"Para a felicidade, só nos resta 'não ver'. Fechar os olhos. É uma lista de negativas: não ter câncer, não ler jornal, não ligar para as tragédias, não olhar os meninos-malabaristas no sinal, não ver os cadáveres explodidos na TV, não ter coração, se transformar num clone de si mesmo, num andróide programado para ter esperança, vivendo um presente infinito e longo, incessante e delirante como uma rave sem fim."
O texto é do Arnaldo Jabor, escrito em outubro de 2007 e publicado no jornal O Globo. Achei-o perfeito para ilustrar a sensação que tive hoje ao dar uma lida nos sites de notícias, ao pensar sobre o conflito entre a Rússia e a Geórgia, e ao refletir sobre este nosso imenso mundo virtual. "Hoje, felicidade é ser desejado. (...) Esta infantilização da felicidade pela mídia se dá num mundo em parafuso de tragédias sem solução, como uma disneylândia cercada de homens-bomba. Não precisamos fazer ou saber nada, o sujeito só existe se aparecer. (...) O Horror deixou de ser um susto - faz parte da vida. (...) A liberdade/felicidade virou mais uma camuflagem do capitalismo. No fundo, temos uma secreta nostalgia da submissão. A liberdade dá angústia. (...) O chamado 'eu' virou um privilégio para meia dúzia de loucos e, claro, para as grandes corporações donas do mercado do desejo."
Ao reler hoje essa crônica de Jabor, fiquei com a impressão de que estamos mergulhando no mundo das futilidades para fechar os olhos para as grandes tragédias que vêm dominando o mundo - algo do tipo "já que não posso fazer nada para conter as guerras e para tirar as crianças da rua, vou é me concentrar nas últimas fofocas dos artistas, assistir ao vídeo da dança do quadrado no You Tube, comprar o celular que acabou de ser lançado e, assim, ser feliz."
O rabino Nilton Bonder, em seu livro "Ter ou não Ter, Eis a Questão", afirma que o indivíduo que quer "ser" precisa sempre se fazer essa pergunta. Segundo ele, como a verdadeira posse está na conquista e não na propriedade, ao escolher o que não se quer ter, o sujeito define quem ele é. "O vício da civilização é transformar tudo em posse", afirmou, em entrevista concedida em 2006.
O filme "O Clube da Luta" mostra bem essa dicotomia entre ser e ter. Na época em que foi exibido no Brasil, as cenas de violência do longa-metragem foram bastante criticadas, principalmente devido àquele acontecimento trágico - um insano invadiu o cinema de um shopping atirando na platéia com uma metralhadora. O fato é que o filme é muito mais que um amontoado de seqüências violentas. Quantas pessoas não têm sua vida resumida ao acúmulo constante de bens materiais como o personagem de Edward Norton, que tinha como seu único objetivo, no início da história, comprar móveis novos para o seu apartamento?
Desculpem se estou muito filosófica hoje, mas acho que esse debate tem TUDO A VER com os avanços tecnológicos, com os nossos desejos intermináveis por novos produtos, estimulados por um mercado que aprende cada vez mais a manipular as informações que depositamos nesta vitrine chamada internet. Precisamos urgentemente assumir a responsabilidade de estabelecer limites para nós mesmos, caso contrário podemos começar a achar que SER é TER a última novidade tecnológica ou ESTAR ONLINE. Já pensou nisso?