Seminário sobre religião e homossexualidade na PUC-SP
Paulo César Giordano Nogueira * | Fé | 26/08/2008 09:24:00
No dia 19 de agosto de 2008 aconteceu no auditório superior do TUCA- Teatro da Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, o Seminário Homossexualidade e Religião: a questão da identidade, gênero e orientação sexual na pós-modernidade, promovido pelo Grupo de Pesquisa Pós-Religare- Pós-Moderrnidade e Religião, coordenado pelo Prof. Dr. José J. Queiroz, titular do Programa de Ciências da Religião da PUC de São Paulo.
O Simpósio contou com a presença de Fátima Fontes, psicóloga e psicodramatista, doutoranda em Serviço Social pela PUC-SP; Hermide Menquini Braga, filósofa, doutoranda em Ciências da Religião pela PUC-SP e membro do Grupo Pós-Religare; Maria José F. Rosado Nunes, socióloga, doutora pela École dês Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, e professora do Programa de Ciências da Religião da PUC-SP, cujo campo de pesquisa abrange as questões de gênero e religião; Valéria Melkin Busin, psicóloga formada pela USP, mestranda em Ciências da Religião pela PUC-SP cujo tema de pesquisa aborda a influência da religião católica na construção da auto-imagem das e dos homossexuais; Victor Ricardo Soto Orellana, bacharel em teologia pelo Instituto Betel de Ensino Superior em São Paulo e consagrado como primeiro pastor afirmadamente homossexual do Brasil. As mesas foram mediadas pela Profa. Dra. Maria Luiza Guedes (PUC-SP).
A primeira palestrante, a psicóloga Fátima Fontes, traçou um panorama sobre os conflitos vividos por adolescentes evangélicos homossexuais, frisando sua posição de psicóloga cristã evangélica batista, o que de certa maneira parece ser algo inusitado já que não é desconhecido o grande preconceito dentro das igrejas evangélicas contra os homossexuais. Para Fátima, esse (a) jovem vivencia um duplo conflito, que é o de ser homossexual ao mesmo tempo em que carrega uma identidade evangélica, fato que muitas vezes leva a conseqüências extremas, como por exemplo, um profundo desejo de morte por querer, em vão, transformar-se em hétero. "Ser casal homossexual em um mundo homofóbico e heterocentralizado é uma missão muito difícil", afirma a psicóloga, consultora do grupo de auto-ajuda Unidos pela Graça - UPG, que há quatro anos desenvolve um importante trabalho cujo principal objetivo é o de mostrar aos jovens e às jovens homossexuais e suas famílias de que não é preciso romper com o homossexualismo para ser evangélico.
Valéria Busin, a palestrante seguinte, fez uma interessante reflexão sobre a violência simbólica e a exclusão. O foco dessa vez recai sobre a Igreja Católica e Valéria começou por identificar alguns tipos de violência, a saber: a violência física, a sexual, a psicológica e a simbólica, esta última entendida como uma "forma invisível de coação que se apóia em crenças e preconceitos coletivos", assinala a psicóloga, que cita Chesnais, para quem a violência simbólica funciona como "dominação cultural, que ofende a dignidade e desrespeita os direitos do outro". Valéria lembra que certos aprendizados teológicos e religiosos fomentam o poderio do homem e a subordinação da mulher, sustentando assim a violência. Quanto à questão da violência simbólica e a diversidade sexual, a psicóloga lembra que "gays, travestis e mulheres homossexuais sofrem preconceito por, supostamente, aproximarem-se do feminino, que é socialmente desqualificado", sem contar a estigmatização de serem associados à pedofilia, à promiscuidade, à AIDS e, no caso das lésbicas, "por serem independentes do homem, seja afetiva e sexualmente, seja economicamente".
O segundo convidado, Victor Orellana, trouxe muito de sua própria experiência de vida. Homossexual assumido, o pastor contou algumas passagens de sua infância no Chile, onde cresceu em um ambiente austero, em que a vida girava em torno da igreja e onde a homossexualidade era tida como pecado - sem contar o grande sentimento de culpa por ter, desde criança, consciência de que era "diferente" das outras crianças. Mais tarde, passou a procurar a companhia de outras pessoas homossexuais, pois, em suas palavras, "as pessoas ao verem o outro igual a elas têm o lampejo de se aceitarem a si mesmas... isso é um instinto primordial do ser humano, tem a ver com a autopreservação". Daí nasceu o desejo de criar um espaço comum para viver a fé, o que aconteceu em 1998 com o nascimento da Comunidade Cristã Gay, pois embora não seja possível lutar contra a palavra de Deus, "percebi que tudo isso (a negação da homossexualidade) é construção (do ser humano)", afirmou. Embora ainda haja muito a ser conquistado na questão dos direitos e do respeito ao outro, Victor acredita que paradigmas começaram a ser rompidos com a ajuda da internet e da Parada Gay ao redor do mundo.
