Desfiles 2012: Três Reflexões

Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 21/02/2012 20h40

O ano de 2012 marcou, a meu ver, não apenas a reinvenção do Sambódromo. Fundamentalmente essa obra da Passarela do Samba nos faz refletir também sobre novos rumos dessa arte descomunal que é produzida por gente simples e gente nobre, mas que encanta os quatro cantos da terra.

Antes de saudar as escolas campeãs ou comentar os desfiles (tarefa que desempenhei para o site, e vocês podem conferir também nos links: Beija-Flor, Vila e Portela se destacam no primeiro dia de desfiles e Unidos da Tijuca e Salgueiro se destacam no segundo dia de desfiles, vamos a algumas reflexões.

O samba retomou seu lugar e recuperou seu valor dentro dos desfiles. Prova disso foram os desfiles emocionantes e arrebatadores de Portela e Vila Isabel. Na força de um canto espontâneo, onde o quesito samba-enredo falou mais alto, essas escolas já entraram na avenida incendiando o público. O samba da Portela, em particular, é digno de um registro: mesmo em anos onde outros sambas foram também muito elogiados, raramente se viu uma unanimidade tão forte no carnaval carioca. Houve sambas que aconteceram na avenida, sambas que se consagraram na avenida. Mas um samba unânime como esse já é digno de antologia. Resultado que se confirmou no desfile.

Eis a primeira reflexão. Então podemos discutir sobre a real importância de se fugir das marchinhas, dos refrões de oba-oba, dos "bois-com-abóbora". A retomada de consciência sobre o valor de um bom poema musicado já foi um grande ganho neste carnaval. O que não significa que, em nome desse privilégio ao samba, se possa abandonar os demais quesitos. As escolas disputam todos os quesitos, e o samba fará com que todo o resto se erga. Mas é preciso que haja porte, realeza, elegância. O samba desce o morro, sim, mas não pode descer descalço: asfalto quente queima a sola do pé! E, no asfalto, o sambista é rei! Então o privilégio dado ao samba não pode, nunca, prescindir do traje ou dos elementos alegóricos. Lembremos de Paulo da Portela: ele se vestia de poesia e de elegância! Assim deve ser a escola de samba, também. Mesmo que sem luxo, mas com um mínimo de elegância.

Foto: Ary Delgado

A segunda reflexão é sobre o quesito enredo. Durante muito tempo os carnavalescos tiveram a pretensão de fazerem "sombra" às famosas "elucubrações" do mestre Joãosinho Trinta. Ao contrário do maranhense, que tinha por característica gerar enredos complexos, mas assiná-los com muita propriedade, a presunção de alguns criadores de enredo parece levá-los a enrolar a ala de compositores, confundir o componente e driblar jurado e plateia com coisas que ninguém entende. Fiasco! Mais uma vez a Sapucaí aclamou enredos simples, como Angola, Bahia e Luiz Gonzaga. Quando bem entendido, o desfile carrega a multidão.

O Grupo de Acesso, por exemplo, teve sofríveis exemplos de enredos que, por falta de alguma pesquisa interessante dos criadores ou mesmo por não terem nenhuma consistência, foram enxertados de histórias e coisas paralelas. Uma encheção de lingüiça com muita gordura, sobras, papelão e colesterol. Na fritura, o cheirinho até atrai. Mas a digestão fica difícil e depois vem uma bruta dor de barriga! Enredos de arremedo, sobretudo os que pretendem fazer homenagens nem sempre condizentes com a escola, viram pedra de tropeço. O mesmo para os enredos pretensiosos, que pegam temas simples e singelos e resolvem enxertá-los de histórias paralelas esdrúxulas, pesadas, grotescas. Este ano vimos essa fórmula bater na trave. Os melhores enredos inspiraram os melhores sambas. Mas vale ressaltar: não dá pra morrer no tema simples e achar que não precisa desenvolvê-lo com clareza e criatividade porque ele "já ficou claro".

Cuidado com isso!

E cuidado também com esse negócio de patrocínio! Um enredo com muito merchandising já entra na avenida com etiqueta de rejeição e antipatia do público. No bom jargão das redes sociais... "nem rola"!

