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Um certo clima por aí

Soares Júnior | Soares Júnior | 25/08/2008 02:00

Quem já conversou mais detidamente comigo conhece minha aversão umbilical, fundamental e substancial à expressão "clima tenso". O termo é primo-irmão de "verdadeira praça de guerra", "visivelmente emocionado(a)" e outros clichês que povoam os textos jornalísticos. Eu sei, a expressão explica uma situação, é curta e poderia caber como uma luva no rádio - veículo em que as frases devem dizer muito em poucas palavras.

São adeptos de "clima tenso" aqueles que têm uma idéia errônea do que é rádio. A criação de uma imagem na cabeça das pessoas não é óbvia. Na narração de uma partida de futebol pelo rádio, a bola passa perto do gol de um jeito diferente para mim e para cada um que me dá o privilégio de acessar este blog.

O assunto não é narração esportiva (gente muito mais capacitada do que eu falará sobre o assunto neste espaço). Minha questão é criação de "imagens sonoras".

Marque um encontro com sua namorada. Cineminha básico às 9 da noite. Como você saiu da faculdade ou do trabalho às seis, rolou o chopp com a galera. Nove e quinze - a sessão de cinema com o status de um projeto fracassado - você liga com aquela voz pastosa e alguns decibéis acima do sóbrio. A tentativa de explicar o inexplicável se dará num ?clima tenso?. Se serve para briga de namorado, a expressão não deveria ser usada na reportagem sobre a reação de uma comunidade após a morte de um traficante ou durante uma operação policial.

As imagens são ricas e a função do profissional que trabalha em rádio é retratar aquele momento. Acho que para o rádio-repórter, tão ou mais importante do que a voz é a sensibilidade no olhar.

Repórter de rádio tem que "enxergar" com o ouvido, com o tato, com o paladar e até mesmo com o nariz. O exemplo disso, que pode parecer absurdo, é dizer ao ouvinte o estonteante odor provocado por uma mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Há poucos dias houve uma demonstração de jornalismo explícito na rádio CBN. O correspondente de F-1 da emissora, Livio Oricchio, estava dentro de um avião no aeroporto de Barajas, em Madrid.

Livio não tinha muitas informações do que acontecia. Ele sabia que houvera um acidente com um avião e que saía uma densa fumaça de um ponto do aeroporto. O repórter estava, havia meia hora, parado dentro avião. Obviamente, o "clima" era "tenso". No entanto, ele não usou descrições exageradas, abusando nos "erres" e "esses". A preocupação era localizar o ouvinte e ser honesto na descrição do que podia ver.

A notícia anda. Às vezes, pelo fato de na mídia impressa ela chegar condensada, pode gerar a impressão de que os fatos ocorreram todos de uma vez. O rádio tem o privilégio de acompanhar de perto a mobilidade do fato.

O jornalista deu também uma prova de que esta profissão deve ser exercida como um sacerdócio. Não deixamos o ofício ao sair da redação. Acidentes aéreos, por exemplo, não têm cartão de ponto.

A fumaça negra era uma das marcas visíveis de um acidente que provocou a morte de 153 pessoas, entre elas o brasileiro Ronaldo Gomes da Silva. Isso, Livio e o mundo souberam depois. Antes porém,  o repórter teve a generosidade de dividir os momentos de expectativa que deixavam aquele confinamento angustiante.

Todos nós que ouvimos aquela entrada fomos transportados para o avião em Madrid e esperamos o desfecho da saga. Isso que, na minha modesta opinião, é criar imagens sonoras.

Acompanhe a entrada de Livio Oricchio na rádio CBN.