Hermide Braga fez uma leitura mais filosófica sobre a questão da homossexualidade na sociedade moderna e o conceito do Mal, em suas palavras, "um tema escorregadio e incômodo, tão presente quanto indesejável no seio da sociedade"; para a filósofa, o mal é um rótulo - rótulo de tudo aquilo que se desconhece. "A questão da homossexualidade adquire relevância incomum porque amealha dois "tabus", o da sexualidade pura e simples e o da diversidade sexual", esclareceu Hermide citando Paul Ricouer.
O Seminário foi encerrado pela Profa. Dra. Maria José Rosado-Nunes, carinhosamente conhecida no meio acadêmico como "Zeca", como gosta de ser chamada.
Em um discurso emocionado - e emocionante -, a professora Zeca, a quem coube a "missão" de arrematar as falas de todos os participantes, disse que, em uma palavra, o seminário tratou da questão da dor, da "dor de quem sofre e de quem convive com quem sofre", segundo suas palavras.
As religiões, para Zeca, lidam com a homossexualidade dentro de dois registros: o primeiro, o da culpabilidade: o mal, o pecado, algo que deva ser eliminado. Isso se expressa na eliminação física como se vê na sociedade, por exemplo, no assassinato de um homossexual (ninguém mata um hétero por sua condição de heterossexualidade). O segundo registro é o da compaixão, de uma atitude compreensiva, onde se perdoa o/a pecador sem contudo aceitar o seu pecado. "Se uma relação é violenta, não importa se ela é homo ou hétero, pois a violência é o negador da relação que é o amor", afirma a socióloga feminista.
Ao tratar mais particularmente da condição cristã, Zeca afirmou que "o parâmetro para se julgar uma relação humana (boa ou má) não pode passar pela biologia ou pela anatomia (....) os parâmetros têm que passar por outro lugar dentro da religiosidade cristã: o bem do outro, o respeito, o amor e o reconhecimento presentes na relação...a Igreja tem se mostrado material porque o único parâmetro dela é a biologia".
Encerrando o encontro, Zeca propôs uma reflexão instigante: talvez fosse mais interessante (quiçá produtivo) debater a heterossexualidade, pois isso "iria tirá-la de sua condição de normalidade". Quem sabe um dia deixe de parecer insólito se em algum momento da vida alguém lhe perguntar "Como você aprendeu a ser hétero"?, ou mesmo "Quando, de fato, você optou por assumir a sua heterossexualidade"?.
*Cientista da Religião pela PUC-SP e membro do Grupo Pós-Religare
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Postado por:Maria Letícia Candello | 28/08/2008 16:20:41
Parabéns! O artigo ficou excelente, trazendo de maneira clara e objetiva os temas abordados no referido seminário. Como integrante do Grupo Pós-Religare me sinto honrada em poder compartilhar esse momento tão importante e o campo de pesquisas e estudos que têm sido desenvolvidos pelo grupo, com a maestria do Prof. Queiroz. Letícia
Postado por:JM | 28/08/2008 01:43:17
É interessante verificar que há uma soma de discursos que não querem só afirma a homossexualidade, mas também encurtar nas cabeças religiosas que está forma de vida pode ser uma prática viável. O erro começa quando se pensa que as religiões usam de tabu com relação à homossexualidade, mas é na verdade um mito, um ideal, que se orienta para seus praticantes, é obvio que a vivência das verdades apregoadas vão totalmente contra quem não as deseje, ora as contrariedades nunca foram problema à sociedade: duelem, pois! Guerra de ideais=Liberdade democrática.
Postado por:Rodrigo | 27/08/2008 18:15:43
Olha, notícia do nosso seminário no site do Sidney Rezende!


























