão das meninas contra a rússia há quatro anos se repetiu na seleção masculina. o brasil abriu 20 a 17 no quarto set. era só ''trocar pontos'', como dizem os narradores, e levar o jogo pro tie-break. perdemos.
Postado por:Ana Cláudia | 28/08/2008 14:20:21
É ... o auto-elogio reina atualmente. Não estou sozinha neste pensamento, né? Sinto falta da humildade em geral nas atitudes e palavras das pessoas. É um tal de enaltecer o próprio - trabalho, corpo, mente, carro, roupa, filhos, casa, viagem, atitude. Ufa! tudo de si parece ser o melhor. Concordo com o Soares - é sempre melhor esperar que alguém diga isto de você... Sugiro que o colunista e seus leitores fiquem de olho nos "orgulhosos" e denunciem seus abusos. Abraços!


















