Sou filho temporão. Tive o privilégio ao longo da vida de conviver com pessoas idosas. O ruim nesta história é que a maioria deles vive só na memória atualmente. A vida profissional colocou-me a entrevistar alguns anciãos.
Três desportistas em especial deram-me munição para a guerra cotidiana, dividindo comigo histórias. O primeiro foi Adhemar Ferreira da Silva. Único atleta brasileiro a ganhar duas medalhas de ouro olímpicas no atletismo. Avisaram-me que ele era arredio com quem não entendia do assunto. O despreparo dos entrevistadores, infelizmente, não é tão raro assim na nossa profissão.
No estádio Célio de Barros era disputada uma competição internacional de atletismo. Por algum motivo que ignoro, meu cérebro guardou que a medalha de ouro nos jogos de Melbourne, em 1956, tinha sido conquistada com um salto de 16m36cm. Perguntei a ele como ele se sentia pelo fato de mesmo 40 anos depois, o salto dele ainda alcançar o pódio numa competição de alto nível.
Ele abriu um enorme sorriso e me concedeu uma longa entrevista. Vocês querem ver a importância do cara. Sozinho ele ganhou duas medalhas de ouro, em Atenas-2004 a delegação inteira ganhou cinco.
O segundo cavalheiro chamava-se Valdir, tornou-se nobre com o apelido, Didi. Cruzei com ele algumas vezes nos corredores da Rádio Globo onde participava costumeiramente das resenhas esportivas.
Ao fazer um especial sobre os 50 anos do Maracanã peguei carona com um colega que marcara uma entrevista com o Folha Seca. Autor do primeiro gol do maraca, Didi continuava com a lucidez intacta, mas o corpo lhe pregara peças. O fotógrafo quis que ele posasse chutando a bola. No entanto, o Príncipe Etíope (alcunha dada por Nelson Rodrigues) tinha a marcação de uma bengala. O jeito foi colocar a bola presa entre a cabeça de Didi e a trave. Escrava em tantos momentos, a pelota ficou ali obedientemente, esperando a chapa ser batida.
O terceiro personagem era um senhor de pele morena e cabelo ralo que me parecia familiar. Meu irmão, que é 18 anos mais velho do que eu, estava que era só empolgação. Este é o Mestre Ziza, o Zizinho ídolo do Pelé.
Achei o máximo e comecei a perguntar. Estávamos em Niterói, ele armado da memória e de scotch. Eu de curiosidade e cerveja. Assim como meu pai, que me contava histórias do Governo Vargas, Zizinho relatava suas façanhas em campo. Esta parte do texto vai ficar bem de menino. Os homens entendem como é bom contar seus feitos no futebol. E aquele cidadão que me dava o privilégio da companhia, era o ídolo do Pelé.
E ele percebia que eu estava empolgado com a saga e me continuava a narrativa. Zizinho falou de uma vez que, com a perna quebrada, conseguiu virar um jogo que estava perdido. Confessou que corria tanto nas partidas, que chegava a perder dois quilos por jogo. Ainda não estava na faculdade, mas uma curiosidade congênita me levou à pergunta sobre a Copa de 50. Com um traço de amargura, ele falou que jogo é assim e o time do Uruguai era bom. Mestre Ziza contou que se irritou com os políticos que queriam tirar proveito dos jogadores antes da finalíssima. Rubro-negro, Zizinho talvez reprovasse o clima no Flamengo antes da partida contra o América do México. Naquela conversa nos anos 90 ele já se incomodava com os rumos do clube.
Passei uma madrugada bebendo com o ídolo do Pelé. Ao final, ele se levantou e foi tranqüilamente, ecos do gingado de outrora ainda se manifestavam no andar. Eu, peladeiro com alguma eficiência, levantei-me trôpego, mesmo tendo menos um terço da idade do mito.
Anos depois, já trabalhando encontrei-o numa pauta. Ele não demonstrou se lembrar de mim, mas o bem já estava feito, a seleção de 50 absolvida e eu com mais um ídolo.
Os três gênios foram extremamente generosos ao dividir as histórias comigo. Estes relatos são lições que tento levar. Espero que a generosidade não seja apenas coisa de velho e nem que velhice seja sinônimo de solidão.