Os velhos
Soares Júnior | Soares Júnior | 08/08/2008 15:17:16
Sou filho temporão. Tive o privilégio ao longo da vida de conviver com pessoas idosas. O ruim nesta história é que a maioria deles vive só na memória atualmente. A vida profissional colocou-me a entrevistar alguns anciãos.
Três desportistas em especial deram-me munição para a guerra cotidiana, dividindo comigo histórias. O primeiro foi Adhemar Ferreira da Silva. Único atleta brasileiro a ganhar duas medalhas de ouro olímpicas no atletismo. Avisaram-me que ele era arredio com quem não entendia do assunto. O despreparo dos entrevistadores, infelizmente, não é tão raro assim na nossa profissão.
No estádio Célio de Barros era disputada uma competição internacional de atletismo. Por algum motivo que ignoro, meu cérebro guardou que a medalha de ouro nos jogos de Melbourne, em 1956, tinha sido conquistada com um salto de 16m36cm. Perguntei a ele como ele se sentia pelo fato de mesmo 40 anos depois, o salto dele ainda alcançar o pódio numa competição de alto nível.
Ele abriu um enorme sorriso e me concedeu uma longa entrevista. Vocês querem ver a importância do cara. Sozinho ele ganhou duas medalhas de ouro, em Atenas-2004 a delegação inteira ganhou cinco.
O segundo cavalheiro chamava-se Valdir, tornou-se nobre com o apelido, Didi. Cruzei com ele algumas vezes nos corredores da Rádio Globo onde participava costumeiramente das resenhas esportivas.
Ao fazer um especial sobre os 50 anos do Maracanã peguei carona com um colega que marcara uma entrevista com o Folha Seca. Autor do primeiro gol do maraca, Didi continuava com a lucidez intacta, mas o corpo lhe pregara peças. O fotógrafo quis que ele posasse chutando a bola. No entanto, o Príncipe Etíope (alcunha dada por Nelson Rodrigues) tinha a marcação de uma bengala. O jeito foi colocar a bola presa entre a cabeça de Didi e a trave. Escrava em tantos momentos, a pelota ficou ali obedientemente, esperando a chapa ser batida.
O terceiro personagem era um senhor de pele morena e cabelo ralo que me parecia familiar. Meu irmão, que é 18 anos mais velho do que eu, estava que era só empolgação. Este é o Mestre Ziza, o Zizinho ídolo do Pelé.
Achei o máximo e comecei a perguntar. Estávamos em Niterói, ele armado da memória e de scotch. Eu de curiosidade e cerveja. Assim como meu pai, que me contava histórias do Governo Vargas, Zizinho relatava suas façanhas em campo. Esta parte do texto vai ficar bem de menino. Os homens entendem como é bom contar seus feitos no futebol. E aquele cidadão que me dava o privilégio da companhia, era o ídolo do Pelé.
E ele percebia que eu estava empolgado com a saga e me continuava a narrativa. Zizinho falou de uma vez que, com a perna quebrada, conseguiu virar um jogo que estava perdido. Confessou que corria tanto nas partidas, que chegava a perder dois quilos por jogo. Ainda não estava na faculdade, mas uma curiosidade congênita me levou à pergunta sobre a Copa de 50. Com um traço de amargura, ele falou que jogo é assim e o time do Uruguai era bom. Mestre Ziza contou que se irritou com os políticos que queriam tirar proveito dos jogadores antes da finalíssima. Rubro-negro, Zizinho talvez reprovasse o clima no Flamengo antes da partida contra o América do México. Naquela conversa nos anos 90 ele já se incomodava com os rumos do clube.
Passei uma madrugada bebendo com o ídolo do Pelé. Ao final, ele se levantou e foi tranqüilamente, ecos do gingado de outrora ainda se manifestavam no andar. Eu, peladeiro com alguma eficiência, levantei-me trôpego, mesmo tendo menos um terço da idade do mito.
