A festa dos sambas
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 10/08/2008 19:39:29
Começa um dos períodos mais polêmicos do ano para nós que fazemos a cobertura carnavalesca. A fase das eliminatórias de samba-enredo mistura paixão e interesse comercial numa dose que tira muita gente do sério.
O SRZD-Carnavalesco está desenvolvendo um trabalho especial neste período, se esforçando para estar presente nas quadras desde o momento de entrega dos sambas a fim de brindar você com o material mais novo possível. A exposição dos sambas concorrentes é uma demonstração da seriedade e do profissionalismo que este veículo tem demonstrado na cobertura da nossa maior festa.
É com este propósito que vamos começar a já tradicional análise das "safras". É um segundo passo nesta cobertura que se completará com as reportagens feitas nas quadras das escolas. Nosso enfoque é subjetivo, como prevê uma coluna, e não pretende influenciar esta ou aquela diretoria. Faremos uma leitura crítica das obras em geral e apontaremos as que se destacam, procurando refletir sobre os motivos que levam este ou aquele samba a ganhar o favoritismo.
Sou um compositor licenciado e sei bem o que é participar deste tipo de concurso. Já ganhei três vezes, estive em mais quatro finais e vi também três de meus sambas ficarem pelo meio do caminho. Peço compreensão a meus colegas que sempre procurarei tratar com muito respeito porque sei que fazem seu trabalho com muito amor.
Vou tentar escrever sobre duas escolas por semana, entre Especial e Acesso A. Prometo não deixar nenhuma agremiação de fora, mas peço que entendam se esta ou aquela escola demorar um pouco mais. Não se pode ter uma idéia de um samba ouvindo apenas uma vez. É necessário um tempo de maturação para que a melodia seja perfeitamente "digerida" e compreendida.
Adianto que tenho algumas convicções antes de entrar nos méritos da safra. Acredito, cada vez mais, que as letras precisam estar mais poéticas e menos detalhistas. Valorizo a transmissão de mensagem de forma sensível e emotiva. Não está escrito em lugar algum que todos os setores, carros e alas precisam estar na letra do samba. Muitas vezes esta busca louca por inserir todo o enredo acaba gerando monstrengos de difícil compreensão. Liberdade poética, pelo amor de Deus!
Quanto à melodia tenho sentido uma grande necessidade de ouvir coisas novas, que fujam dos padrões repetidos nos últimos anos. O samba-enredo precisa se libertar também da estrutura "Refrão - primeira parte - refrão - segunda parte". Porque não ousar, buscar uma formatação diferente? Arte é criar, é buscar o novo.
É importante que tenhamos em mente que o samba-enredo é uma música composta para ser cantada em coral, durante sessenta ou oitenta minutos. Versos mais espaçados, fluentes, sem muitas sílabas, facilitam o canto dos componentes e a propagação do som que emitem, ajudando decisivamente a harmonia.
Não é um trabalho fácil, muito menos de consenso. Muita gente irá discordar, o que é bom na democracia. O importante é que se abra um debate em alto nível, em prol da qualidade do nosso quesito mais importante, aquele que faz as pessoas se aproximarem ou se afastarem da festa. Que o ano de 2009 nos brinde com sambas antológicos!
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