Era uma vez...: "Um Shakespeare na Cidade Maravilhosa"
Ademar Jr. de Queiroz* | Cinema | 08/08/2008 15:33:00

A idéia de fazer um filme que explorasse os contrastes sociais do Rio de Janeiro nasceu em 1987, quando Breno Silveira era o câmera do documentário "Santa Marta: Duas semanas no morro", de Eduardo Coutinho. Ele então quis comprar os direitos de "Cidade de Deus", mas Paulo Lins já os havia vendido para Fernando Meirelles. Breno sugeriu ao autor que escrevesse uma outra história. Alguns anos depois, surgia o embrião de "Era uma vez...", uma versão mais dura e violenta do que a que chegou às telas há duas semanas.
Era para ter sido a estréia de Breno Silveira na direção de um longa-metragem, mas a história de amor entre um garato sangue-bom do Morro do Cantagalo e uma patricinha da Avenida Vieira Souto, explorando a desigualdade social como obstáculo à união do casal, não entusiasmou os produtores e o diretor acabou debutando nas telonas com a biografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano, um estrondoso sucesso de bilheteria, o maior público pós-retomada do cinema nacional (1994), com mais de cinco milhões de espectadores. Esse número quebrou as resistências iniciais e abriu os cofres para que 'Era uma vez..." saísse do papel. No entanto, repetir (ou ultrapassar) as marcas do primeiro filme será uma façanha. E a disputa começou com desvantagem para esse Romeu-e-Julieta carioca, que estreou em apenas 89 salas, contra as 351 à epoca do lançamento de "2 filhos de Francisco".
Dé (Thiago Martins) é um morador do morro que trabalha num quiosque de cachorro-quente em Ipanema, localizado exatamente na frente do edifício em que mora Nina (Vitória Frate), por quem é platonicamente apaixonado, apesar dele ser invisível para a moça. Uma desilusão amorosa daqui, um certo atrevimento dali e os dois ficam juntos. Se o amor parece ser suficiente para transpor o abismo sociocultural que os separa, as diferenças apontam para o precipício. Um acordo entre traficantes e policiais corruptos expõe o flanco da triste e tão conhecida realidade brasileira e coloca os pombinhos numa arapuca. Só há chance de escapatória para os dois se a intolerância e o preconceito forem vencidos.
Além da violência, da pobreza, do tráfico e da corrupção, os rumos do romance de Dé e Nina também são influenciados por outras histórias de amor: a dos três irmãos, a da mãe favelada e o filho trabalhador, a do pai viúvo e a filha única. É essa teia de sentimentos que humaniza os personagens, não deixando que os rótulos de mocinho e vilão grudem definitivamente em qualquer um deles: o bem e o mal estão em todo mundo e fazem um rodízio à medida que os conflitos vão surgindo. Com certeza, esse é um dos grandes trunfos do roteiro, que consegue emocionar em muitos momentos, intercalando as belezas e as mazelas do Rio e traçando um panorama cruel e comum a qualquer metrópole do mundo.
Não há como negar que a atuação de Thiago Martins é a alma do filme. Seu personagem convence em todas as cenas, indo da delicadeza à ira com a mesma segurança. Isso prova que o jovem ator - que segue morando numa favela e é integrante do grupo "Nós do Morro" - estava certo ao batalhar pelo papel que o diretor se negava a entregar a ele, por considerá-lo galã demais (para quem não se lembra, ele participou de novelas globais como "Belíssima" e "Da cor do pecado"). Se o problema era esse, Thiago foi para o quarto teste de cabelo raspado, com a pele tostada de sol, a cara cheia de espinhas e deu no que deu. Bendita persistência! Outro destaque do elenco é Cyria Coentro. Com larga experiência no teatro e participação em novelas e minisséries, a atriz surpreende ao criar uma mãe que faz de tudo para manter os filhos no bom caminho, impregnando de verdade seu silêncio, suas explosões, seu amor e seu desespero.