A terceira reflexão é esta: escola de samba tem identidade. Sabem o que é isso? Uma escola de samba é... como posso dizer... "pessoa física"! O peso de sua história, a força de seu passado, suas conquistas e seu legado constituem uma envergadura pessoal, autoral. Uma assinatura. Este ano vimos algumas coisas que confirmaram e outras que tiveram conflito com essa questão. Com todo respeito a uma musa, o que a bela Luma tem a ver com a identidade do Velho Estácio? Roeu um osso, foi uma desarmonia total! O Estácio é uma raiz, não pode enveredar por esses caminhos. Por outro lado, que gloriosos os dois Impérios - o da Tijuca, emocionado com seu "orgulho de ser Tijucano" gritado no refrão; o Serrano alardeando a primeira dama do samba que nasceu na Serrinha, esbanjando graça e emoção na avenida. Vimos uma Portela abraçada com Clara Guerreira chorar e fazer chorar na avenida, uma Vila do Negro Rei Martinho exuberante com as cores africanas que tão bem combinam com a azul e branco do bairro de Noel. Irreverência? Teu nome é São Clemente: você faz isso como ninguém há 50 anos! A Tijuca com suas revoluções "paulobarreanas"... é isso aí! O primeiro passo para um bom desfile é entender e reforçar a alma e a identidade da escola.

Caros amigos de todas as agremiações, parabenizo e saúdo a todos. Tenho a modéstia de reconhecer que, mesmo estudando carnaval há mais de 20 anos, sou um aprendiz. Um admirador. Um menino de 40, que ainda está longe de ser um "menino de 47" como o Império Serrano!

Nunca pensem que minhas opiniões são sentenças ou acintes, ofensas ou desrespeito. Tudo que faço ou escrevo, aqui ou na editoria de esportes, é para uma proposta de reflexão. Quem reflete, cresce! Aposto sempre nisso!

Peço sinceras desculpas se algum comentário ou análise destoou dos leitores ou, de alguma forma, pareceu desmerecer alguém. Procuro a sinceridade, a isenção. E acreditem: eu queria sempre elogiar muito tudo o que vejo!

Falar mal de escola de samba é muito... muuuuito duro e difícil!

Nossa equipe, brilhante, escolheu os melhores para o TROFÉU SRZD-CARNAVAL. Fui voto vencido em algumas coisas (melhor escola, por exemplo, já que votei na Unidos da Tijuca, ficando em dúvida também entre Vila e Portela). Mas respeitei e assinei com eles o tratado!

Agradeço o carinho dos que me procuraram no sambódromo para elogiar nosso trabalho no site. Eu admiro essa arte, sobretudo por ser feita pelas mãos negras e cansadas de nossos operários do samba, gente linda que reina soberana na vida mas só é vista na folia. Escola de samba é paixão e verdade!

E meus respeitos aos bombeiros e maqueiros do Sambódromo, que me acolheram e me deram guarida na cobertura de pista! Amigos que fazem seu belo trabalho e sabem ser cavalheiros o tempo todo! Major Alex, Frank Noronha e toda aquela turma bacana... dez, nota dez!!!

Beijos a todos! Continuo postando!

E, depois dessa tristeza que foi a apuração de São Paulo termino com uma oração:

"Deus, Senhor Deus... paz no Rio de Janeiro e em todo o Brasil!"

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Comentários (11)

Marcelo Melo

Membro SRZD desde 26/02/2012

26/02/2012 11:50:01

Excelentes reflexões...parabéns!

Hélio Ricardo Rainho

Membro SRZD desde 26/01/2010

25/02/2012 18:22:10

Agradeço a todos pelo carinho das mensagens. Quanto à dúvida do leitor José Carlos de Jesus, o enredo da Portela foi claro e o samba também: a Portela chega à Bahia e sua musa eterna, Clara Nunes, pede passagem ao Senhor do Bonfim para entrar. De todo jeito nenhum enredo da Portela precisa de desculpa ou justificativa para citar ou apresentar Clara Nunes: ela é eterna na memória dos portelenses, estará sempre adequada e adaptada a qualquer enredo!

jose carlos de jesus

Membro SRZD desde 22/09/2011

24/02/2012 16:40:05

Na minha humildade,eu queria que alguém me explicasse por favor, Clara Nunes nasceu em Minas Gerais,e o samba da Portela,só fala da Bahia?

