O Estranho Caso Bernardo

Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho | 16/02/2012 19h07

Bernardo é um jogador polêmico. Ousado na postura dentro de campo, arisco nas jogadas, vibrante no contato com a torcida, intenso na carreira, arrojado no visual. Por onde passou, colecionou polêmicas e despertou emoções. É um pequeno furacão que, no Vasco, criou forte empatia e vínculo, fundindo-se imediatamente à camisa e entrando para a galeria de xodós do clube

Em meu hábito de conversar com leitores nas redes sociais, uma luz me parece ter acendido nessa polemica que envolve sua atitude contra o Vasco, requerendo direitos na justiça, acionando silenciosamente o clube. O leitor Cláudio Lima criticou a situação sob o prisma de uma suposta intervenção do Fluminense na jogada.

Parece mesmo fazer sentido. Bernardo parece ter sido instigado. Mais do que isso... "bem" orientado.

Sozinho, um jogador de sua idade, de sua índole, não teria tomado decisão tão assertiva e súbita. Por si só, não teria erguido a cabeça a fazer algo tão tempestuoso sem pensar em consequências e efeitos morais e profissionais de tal ato. Estando em situação semelhante à de tantos outros, não embrenharia sozinho o caminho do litígio com o clube, sem ter nenhum outro atleta (e o grupo tem outros bem mais experientes e consolidados profissionalmente do que ele) a acompanhá-lo e a pensar igual.

Bernardo foi manipulado. Eu diria até... ludibriado!

Porque aconselhar um jovem jogador a dar um tiro certeiro em seu próprio pé no momento mais ascensor de sua carreira, no ano mais importante da decolada rumo à Copa do Mundo no Brasil, em plena disputa de uma Libertadores, seria abusar de uma certa ingenuidade gerada por sua instabilidade emocional. Não haveria de ser essa a decisão tomada por um menino que em tantos outros momentos primou pela fragilidade, pelas lágrimas, por atitudes de insegurança e fraqueza emocional.

A menos que alguém lhe tivesse oferecido muita coisa, muita securidade, muitas garantias, muita estabilidade. Uma orientação clara e seria, baseada num apoio jurídico (e sabemos que o Vasco é fraquíssimo nisso) que o deixasse certo de poder erguer o pescoço e empinar o nariz com arrogância... "vai lá, cara... mete bronca que a gente te garante tudo!".

Bernardo não colocaria seu emprego em risco se já não tivesse, por debaixo dos panos, uma garantia de já ser novamente contratado, de ter um salário até aumentado, e continuar na disputa da Libertadores e em evidencia no futebol brasileiro.

Não tenho duvidas de que, sob essa suspeita, Bernardo foi orientado por alguém desejoso de contratá-lo.

Como se sabe, a empresa de saúde que financia o Fluminense vem dando aulas de intromissividade e baixa ética nos negócios do clube. Basta ao leitor lembrar-se dos casos envolvendo as contratações de jogadores como Leandro Amaral, Alex Dias e, mais recentemente, Thiago Neves.

Que não se firam aqui seus abnegados torcedores para que a discussão ética não se transforme numa picuinha de boteco entre dois clubes, porque isso não me interessa. Passei da idade disso! O fato é que deve-se estranhar - e muito - que uma empresa envolvida em uma disputa política interna onde a oposição a acusa de um rombo de 80 milhões numa divida com médicos cooperados, tenha contratado tantos atletas a preço alto (muitos deles desnecessários, reforçando exageradamente posições onde se acumulam jogaores renomados). É como se ostentasse uma coleção de "troféus vivos". Ou como se negociasse personagens muito caros para, no final das contas, nem ter o retorno esperado em títulos e resultados que efetivamente lhes têm escapado pelos fundilhos.

Que retorno tem dado esse tipo de investimento?