Além de realçar as emoções, a música de "Era uma vez..." revela mais sobre a vida e os sentimentos do seu personagem central. Assim, para mostrar o universo de Dé, o filme começa com "Vide Gal", do baiano Carlinhos Brown, na voz da carioquíssima Mart'nália ("Se tenho fome, como logo o Pão de Açúcar / Urro no Morro da Urca / Se quero abraço, tenho o Cristo para me abraçar"). Num momento romântico de um baile funk, Claudinha e Bochecha cantam "Fico assim sem você", uma declaração de amor que poderia perfeitamente sair dos lábios do enamorado Dé ("Neném sem chupeta / Romeu sem Julieta / Sou eu assim sem você"). Mas nada supera a inédita "Minha rainha", escrita por Manacéa, da Velha Guarda da Portela, e interpretada por Luiz Melodia ("Eu sonhei que era rei e você, minha rainha / Quando acordei, verifiquei que você não era minha / Meu coração quase parou de dor / Mas consegui te conquistar, meu grande amor"). A canção parece ter sido composta para o longa, mas foi uma sugestão de Marisa Monte, retirada dos seus arquivos de pesquisa sobre samba. E durante os créditos finais, ainda é possível ouvir a pungente "Uma palavra", parceria inédita da cantora com Brown e Arnaldo Antunes.
O fato das filmagens terem sido realizadas totalmente em locação imprime mais veracidade ao que vemos. O que também pode ser dito sobre os cenários e figurinos, uma vez que a produção contou com a valiosa "consultoria" da comunidade, valendo-se de móveis e roupas dos próprios moradores. E o que dizer da fotografia? As imagens encantadoras de Ipanema feitas a partir das lajes do Cantagalo ilustram muito bem o contraste que o roteiro de Patrícia Andrade quis discutir, além de gerar cenas inesquecíveis, como aquela em que Nina compara as janelas dos barracos do Vidigal a um céu de estrelas ou uma outra em que Dé abre os braços, tendo o Morro Dois Irmãos ao fundo, numa alusão nítida ao Cristo Redentor. Por isso, apesar da fatalidade e do pessimismo reinantes na fábula de Breno Silveira sobre a Cidade Maravilhosa, "Era uma vez..." é, ainda assim, uma declaração de amor ao Rio de Janeiro. Que o digam as reticências do título que, somadas ao "final depois do final", parecem instigar o povo brasileiro a escrever uma outra história.
ERA UMA VEZ... (2008)
Direção: Breno Silveira
Elenco: Thiago Martins, Vitória Frate, Rocco Pitanga, Cyria Coentro, Paulo César Grande
Roteiro: Patrícia Andrade, com colaboração de Domingos de Oliveira
Fotografia: Dudu Miranda e Paulo Souza
Direção de arte: Rafael Ronconi
Figurino: Cláudia Kopke
Edição: Eduardo Hartung
Música: Berna Ceppas
Cotação: 10/10
*Ademar Jr. de Queiroz é jornalista e publicitário e, nas horas de folga, fala de cinema no Cine Demais e põe-se a filosofar no Buarqueando.
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Postado por:RODRIGO GUIMARAES | 18/08/2008 14:47:59
Muito bom !!! esse filme...
Postado por:Ademar de Queiroz | 13/08/2008 09:13:01
Valeu, Luisa. O equívoco já foi corrigido. Abração
Postado por:luisa medeiros | 09/08/2008 01:38:56
rsrs A atriz se chama Vitória e não Valéria!!!!
Postado por:Mariza Luz | 08/08/2008 16:57:49
Minha filha viu o filme e amou. Eu disse a ela que ia ver também porque gosto de filme nacional. Ela me disse - Mãe, vc que não gosta de filme violento não vai gostar. O filme é forte... Após ler o texto acima eu vou ver sim.... Era uma vez... um desejo, uma vontade, uma realidade.... Até!




