Renê Augusto Ramos Cavalheiro

Membro SRZD desde 24/02/2012

24/02/2012 01:34:57

Amigo , não dá pra entender o rumo que os desfiles do grupo especial vem tomando, principalmente do ano 2000 ate hoje. Vejamos alguns aspectos: 1 teatro popular é uma coisa, escola de samba é outra coisa 2 Nem mestre sala samba mais,como tambem todos os desfilantes. Porque será ? 3 Sambas enredos construídos por inumeros parceiros, só pode acabar em marchinhas 4 Enredo encomendado ou não é enredo,porem a preocupação dos carnavalescos de não repetir o que ja foi feito corretamente anteriormente causa problemas paras as escolas 5 Ja vimos nos desfiles, homem voando, pista de gelo,alegoria humana sem fantasia (DNA), homem mola ,piscina com tubarão, etc. 6 Musa ou rainha deveriam vir na frente da escola junto da diretoria que não tem nada a ver com o enredo 6 Se é escola de samba , os alunos são somente os componentes das baterias,mais ninguem 7 A grandiosidade alcançadas nos desfiles, deve-se e muito aos patronos , jamais a politicos profissionais ou de ocasião 8 Quem realmemte entende de escola de samba apresenta resultados diferente dos julgadores oficiais . Porque sera? 9 Sou Cubango de coração, e estou cançado de ver as escolas de Niteroi serem prejudicadas 10 A Vila Isabel brincou de desfilar e a Mangueira cantou, sambou, bateu, parou de bater voltou a bater, e os entendidos não deram valor a nada disso. Vamos mudar o nome desse espetaculo em vez de ser Desfile das escolas de samba, vamos chamar de Opera Popular, Circo Cantado, Teatro na Avenida etc Boas reflexões, mas poderiam ser mais aprofundadas e menos metaforicas . Abraços a todos

Alsan Matos

Membro SRZD desde 08/04/2009

23/02/2012 17:52:35

Boa análise. Parabéns.

ALBERTO FORT

Membro SRZD desde 17/09/2011

22/02/2012 18:25:17

todos nós sabíamos que este enredo era arriscado, mas os olhos da cobiça não se conteram e agora taí o resultado negativo de um escolha desagradável o pior foi ver o resulatdo dos julgadores que deram notas do enredo maiores que a do samba enredo sinal que o samba estava mais complicado. o povo de são gonçalo agradece ao Bocão da V.isabel o Claudio russo da renascer ao Fábio Costa com suas artemanhas de se envolver em tudo quanto é escola e os compositores da P.da Pedra que assinaram o samba tiveram a infelicidade de terem seus nomes caíndo sem tirar uma nota positiva, aprendam a fazer samba e deixem de conmprar é fácil e mais valoroso ao próprio poeta que coloca a cabeça no travesseiro tranquilo pra dormir. ficou feiaço na foto essa parceiria campeã do tigre. agora levem um samba bom e que a comunidade venha abraçar até por que teve samba só que levaram este ruím. vejo vocês no acesso em 2013! fui!!!!!!!!!!!!

William Ferreira

Membro SRZD desde 23/05/2010

22/02/2012 11:10:34

Muito bom! Na minha simples compreensão sobre desfiles, sou um fanático desde 1976 também comento coisas que não costumam agradar, porque o coração de quem ouve ou lê fala mais alto. Crítico a minha escola de coração, então por quê não as demais? Consigo ser bem imparcial quanto as avaliações e tenho minhas convicções independente da opinião pública. Soltei o verbo nos desfiles do grupo de acesso A do ano anterior e senti uma leve melhora este ano, assim como questiono Portela e meu Império por pautar seus desfiles apenas no samba-enredo e deixar o retante um pouco de lado, deve haver alguma razão? Quanto a verba, certo o prefeito, mas ainda acho que deveria haver uma cobrança maior afinal a grana dos desfiles sai dos cofres públicos também.

MARCELO ALVES

Membro SRZD desde 07/04/2009

22/02/2012 03:05:27

Vejo surgir, nos meus 28 anos de carnaval, por sua simplicidade e transparências, mais um que brilhará no mundo do samba. Guardarei o Rainho. Quem sabe Hélio Rainha (bem carnavalesco)? Realmente, o Carnaval das reflexões - vejam a afirmação do Prefeito sobre a São Clemente. Parabéns!

Manoel

Membro SRZD desde 26/01/2012

21/02/2012 22:40:45

Também agradeço pelo texto, tem um pouco de tudo aquilo que a gente pensa e sente, ressalta ainda, uma coisa que é tão boa no carnaval, que é a espontaneidade, coisas que vimos em desfiles como os da Portela, Vila, São Clemente, Mangueira. Nos fazem perceber que nem tudo está perdido no carnaval, e que carnaval tem que ser bonito, com suas fantasias, alegorias, mas que não pode perder nunca a emoção, vista em momentos, como o choro da rainha Sheron, o próprio desfile da Portela, a paradona(como alguns disseram) da bateria da Mangueira, que bom que isso existe no carnaval, que bom!

Bruno da Ilha

Membro SRZD desde 21/02/2012

21/02/2012 21:27:08

Muito bacana seu texto,concordo com tudo que disse.

Torcedor Pilarense

Membro SRZD desde 05/07/2011

21/02/2012 21:10:51

Parabéns, Hélio Ricardo, pelo texto. É isso aí: "Quem reflete, cresce!". Abraço!