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Palestra cheia de bossa

Lula Branco Martins | Lula | 18/08/2008 12:06

Fui a uma palestra sobre bossa nova. Aconteceu quarta passada, na Biblioteca Nacional. À mesa, o historiador Paulo César de Araújo, velho amigo. Ele é autor de "Eu não sou cachorro, não", livro sobre música brega, e também da biografia proibida "Roberto Carlos em detalhes". Ancorando o debate, o professor Vitor Iório, que nos anos 80 me deu as primeiras noções de jornalismo, na PUC.

A palestra corria bem. Paulo César tentava explicar à platéia as três diferentes concepções que a expressão "bossa nova" carrega. Segundo ele, há o movimento bossa nova (um fato datado, vivido na virada dos 50 para os 60 por jovens músicos da Zona Sul carioca); o repertório bossa nova (as canções que, por uma razão ou outra, passaram a compor o roteiro básico daquele período); e a linguagem bossa nova, este sim, o aspecto mais importante segundo Paulo César, que é nada mais nada menos que o estilo musical proposto e definido por João Gilberto, artífice maior da bossa nova, inventor, digamos assim, da moderna música brasileira.

Foi então que, depois de muito falar, Paulo César resolveu provar o que falava. Pôs para rodar CDs. Ia assim> um de bossa velha, em seguida um de bossa nova; um com uma canção à moda antiga, outro com a mesmíssima canção, mas a essa altura já remodelada pelo estilo de João. A platéia, de estudantes na maioria, ficava embasbacada com o que ouvia. As diferenças eram gritantes.

A palestra era de bossa, portanto tinha algo de samba nas suas entranhas, e eu com os meus botões fiquei pensando justamente em carnaval. Mais especificamente, fiquei pensando em samba-enredo. Como seria bom se, em vez de só falarmos, em vez de apenas escrevermos, pudéssemos, como fez o historiador Paulo César de Araújo naquela palestra, provar por a mais bê como os sambas se modificaram. Como as novas gerações entenderiam melhor os nossos apelos... Sonho com o dia em que um palestrante, falando de carnaval, vai mandar soltar um CD com um velho samba, e em seguida um CD com um samba de hoje. E sonho que ele mostre, tim-tim por tim-tim, os detalhes que revelam como duas obras com o mesmo nome, samba-enredo, podem ser tão díspares uma da outra.

E não me venham com essa que é por causa do tempo de desfile que a coisa se descaracterizou. Não é (só) por aí. O buraco é mais embaixo.


Até! Por problemas tecnológicos e internéticos, esta coluna só entrou no ar hoje, segunda, e não na quinta passada. Mas esta semana o "Carnavalesco fresco" volta normalmente, na quinta.


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Postado por:Mila | 20/08/2008 01:18:16

O problema no caso da evolução é que os alunos (jovens) vêem/ouvem a diferença gritante entre algo novo e "velho" e nem mesmo assim se desarmam... E isso acontece com tudo e não só com a música. No meu caso a badeira branca, deve-se ao fato de o meu pai ter 78 e minha mãe quase 50... Cresci ouvindo coisas muito novas e coisas muito "velhas" e cosegui fazer um mixe de tudo. É uma pena pra mim, que tenha me desarmado tanto, afinal quem mais em pelo 2008, aos 20 anos, gosta de ouvir Dolores Duran, Altemar Dutra, sambas novos e antigos (apesar de não saber sambar nenhum dos dois) e ainda sobra espaço pra Capital Inicial, Amy, Norah, Jota Quest, Ana, Adriana, Mariah e por aí vai... Quem se encaixa nesta vida?!

Postado por:Paulo Freitas | 19/08/2008 08:04:58

Lula, tudo evolui. É inexorável. Ainda que não queira, o homem é compelido a evoluir (material e espiritualmente). É lei natural. Você sabe bem disso. Não dá para voltar à bossa nova, assim como voltar aos velhos, arrastados e despretensiosos sambas de enredo de outrora. Desde que Mestre André inventou a paradinha, tudo mudou, em que pese a hesitação em imitá-lo. Demorou. Hoje, as baterias querem fazer piruetas. E, convenhamos: com os sambas de enredos de outrora e que marcaram época é impossível. Uma pena. Mudamos pra pior. E assim contrariamos as leis naturais e imutáveis. Hoje temos o samba comercial, do petróleo e do gás, das companhias de aviação, dos governantes que se promovem às custas das generosas cotas que pagam ás escolas e tudo mais. Até a pobre África fez gracinha por aqui, dando um milhãozinho ali, outro lá... Chegamos à época do samba-refrão, mais para ser berrado nas arquibancadas do que ganhar a posteridade enquanto canção.

Postado por:jorge lopes | 18/08/2008 13:57:59

Se compararmos o samba do Império Serrano de 1972 e o de 2008, veremos que aparecem essas diferenças gritantes informadas por você. Ambos referiam-se à Carmem Miranda. Há diferenças no número de versos, no conteúdo dos versos e, especialmente, nas melodias. Aqui, não vai qualquer crítica aos compositores do samba deste ano, mas prefiro o de 1972, por ser mais poético, mais cadenciado...

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