Decepção na safra mangueirense
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 19/08/2008 15:34:01
No ano passado, a verde-e-rosa teve uma das finais mais bonitas do carnaval. Os quatro sambas finalistas eram de alta qualidade e poderiam representar a escola na avenida. Para 2009 a história é bem diferente. A safra é sofrível e a diretoria dispõe de pouquíssimas opções. Acredito que o enredo repetitivo e a sinopse por demais confusa e extensa foram decisivos para isso.
Outro fator que colabora para a diminuição da quantidade de boas obras é a junção de três eventuais parcerias. Lequinho e Gilson Bernini, que polarizaram as últimas disputas, se uniram e ainda acolheram o recém-chegado Gusttavo Clarão. Já escrevi sobre isso antes: pode ser bom para eles, mas é péssimo para a agremiação. Se o resultado desta parceria não for dos melhores a escola se vê em maus lençóis.
Dos sambas que possuem seus áudios disponíveis na internet, três aparecem com fôlego para disputar a vitória. São os que analiso abaixo.
Lequinho, Jr.Fionda, Gílson Bernini e Gusttavo Clarão
Aconteceu o que eu previ. Como num time de futebol, "muito craque junto às vezes atrapalha". Alguém sempre se intimida ou tem que ceder em função do colega. Dificilmente o talento de todos aflora.
O samba fruto da junção de parcerias é um reflexo deste processo. Sou fã de cada um deles e sei do potencial criativo destes grandes nomes, mas sou obrigado a reconhecer: a obra está abaixo do que cada um produziria isoladamente.
Não é um samba ruim, entendam. É apenas correto e fluente - "padrão básico". Falta a ele o "algo a mais" que todos esperamos destes compositores. A letra é composta por chavões e soluções óbvias e a melodia, embora muito animada, segue o mesmo caminho da falta de ousadia e criatividade. Acaba se destacando na baixa média da escola e se transforma num dos grandes favoritos, pois deve contar com uma "mega-estrutura" de quadra.
A excelente qualidade da gravação passa um clima de animação muito grande e encobre eventuais problemas. Poderia ter um andamento mais lento para que pudéssemos sentir melhor a melodia.
Marcus Moniz, Renan Brandão, Machado e Marcelo Nunes
A parceria do inesquecível refrão "Então não chora Pierrot" (2008) não produziu para este ano uma passagem tão bonita quanto aquela. Mesmo assim conseguiu fugir do lugar comum na poesia e gerar a melhor letra da safra mangueirense.
Os autores mostraram grande sensibilidade artística para contar de maneira diferente uma história que já estamos cansados de ouvir. Ser poeta é isso: buscar o diferente, o novo, sempre com beleza. Versos como "Brasil, no plural se tornou singular", "um dia o sonho migrou", "Pátria que sorri ao chorar" e "Mangueira, tradução mais singela" são exemplos de uma letra que vai além da sinopse e busca sua própria maneira de contar a mesma história.
A melodia mantém o estilo do ano passado. É cadenciada e densa, sem deixar de ser fluente. Possui passagens bonitas e é fácil de cantar em desfile. Não apela para a animação fácil. É uma espécie de resistência consciente.Talvez por isso encontre rejeição por parte de alguns segmentos importantes.
A aposta dos compositores não é na alegria, mas sim na emoção do mangueirense, o que se comprova no verso "Sou a força da paixão que cresce na dor". A indignação com o que aconteceu no ano passado, aliás, vai além e gera um verso que soa como uma bronca na própria escola e que poderia ser evitado: "Mangueira... tem um nome a zelar".
David Corrêa, Marcelo D'Aguiã, Rosemar da Mangueira e Bizuca
Mestre é mestre. Mesmo sem fazer sucesso recentemente David Corrêa mostra que ainda tem o dom de criar. Ele volta à escola em que produziu seu último "hit" (Atrás de verde e rosa só não vai quem já morreu) com um samba tipo "arrasta povo", que pode desbancar os favoritos.
A grande proeza da obra é respeitar a batida da bateria da escola. Na gravação já fica claro que a melodia se encaixa de forma suave nos cortes característicos dos surdos da verde e rosa. Isso promete fazer a quadra balançar especialmente no refrão principal.
Ele (o refrão) se utiliza da batidíssima fórmula da resposta ("A Mangueira é... guerreira"), mas com uma divisão diferente e gostosa. O verso "respeite o meu tamborim" é um dos lugares do samba onde se percebe a diferente musicalidade de David. Assim como em "o homem branco também bate tambor", em "Sertanejo, pantaneiro, repentista, sanfoneiro, boiadeiro cantador" e em "visão de um sonhador". Acordes e entonações que alegram quem está acostumado com sambas quadradões montados sobre soluções melódicas e harmônicas previsíveis.
O samba, entretanto, está longe de ser uma obra-prima. Tem quebras repentinas de melodia em alguns trechos e rimas quebradas "aqui e ali". A letra procura fugir do "detalhismo" descritivo, mas carece de maior requinte poético em algumas passagens.
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