SRZD | Análise dos sambas do Salgueiro


Análise dos sambas do Salgueiro

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 26/08/2008 14:24:12

O Salgueiro, mais uma vez, tem uma boa variedade de obras para escolher. Fruto da renovação de sua ala de compositores mas, principalmente, de um enredo simples, com essência e bem escrito.

O texto facilitou o entendimento de todos os compositores. Não há viagens, elocubrações, nem situações difíceis de serem explicadas. Pelo contrário, há espaço para criação e um vocabulário repleto de palavras com sonoridade interessante, que valorizam a musicalidade. 

Há uma grande quantidade de sambas num nível muito próximo a estes que vou analisar e poucos são aqueles que vão "encher o saco" do público na quadra. O equilíbrio é tão grande que um dos que eu havia escolhido para comentar já foi eliminado.

O desempenho na Silva Teles, a cada eliminatória (e também na final), será decisivo. Ali a diretoria vai sentir quem melhor se encaixa na bateria, quem mais agrada à comunidade e quem mais se aproxima da proposta de desfile. A ordem da análise segue a numeração oficial da disputa. 

Guilherme Sá, Luizinho Professor, Dartagnan do Salgueiro, Mauro Esperanza e Márcio do Swing

Tem nas suaves e refinadas variações melódicas seu ponto alto. As mais bonitas são na passagem da introdução para a primeira parte do tema ("cantar e revelar o encanto") e na abertura da segunda parte do samba ("tem candongueiro no jogo e caxambu"). À exceção do refrão final a música flui sem grandes quebras o que ajuda o canto dos componentes. A letra é inspirada e casa com a emoção da melodia, formando uma obra de alto nível.

O refrão do meio é excelente e tem um balanço muito interessante, fruto de uma divisão diferenciada na melodia. O refrão principal, entretanto, parece um tanto travado e sem força, talvez em virtude do seu jogo trançado de rimas e do excesso de sílabas no verso "pulsa na força do pavilhão."
 
Vai precisar mostrar na quadra que a melodia, em tom emotivo e romântico, se encaixa no jeitão alegre do salgueirense.

Dudu Botelho, Marcelo Motta, Luiz Pião, Muhammad e Tico do Gato

A Parceria bi-campeã aposta na manutenção de um estilo técnico que deu certo: o equilíbrio entre a empolgação e a cadência. Em 2007 e 2008 esta proposta rendeu bons desfiles à escola. É um samba pra frente e alegre, mas sem correria. A melodia é fluente e no tom certo para o cantar dos componentes.

Os refrãos são muito fortes, como a escola gosta. O segundo deles traz consigo uma proposta poética interessante ao comparar o coração com o tambor. E o intermediário tem pegada e suingue na medida certa.

A letra é correta, sem grandes invenções. Não gosto do verso "o batuque é festa e adorações". Não bate bem no meu ouvido, mas também não compromete o todo da obra que, com certeza, é uma das mais fortes favoritas.

Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso e Bené do Salgueiro

Nem melhor nem pior. Apenas...  O samba desta parceria se encaixa no slogan salgueirense. Há tempos venho pedindo que as escolas dêem chance a sambas diferentes, que ousem sair do lugar comum. Este samba é para arriscar, marcar, para fazer história - mesmo que não leve à vitória.

Ele consegue juntar uma letra com início, meio e fim - perfeitamente encadeada - com uma melodia lindamente construída e tradicional, que remete a carnavais passados sem ser ultrapassada. Um casamento maravilhoso que gerou um dos sambas mais interessantes do ano.

Destaque positivo, entre tantos, para a o refrão central ("festa na aldeia, lua cheia um clarão...") cuja melodia se encaixa na fantasia da letra de maneira a levar o ouvinte a imaginar a cena. 
 
O ponto negativo é o refrão final. Não gosto dos versos "menina quem foi teu mestre" (muito atropelado) e "um batuqueiro" (melodia simplista demais perto do resto do samba). É necessário subir um pouco o tom do trecho "meu ancestral" (quase impronunciável) e fazer o mesmo em alguns versos da segunda parte que além de baixos quase embolam tamanha a quantidade de sílabas em uma única frase musical (isso compromete o canto dos componentes).   

Josemar Manfredini, Betinho, Michel de Pilares, Miudinho e Líbero

Talvez seja a gravação mais "afiada", com mais cara de quadra de Salgueiro. Os autores contrataram o intérprete (Ito Melodia) que mais se assemelha ao titular da escola e com isso mostram que a obra pode ser interpretada por ele sem dificuldade. A bateria é a que melhor reflete a realidade de quadra e avenida. 

É um samba alegre, valente, fluente e de letra fácil. Tem refrãos fortes que devem produzir efeito devastador na quadra. Mas não traz qualquer novidade melódica ou poética, reproduzindo um estilo que marcou a escola por muitos anos.   

Moisés Santiago, Paulo Shell, Leandro Costa e Tatiana Leite

Outro forte concorrente. Tem melodia mais trabalhada e encorpada do que anterior, mas também possui "pegada" e alegria - embora não apresente inovações. É um samba muito bom para a harmonia do canto. Gosto muito do refrão final, valente e guerreiro, que talvez seja o melhor da disputa. A letra é correta, objetiva e simples.


Adalto Magalha, Andrezinho, Ferreira, Gabriel Moura e Jorjão

Adalto tem história de vitórias na casa. Andou afastado, pelas bandas da Tradição, e agora retorna. O samba que apresenta é alegre, fluente e de melodia agradável. O momento mais interessante é a citação a mestre Louro. É o concorrente que aborda a homenagem de forma mais direta, falando o nome do antigo mestre de bateria da escola ("a bateria não esquece de você, Lourival"). Essa intimidade, como numa conversa com Louro, é emocionante e faz a diferença. Os refrãos são fortes, com a cara da escola.
   
M.André, Walkir, Grassano e Aranha

Depois de um carnaval como presidente da União da Ilha, Márcio André volta ao ofício original de compositor. Bom para o carnaval. Sempre sai coisa boa quando ele escreve - sem desmerecer os parceiros.

Além de ser corretamente construído, como todos os que estão citados aqui, este samba tem momentos diferenciados e de alto nível. Começando pela "cabeça" diferente e sensível "Mãe natureza... cede-me tuas peles e madeiras", passando pelo refrão central que se encerra com uma frase melódica inusitada "a fé sagrada é" e pela emotiva preparação para o refrão final que diz "... é fevereiro já ouço o tamborim e o pandeiro" e culminando com um refrão principal de pegada e força melódica, sem perder a alegria.

Helinho do Salgueiro, Xande de Pilares, Pedrinho da Flor, Mauro Jr. e Zé Domingo

O samba do pessoal do pagode é bom. Tem melodia, tem suíngue, tem força harmônica. Destaque para o verso inicial do refrão "Ecoa meu tambor" e para o refrão central "Rufa o tambor que eu sou de arerê...".

Não me bateu bem a palavra "hospitaleiro". Não é o termo mais preciso para definir mestre Louro, embora ele tivesse esta qualidade. Dá a impressão de ter sido encaixada mais pela métrica do que pelo significado. Há também algumas soluções melódicas previsíveis.


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