É, agora só no ano que vem... Foram quatro dias na Marquês de Sapucaí, assistindo, desfilando, encontrando amigos e conhecidos, saudando os que desfilavam e sendo saudada ao passar em desfile. Práticas e ritos de uma festa que é cultura, quase religião.
Comecemos pelo que é para a maioria o mais importante: o desfile do Grupo Especial. Dividido em dois dias, ele raramente é visto da única forma pelos olhos de uma mesma pessoa. Minha visão do desfile de domingo, em razão de minhas acomodações, foi bem diferente do de segunda, em que, em posição mais favorável, tive condições de formar opinião mais facilmente. Portanto, o que disser a respeito das escolas de domingo deve ser visto com reserva.
A Renascer teve minha solidariedade porque, sendo a mais frágil do grupo, a que acabou de subir, tem ainda contra ela o ônus de abrir o desfile. Enfrenta um público frio e tem menos tempo para os acabamentos e para arregimentar os componentes na concentração. Ainda assim, fez um desfile digno. O trabalho do carnavalesco Edson Pereira funcionou, principalmente no tocante a fantasias: a bateria e as baianas estavam muito bem vestidas. O intérprete Rogerinho teve um desempenho muito bom, na medida em que lhe permitiu um samba sem grande qualidade.

A Portela, que tinha a seu favor o melhor samba-enredo do ano, soube tirar partido disso e fez um desfile muito emocionado, além de correto. O conjunto de fantasias, muito colorido, agradou - como era de esperar num trabalho de Paulo Menezes - e a bateria vestida de afoxé era de emocionar. A porta-bandeira Lucinha estava muito bem caracterizada e sua figura dançando era impressionante. Mas a estrela do desfile foi mesmo a águia, símbolo da escola, em versão dourada, compatível com o barroco das igrejas da Bahia. Um luxo!

A Imperatriz Leopoldinense fez um desfile muito aquém das expectativas de seus admiradores. O samba-enredo arrastou, não foi cantado nem pelos componentes, o trabalho plástico também deixou a desejar e o desenvolvimento do enredo não ficou claro. A exceção foi a lindíssima ala das baianas, bem fantasiada e cheia de seu garbo habitual.

A Mocidade Independente saiu-se bem no desenvolvimento do enredo sobre Portinari, já abordado - e com louvor - por Paulo Barros no Paraíso do Tuiuti em 2003, na minha opinião seu melhor trabalho até hoje. O talentoso Alexandre Louzada não se intimidou e apresentou uma abordagem nova e muito interessante para o enredo. A famosa bateria fez uma grande apresentação, em que se destacou o naipe de frigideiras, que dava um molho especial ao conjunto.

Porto da Pedra fez o que pôde para sobreviver a um enredo equivocado e o carnavalesco Jaime Cesário foi guerreiro, pois pegou, como se diz, o bonde andando. Era um bonde desgovernado em direção ao precipício. Tragédia anunciada. O 4º carro, Iguarias do Imperador Chinês, era muito interessante e a Velha Guarda foi das mais bonitas que passaram na Avenida este ano.

Aí chegou a Beija-Flor, a mesma Beija-Flor que nos acostumamos a aplaudir e reverenciar. Com Manaus, Macapá, Araxá ou Maranhão, tudo parece igual, até o samba. Mas o fato é que desfilou muito bem, numa performance em tudo superior à do ano passado, quando foi campeã mais pela emoção.

Quando a Vila Isabel entrou na Avenida com a esplêndida comissão de frente concebida pelo craque Marcelo Misailidis, a gente achou que tinha valido a pena a noite até então meio morna. A Vila estava linda, alegre, animada, rica, original. Tudo de bom, para acompanhar um samba que veio crescendo no pré-carnaval e já ameaçava a unanimidade em torno do hino da Portela. O mestre-sala Julinho esteve particularmente inspirado e ele e Rute fizeram apresentação espetacular.

A segunda-feira já começou bem, com um desfile animado e divertido da São Clemente. O carnavalesco Fábio Ricardo provou que entendeu a escola, pegou o espírito da coisa, como se diz. Bonita, irreverente, alegre, com o samba na boca o tempo todo. Que mais a gente quer no carnaval? Confesso que a mulata de Lan, inflável, me proporcionou a melhor surpresa deste ano: quando a abaixaram para que não batesse na torre de televisão, o público delirou. Nada tinha de luxo, de imponência e pretensão, mas era carnaval!

