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Cultura e ecologia

Antonio Carlos Ribeiro* | | 23/08/2008 03:49:00

A maneira como lidamos com a natureza mostra nosso estágio de desenvolvimento em relação à ecologia. Por ser esta uma área de interesse crescente em todo o mundo, por vivermos numa região em que o ecossistema tem expressão exuberante e por expressarmos nossa cultura em atitudes, posturas, palavras e sentimentos, precisamos entender esse universo imaginativo, buscar seus motivos, reafirmar as razões cordiais - as que são mais centrais da luta pela vida - e rever comportamentos.

Por trás dos comportamentos que adotamos diante da preservação da natureza está a nossa cultura. Para o antropólogo americano Clifford Geertz, a cultura é composta de teias de significados tecidas pelo homem ao longo da vida. É uma referência, partilhada com os demais seres humanos, a partir da qual se atribui significado às suas ações e a si mesmos. Isso significa que as pessoas de uma região têm um quadro referencial, um pano de fundo, pelo qual lêem a realidade. As dinâmicas sociais podem ser identificadas, mas não são definitivas para dizer que se compreende um povo. Estas estão dentro de um universo imaginativo no qual essas ações fazem sentido para os que dela participam. Por isso não há cultura perfeita e nem culturas sem valores.

A maneira como as pessoas lidam com a natureza é resultado das construções mentais e existenciais que desenvolveram ao longo de sua vida. Por isso a simples condenação de um comportamento não basta para mudar hábitos. A tomada de consciência que nos capacita a essa decisão é possível por causa do desenvolvimento do cérebro, ao longo da evolução da espécie humana. Diferentemente do processo das grandes sínteses, que na natureza exigiram milhões de anos, o ser humano tem condições de crescer, informar-se, pensar e tomar decisões a partir dos princípios que vêm da tal teia de significados, pela qual ele pode mudar hábitos enraizados na experiência, e recriar o universo.

Para alterar comportamentos como juntar as folhas das árvores no fundo do quintal e atear fogo, deixar lixo orgânico exposto ou desmatar com alta tecnologia é preciso rever as experiências que acumularam, entender as razões de uma nova prática e fazer um esforço para alterar hábitos. Mais: perceber que esse gesto de grandeza tem o poder de criar nova forma de interação com a natureza, coerente com o bem-estar de todos, condizente com os novos tempos e obediente à legislação. A cultura faz as pessoas e as pessoas fazem a cultura.

Quando se encontram esse conjunto de significados, a que chamamos cultura, e sua tradução em disposição, motivação e engajamento em ações que contribuem para o bem-estar de todos, a que chamamos cidadania, contribuímos para o aprimoramento da civilização. Pensar na sustentabilidade do planeta, na coexistência das criaturas do ecossistema e na mudança do comportamento é civilizatório e aumenta a responsabilidade dos que foram mais aquinhoados com saber, inteligência, consciência e capacidade de reflexão.

Como só os seres humanos reúnem essas qualidades e poder de intervenção técnica para colaborar nesta etapa do processo evolucionário, a expectativa na sua atuação é grande. Leonardo Boff sintetizou nosso dilema existencial: podemos ser o anjo bom que ausculta a mensagem da natureza e trabalha junto e em consonância com ela, como podemos ser o satã devastador e explorador que somente escuta seu desejo excludente e submete o planeta Terra a uma dizimadora agressão.

Quando adquirimos consciência e engendramos novas práticas, recriamos a cultura, fazendo-a desprender-se de uma velha casca, cujas propriedades degeneraram. A cultura recriada é a que se defrontou com suas mazelas, purgou seus erros de princípios e suas falhas de comportamento, dialogou com outras culturas e se depurou. Só esta se torna digna de ser deixada às próximas gerações. 

* Teólogo luterano e jornalista, doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro


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