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Disputa religiosa nas eleições à prefeitura do Rio

Redação SRZD | Eleições 2008 | 22/08/2008 15:46

Além da habitual rivalidade entre os partidos, outro ponto está chamando atenção na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro: a religião. Enquanto o senador Marcelo Crivella (PRB) faz questão de afirmar em sua propaganda que não vai misturar política com religião - "Vou ser prefeito de todas as crenças, de todas as religiões" -, outros candidatos têm uma postura mais contundente.

O candidato do PDT, Paulo Ramos, apelidou o adversário Alessandro Molon de "coroinha do PT" - Molon freqüenta as paróquias do Rio e no início de agosto foi recebido pelo Cardeal Arcebispo do Rio, dom Eusébio Scheid, que também já conversou com Eduardo Paes (PDMB). Paes, por sua vez, pediu a benção tanto de dom Eusébio como de dom Eugenio Dales, arcebispo emérito - este já foi procurado por Crivella.

Na ciranda dos candidatos à procura de uma benção, a única rejeitada pela Arquidiocese do Rio de Janeiro é Jandira Feghali, do PC do B. Oficialmente, a instituição "não possui candidatos e também não indica candidatos", mas a orientação é para os fiéis procurarem políticos "comprometidos com a vida, desde a concepção até a morte natural, comprometidos com a família, comprometidos com valores religiosos sérios e comprometidos com o bem comum". Jandira é autora do Projeto de Lei nº 1.135/91, a favor do aborto em qualquer fase da gravidez.

A candidata chegou a requisitar ao TRE, em 2006, uma ordem de busca e apreensão, determinada a encontrar qualquer material de propaganda contra ela. Além disso, Jandira também pediu ao TRE para que intimasse o Cardeal Dom Eusébio Scheid e o bispo auxiliar Dom Dimas Lara Barbosa (hoje secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) a não tecerem qualquer tipo de comentário com conotação política.

"Os políticos defendem todas as idéias e com algumas dessas idéias nós não podemos concordar, por achar que não são boas para a sociedade. Não favorecem a vida, não são boas para ninguém. E em dever de consciência e de fé, nós devemos rejeitar algumas propostas e se alguns políticos só têm essas propostas, a gente rejeita também esses políticos", argumentou dom Wilson Jönck, bispo-auxiliar do Rio.

A Assembléia de Deus decidiu ir na contra-mão da Arquidiocese, e indicou um candidato específico - Eduardo Paes, do PMDB. "Não vamos eleger um pastor para uma igreja, mas um prefeito. E o Eduardo é o mais competente para o cargo. Se eu fosse buscar um pastor, certamente seria ele (Crivella)", afirmou o deputado federal Manoel Ferreira (PTB), presidente do Conselho Nacional de Pastores das Assembléias de Deus do Brasil.

"O Rio é uma cidade aberta e que não aceita diferenças. Sou católico, tenho a minha fé religiosa, mas receber o apoio de uma liderança como a do pastor Manoel Ferreira é um impulso para a minha candidatura", analisou Paes. E provocou: "A presença do pastor Manoel Ferreira na campanha é a mensagem de que o Rio não aceita luta religiosa".

"Quero tirar o Rio dessa situação com a ajuda de católicos, evangélicos, espíritas. Vou falar com todas as lideranças, não só religiosas, mas da sociedade. Falei (com dom Eugenio) das dúvidas que pairam sobre mim por ser evangélico, e ele disse que isso vai ser superado com a graça do Senhor", respondeu Crivella.

Já Dom Wilson, apesar de ter dito que não há confrontos, criticou a atitude do candidato do PRB: "Guerra não tem. A religião é livre, cada um adota a sua. Agora, se há guerra é o ataque constante dessa seita à Igreja Católica. Isso, a gente não pode aprovar. E seria muito ruim que alguém que ocupasse um cargo tivesse esse tipo de atitude, de ataque ou de retaliação".

A disputa ainda não terminou - o resultado só virá com as urnas, e ainda assim, todas as pesquisas apontam para um segundo turno nas eleições à Prefeitura do Rio de Janeiro. E em relação ao fator religioso no complexo caldeirão das razões pelas quais o eleitor vota em um determinado candidato, é sempre bom lembrar o ex-governador Anthony Garotinho, que baseou sua campanha política em cima do eleitorado evangélico.