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Puxando pela memória

Lula Branco Martins | Lula | 07/08/2008 16:48:33

Amanhã acabam as minhas férias. Sou professor universitário e sempre inicio cada semestre com a expectativa de ver, à minha frente, dentro das novas turmas, garotos e garotas que gostem de samba e de carnaval. É difícil. Ainda mais porque dou aulas numa faculdade de elite, cara, na Zona Sul. Tenho observado, nos últimos anos, que muitos ali, principalmente as meninas, vêm curtindo mesmo é um funk, bem pancadão, por mais contraditório que isso possa parecer.

Com os que levantam a mão quando pergunto quem gosta de escola de samba, sempre faço um teste nos primeiros dias de aula. Gosto de sacar até onde vai a memória dos aficionados. Vou de ano em ano, em ordem cronológica inversa. Quem ganhou este ano no Grupo Especial? Beija-Flor, respondem. E em 2007? Beija-Flor, respondem. E em 2006? Eles engasgam. A tendência é dizer Beija-Flor, só que não foi. Poucos costumam se lembrar do campeonato latino-americano da Vila. E em 2005? Volta-se à ladainha de Beija-Flor, Beija-Flor, Beija-Flor... até chegar à Mangueira de 2002, do Nordeste e tal. O curioso é que meus alunos até se lembram dos títulos seguidos da Beija, mas só um ou outro consegue acertar o enredo qual foi.

O tri da Imperatriz em 2001, 2000 e 1999 não empolga muito a minha alunada. Eles tinham pouco mais de 10 anos de idade, eram crianças e certamente estavam jogando bola, ouvindo Backstreet Boys ou enjaulados no play de algum condomínio de luxo. Não se ligavam em escola de samba ainda. Do campeonato de 1998 muitos têm ainda alguma imagem na lembrança - por causa da força do símbolo Chico Buarque, homenageado pela Mangueira campeã daquele ano (que dividiu o título com a Beija-Flor). Sempre que tem niteroiense na sala, o auge da Viradouro - 1997 - é citado com orgulho.

Agora, exigir precisão daí para trás é judiar da turma. Mas eu lembro. Já estava envolvido profissionalmente com a festa, como jornalista, e não esqueço da Mocidade de 1996, do bi de Rosa na Imperatriz em 1995/1994, do Ita do Salgueiro em 1993, daí vai. Os anos 80 também tiro de cor, falo rapidinho se me perguntarem. Até os anos 70 eu me garanto. Quer saber 1977? Beija-Flor. E 1972? Império Serrano. Chega a década de 60, quando nasci, e aí a coisa já é meio embolada pra mim. Não consigo responder de primeira todas as campeãs. Tenho que pensar. Claro que existe a lembrança lá no cantinho da memória do Salgueiro de 1969, com a Bahia, e do Monteiro Lobato da Mangueira em 1967. Mas aí vêm os anos anteriores e teve título dividido entre cinco, escola que não existe mais sendo campeã... é... aí começo a depender dos livros, dos jornais, da pesquisa, da memória passada oficialmente.

Faça esse teste você mesmo. É divertido ver até onde nos lembramos. É legal também perceber como nos lembramos, por que nos lembramos, ou seja, o exercício mental que fazemos para que, em algum lugar no cérebro, marquemos um xis em Portela quando nos perguntam sobre 1970 e em Mocidade se o assunto é 1979. É por quê? Por causa dos enredos? São os enredos que vêm à mente primeiro? Ou seria por causa das namoradas que tínhamos em cada ano desses? Tipo: ah, naquele ano eu estava com Fulana e a gente desfilou juntos em 1973 e é por isso que eu lembro que foi a Mangueira que ganhou... Ou é por causa das vezes que vimos os desfiles ao vivo e aí jamais esquecemos? Ou por causa da casa em que morávamos na época?

Lembrar das coisas é uma delícia. Às vezes, chego a crer que a memória é o único bem que, na verdade, temos.


Até!


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