Justamente irreverência, alegria, simplicidade eram características da União da Ilha, a segunda escola a desfilar. Mas o longo período que amargou no Inferno parece ter feito a Ilha perder a alegria. Percebendo a tendência do carnaval contemporâneo, ela amadureceu e ficou séria. Não por acaso, o único momento de irreverência e surpresa foi justamente quando Maria Augusta, a carnavalesca que lhe deu a alma que todos tanto amavam, contracenou com o gari Renato Sorriso naquela que foi a melhor comissão de frente deste carnaval. A Ilha tem um excelente carnavalesco, da nova safra de talentos: o jovem Alex de Souza. Tem um intérprete fantástico, Ito Melodia. E mostrou ter capacidade gerencial para se manter na chamada elite do samba. Acho que já daria para voltar a brincar um pouco...

Quando o Salgueiro entrou na Avenida, o que me veio à cabeça foi o grito de guerra de um puxador que hoje está inexplicavelmente fora do carnaval: Nego. Antes do samba, exortava os componentes com o brado Alô, povão, agora é sério! Vi logo no Salgueiro um rival à altura do desfile da Vila Isabel, na véspera. A escola estava simplesmente maravilhosa. Enredo bom, bom samba, trabalho plástico de primeira e componentes muito motivados. A comissão de frente era uma graça, tudo era leve e bonito, tudo fazia o componente feliz. O ponto alto para mim foi a bateria, com seu mestre fantasiado como os ritmistas, simples e despojado, porque quem tem liderança não precisa de pompa para se impor. Salve, Mestre Marcão!

Mangueira mais do que nunca foi Mangueira. Suprindo a parte técnica com um forte apelo emocional, chega arrasando tudo. De fato, ela nos deu duas boas surpresas: uma ala de baianinhas representando as quituteiras da Festa da Penha que foi a única fantasia tradicional de baiana que se viu no carnaval deste ano, com pano da costa, chinelinha e tabuleiro de quitutes na cabeça. Que saudade de uma baiana, gente! No entanto, no casal de mestre-sala e porta-bandeira, a tradição foi desprezada quando se representa o embate entre Cacique de Ramos e Bafo da Onça, idéia muito original, mas que trai a coreografia tradicional do par, de proteção e sedução e não de enfrentamento. Mas alegria mesmo foi ver Rosemary, fiel à sua escola, linda e muito animada, a musa no real sentido da palavra.

A grande expectativa que precedia o desfile da Unidos da Tijuca foi plenamente Justificada. A escola se saiu bem do aparente desafio, para o carnavalesco acusado de pouco ligado às raízes brasileiras, de um enredo sobre Luís Gonzaga. Paulo Barros passou no teste. Embora a comissão de frente, muito original, não tivesse muito a ver com o Rei do Baião, ele se redimiu inteiramente no carro 3: De barro se faz a vida. Era maravilhoso e precedido pela sensacional ala de bonecos de barro, com a qual fazia conjunto. Lindo demais. O casal Marquinhos e Giovanna também teve uma atuação perfeita, o que não é novidade em se tratando de veteranos de calibre.

Para encerrar o desfile do Grupo Especial, o desfile da Grande Rio ficou muito aquém do esperado: a comissão de frente era boba, mal amarrada ao enredo. O samba, que já não era bom, se tornou desesperador pela repetição. As fantasias eram sem criatividade e os carros uma sucessão de apelo emocional de que é melhor nem falar. Lamentável. Salvaram-se a bateria de Mestre Ciça e uma ala de passistas que foi para mim a melhor do ano, porque sambava com espontaneidade e alegria, o que é fundamental.

Não comentei aqui o resultado, do qual já tenho conhecimento agora. Estas são minhas impressões do que vi, independentemente do julgamento, que quase nunca coincide com o que acho.
Fotos: Riotur
Bruno Campos
Membro SRZD desde 09/02/2011
23/02/2012 15:12:05
Concordo com tudo! Ótima análise. Pirncipalmente quando se diz que a Comissão de Frente da Ilha foi a melhor do carnaval. Simplesmente fantástica.
Paulo Filho
Membro SRZD desde 20/02/2012
22/02/2012 22:52:19
Bela análise, outra que já traduz como foi patético o quinto lugar concedido à Grande Rio. Das grandes, foi a pior junto com a Imperatriz.




Comentários (3)