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A matéria que eu fiz mal

Soares Junior | Soares Júnior | 21/08/2008 10:30

Acho que para os sentidos o que aconteceu ontem ou há 10 anos tem o mesmo significado. Não sou especialista em neurociência, mas a sabedoria popular ensina que gato escaldado tem medo de água fria.

Não compreendo os mistérios da gastronomia, mas lembro até hoje de um bife com batata frita degustado em um restaurante no Centro do Rio, quando tinha 5 anos. Não deve ter sido a primeira vez que enfrentei este crime calórico, mas foi meu marco inicial, talvez tenha sido o ato fundador de minha briga com a balança.

Tenho uma marca imperceptível na mão esquerda provocada por uma queimadura. Tinha a idade de minha filha mais nova e vi a chama do fogão. Deve ter sido um espetáculo atraente, pois coloquei a mão e fui parar no hospital. A atemporalidade dos sentidos faz com que não saia da minha mente a história a seguir.

Eu estava há menos de um mês na rádio e fui escalado para cobrir uma ação da Guarda Municipal. A Prefeitura mandara desocupar o calçadão de Madureira, utilizado por camelôs.

Os ambulantes entrincheirados se recusavam a sair. Os guardas tentavam cumprir a determinação. Não guardo muitos detalhes da operação, sei que muito cru na profissão, engasguei várias vezes nas entradas ao vivo. Nesta infância profissional, caneta e papel são muletas necessárias, no entanto, em conflitos urbanos não há espaço para escrever. A ordem nestes momentos é ver e reportar.

Em meio aos conflitos, uma cena estarrecedora. Uma das ambulantes ateou fogo às próprias vestes. A imagem é  um clichê para descrever loucos na literatura, mas ali naquele calorento abril no subúrbio carioca não era uma metáfora. 

Todos os olhos se voltaram para a mulher. Ela gritava e se debatia no chão. Os jornalistas meio que no instinto e ainda atônitos registravam o espetáculo de horror.

Como no despertar de um transe, alguém gritou: "vamos apagar". O fogo foi debelado, mas o estado de saúde dela era bem grave.

Pouco mais de um mês depois ela morreu. Mórbido, porém inesquecível foi o cheiro de carne humana queimada. Durante muito tempo tentei exorcizar aquele odor e os gritos lancinantes da mulher.

Carrego algumas culpas daquele episódio. A primeira, não ter ajudado a mulher imediatamente. Fiquei estático. A segunda, não ter entrado no ar no ato, a diferença do rádio é justamente poder reportar o fato no momento em que acontece. Minha inexperiência fez com que meu trabalho não fosse bem feito.

Ah, se eu tivesse uma segunda chance...

Acho que neste caso não adiantaria, com certeza teria entrado no ar, mas não sei se teria conseguido ajudar a mulher. Teria conseguido evitar a morte dela? Não tenho resposta e não vou brincar de Deus.


***

PS: Para que fique claro em referência ao último texto. Tenho fé e por isso espero que seja providenciado o reparo na imagem de São Judas Tadeu que fica na estrada do Corcovado. Quem sabe as coisas não se ajeitam ali no quarteirão das ruas Gilberto Cardoso e Mário Ribeiro, num certo clube que anda mancando no páreo do brasileirão.