Anos depois, já trabalhando encontrei-o numa pauta. Ele não demonstrou se lembrar de mim, mas o bem já estava feito, a seleção de 50 absolvida e eu com mais um ídolo.
Os três gênios foram extremamente generosos ao dividir as histórias comigo. Estes relatos são lições que tento levar. Espero que a generosidade não seja apenas coisa de velho e nem que velhice seja sinônimo de solidão.
|
Topo
Notícias relacionadas
Postado por:Renata Assunção | 14/08/2008 15:27:42
Generosidade não é coisa de velho não. Você está aqui dividindo suas histórias...
Postado por:Cristiana Alvim Richard | 11/08/2008 22:40:06
Tem um tempinho que não lia seu blog. Você está escrevendo cada vez melhor. Sobre Garrincha e Pelé, o que posso opinar, mesmo não entendendo muito de futebol, é que quando vi o vídeo de "Pelé" e o filme "Garrincha, alegria do povo", é que têm pés predestinados, sem dúvida. E os dribles de Garrincha, deixavam os adverários tontos. Aliás, o filme do Garrincha é em preto e branco, assim como o tempo do meu pai, dos meus irmãos, pois que também tenho uma diferença de idade de 19 anos pra minha irmã mais velha. E o que posso dizer é pobre dos que não aproveitam a sabedoria dos mais velhos. E este exemplo devia servir também para jogadores que falam demais fora do campo e na hora do vamos ver, nada de gol. Porque o que ganha jogo é gol, e se for com futebol arte, melhor ainda. bjs e até o próximo texto.
Postado por:Gabriel Portugal | 08/08/2008 18:46:48
Contar os casos da pelada no fim de semana é bom demais, mas ouvir histórias desses craques é um privilégio. Didi, melhor jogador da Copa da Suécia e Zizinho, ídolo do Fla e na seleção. Essas lendas do futebol mereciam ser eternas, para a minha geração conhecer um pouco mais do que foi o futebol. Conhecer e aprender, jogadores mais identificados com os clubes e menos com as cifras. Bons tempos.
Postado por:Márcio Leite | 08/08/2008 17:52:56
Vi um depoimento do Zizinho em que ele coloca a culpa da imagem negativa da seleção de 50 na conta da imprensa. Seria a imprensa a grande vilã que maltratou tanto Barbosa e cia ou ela apenas cumpriu seu dever de relatar a frustração coletiva? Abraço!
Postado por:Erick van-Erven | 08/08/2008 16:46:59
Vivemos num país onde a experiência é vista como doença, atrapalha, incomoda, nossos velhos que estão a cada ano ocupando uma faixa maior na pirâmide etária, ainda sofrem como descaso de autoridades. Perdemos todos os dias um infindável número de histórias que certamente nos ensinariam sobre coisas da vida e de como bons exemplos reforçariam nossas existências nesse planeta. Lembro-me de um fato ocorrido num arquipélago profundamente arrasado no caminho da Tsunami, cujo contingente de uma tribo foi toda salva, pela perspicácia dos mais velhos, cujos antepassados passaram de pai pra filho sobre o que fazer se o mar recuasse. A sabedoria do tempo salvou uma geração inteira. Hoje, vendo a abertura dos jogos olímpicos, pude ter a certeza de que as tradições devem ser respeitadas. Nossos ídolos e os ídolos dos nossos ídolos merecem nossa reverência, pois o homem que não preserva seu passado não conhecerá seu futuro, seu destino. Não precisamos errar novamente, observemos a história dos antepassados e cometamos nossos próprios erros. Devemos valorizar a possibilidade de evoluir segundo nossas próprias metas sem cair na irreverência de repetir faltas do passado. Nós jornalistas, temos a obrigação moral de dar vida ao que a vida nos leva, e registrar nos anais da história o que nossa memória não é capaz de guardar. Salve a experiência, vovôs e vovós do mundo, que seus legados sejam eternizados nas páginas da vida e nos preparem para nossa hora.


















