Em 21/Nov/08 06:11:25

Parte II: A safra mangueirense

Outro dia mesmo estava eu aqui exaltando a importância da interatividade que a internet proporciona. Os leitores servem como uma espécie de termômetro daquilo que a gente escreve. É fundamental que tenhamos este retorno para sentir se estamos no caminho certo ou errado. Meu texto sobre a safra mangueirense é um exemplo disso. 

Não posso achar que sou o dono da verdade e ignorar as opiniões - desde que sejam emitidas com respeito. Alguns, movidos pela paixão, extrapolam, levam a coisa para o lado pessoal e até levantam suspeitas infundadas. Tudo bem, faz parte do processo e só acontece com quem dá a cara a tapa. Se eu só elogiasse todo mundo ia ficar feliz.

Mas, lendo os comentários e relendo meu próprio texto, reconheço que fui mais duro do que devia com os compositores mangueirenses. Talvez não tenha encontrado a palavra certa para expressar minha decepção com a média dos sambas. "Sofrível" é realmente um exagero. Por isso - sem vergonha de admitir um erro - peço desculpas aos compositores da verde-e-rosa. 

Esclareço que a decepção ocorre quando a gente espera algo muito bom. E a Mangueira, nos últimos anos, teve lindos sambas e ótimos concorrentes. Por isso eu esperava mais. A gente só cobra de onde sabe que pode vir coisa boa. 

Os que imaginaram haver algum tipo de perseguição à escola são os que não me acompanham há mais tempo. Já elogiei a verde-e-rosa inúmeras vezes. No ano passado, quando o mundo desabava sobre a Mangueira, eu fui um dos poucos que a defenderam. Respeito e admiro demais a história mangueirense e me orgulho de ter sido homenageado pela direção numa recente feijoada através de uma linda placa que guardo com muito orgulho.

Isso, entretanto, não me impede de encontrar problemas numa sinopse ou numa safra de sambas. Meu dever como cronista para com meus leitores é expressar minha opinião, seja qual for. E minha opinião não é a verdade absoluta. É apenas minha opinião. Há os que concordam e os que discordam. E isso é ótimo!

Alguns leitores sugeriram que eu analisasse outros concorrentes. Um deles foi meu grande amigo Serginho que tem o coração verde-e-rosa e mora no Palácio do Samba. Em respeito a ele e aos outros que o fizeram com respeito, vou comentá-los. Quero deixar claro que ouvi todos os que têm áudio na internet mais de uma vez, atentamente. Mantenho minha opinião sobre os que mais se destacam. Se vão para a final ou não é outra história. 

Não posso analisar todos os sambas de todas as escolas e nem visitar todas as quadras por isso vou continuar selecionando pelas gravações os que, no meu ponto de vista, mais agradam. A quadra faz diferença sim: no acerto do tom, no encaixe com a bateria, na presença da torcida, na repercussão entre os componentes. Mas não muda a concepção artística do samba. Pode ser decisiva quando a coisa é parelha, muito nivelada. Por isso dificilmente vou citar apenas um samba de uma escola de samba, mas sim aqueles que, imagino, vão para esta briga nos terreiros.

Celso Tropical, Catranca, Marcelo Santa Clara e Partidinho

A letra procura fugir do lugar comum da maioria de seus concorrentes. Usa vocabulário diferenciado e tem uma leitura própria do tema. Ponto para os autores.

A melodia é cadenciada e repetitiva, embora possua alguns bons momentos. Foge demais do padrão que a escola vem adotando nos últimos anos. O tom escolhido para a gravação talvez tenha sido alto demais, o que dificulta a interpretação até do excelente Davi do Pandeiro e uma melhor percepção do que o samba pode render.

Índio da Mangueira, Luisinho Oliveira, Daniel do Riachuelo, Beto Savanna

Tem uma boa construção melódica que busca soluções diferentes para a extensa letra sem soar repetitiva. Destaque para a primeira parte que é fluente e fácil de cantar. Não apresenta, entretanto, propostas musicais inovadoras, ousadas. É um samba conservador e extremamente pesado para as necessidades técnicas (evolução e harmonia) dos desfiles atuais.

A letra também está repleta de lugares comuns, a partir do verso inicial "Luz divina ilumina o nosso caminhar / Apoteose está em festa / É carnaval vem festejar". 

Paulinho Rocha, Vicente Felisberto e Fininho

É um samba tipo anos setenta. Nostálgico, encorpado. Em alguns momentos romântico. Tem bons refrãos.

Se perde em sua extensão, principalmente na segunda parte que faz a melodia ser às vezes confusa, e na letra ingênua.

Eraldo Caê, Paulo de Carvalho, Diego Cabral e Bitú G-Sé

Destes quatro é o que mais se aproxima dos meus preferidos. A segunda parte e o refrão final têm cara e pegada de Mangueira na avenida. 

Destaque para o trecho melódico "A imigração de gente nova que no sul vem aportar/ E que renova um ciclo, um lugar/ Vem trazendo esperança/ Verás que um filho teu não foge à luta/ Transformando em realidade/ Um sonho cheio de brasilidade". É bonito, gostoso de cantar e fluente. O refrão final também é alegre e mexe com o povo.

O problema está na parte inicial do samba. Burocrática em poesia e melodia, ela desequilibra a qualidade da obra. O refrão central também não tem qualquer atrativo. Simplesmente está ali para "cumprir tabela". Na comparação inevitável com os mais fortes concorrentes fica um pouco atrás.



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