Pois foi exatamente em cima do caso Bernardo que a imprensa já começou a soltar algumas fagulhas de que o incêndio pode estar acontecendo às vésperas do jogador conseguir sua rescisão na Justiça e ser anunciado como novo reforço do tricolor das Laranjeiras.

Estranho, muito estranho.

Sendo tudo verdade, estranho o jogador aceitar esse tipo de conselho e se deixar levar pela sedução fácil das raposas da vez.

Sendo tudo verdade, estranho o Fluminense brigar tanto por um jogador que ainda não se firmou, não é titular e, ainda por cima, joga em uma posição onde o clube não tem nenhuma necessidade de se reforçar neste momento.

Sendo tudo verdade, estranho a empresa patrocinadora mais uma vez dispor de uma grana tão alta, como se já tivesse a certeza do investimento certo: pagar X hoje e lucrar 10X amanhã com a revenda.

E mais uma vez as viúvas de Rodrigo Caetano serão obrigadas a lembrar que coisas nebulosas aconteceram com o elenco vascaíno depois de sua saída.

Ainda bem que, dentro de campo, os jogadores vascaínos têm demonstrado que mais vale estarem fechados com o Vasco do que com os dirigentes, os patrocinadores ou os empresários da hora. A tradição do Vasco é esta: não precisar comprar o juízo nem a ética de ninguém pra ser o único carioca tricampeão sul-americano. É pela tradição, pela vocação e pelo amor à bandeira, perfeitamente entendidos por seu elenco, que a reivindicação de direitos não elimina a dedicação e a entrega durante as partidas.

A propósito, deve ser isso que diferencia um clube de futebol de uma empresa comerciária disfarçada sob a fachada de clube.

Aguardemos o desenrolar dos fatos. Porque, se esse Bernardo for o Bernardo que a gente conhece, ele não é lá de sustentar personagens por muito tempo. Para o bem ou para o mal, não tarda ele revelar, de próprio punho, o que realmente aconteceu.

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Comentários (9)

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Roberto Freitas

20/02/2012 23:59:45

(CONTINUAÇÃO) Para Bernardo, um conselho: aproxime-se de pessoas experientes e amigas de seu meio, que não tenham interesse em ganhar dinheiro às suas custas, mesmo que isso possa te custar a carreira. Se voce continuar achando que está fazendo o certo, vá em frente e defenda sua opnião. Mas, se voce entender que cometeu um erro, não tenha medo em admitir. Voce, apesar de um menino, já passou por momento muito mais difícil que este recentemente. Se achar que errou, volte atrás e reconstrua. Se assim for, mostre que merece aquela camisa novamentre. Não tenha dúvidas que terá carinho e, com trabalho e esforço, logo estará esmurrando a cruz de malta contra o peito novamente. Felicidade.

Roberto Freitas

20/02/2012 23:48:39

Não tenho dúvidas de que o bernardo foi manipulado. É sem dúvida um direito dele reclamar seus direitos trabalhistas e contratuais, e eu o apóio nisto. Mas em td na vida tem que haver bom senso. Porque alguém em seu melhor momento profissional, com o carinho que ele recebia da torcida e com perspectivas enormes de se tornar ídolo de um um clube com história tão linda, sendo trabalhado de maneira gradual e consistente, e tendo recebido inúmeras provas disso, e em quem o clube investiu até sem ter o lastro ideal para isso, e como já disse o helio ricardo, em um ano em que o vasco começa bem, tem condições de disputar diversos títulos de importância, entre eles a libertadores, e um ano super importante, até porque começa a reta final da preparação para a copa do mundo, porque tomaria uma decisão dessas ? Não teria lógica. Já vimos craques jogarem a carreira fora por comportamentos semelhantes. Um garoto ainda, que tinha seu nome gritado pela torcida, que batia no peito e beijava a camisa com orgulho quando fazia um gol, por quem a própria torcida teve até a infelicidade de se voltar, ainda bem que por apenas um momento, espero, contra o seu treinador que tem feito um bom trabalho. Tenho certeza que um mes de atraso, embora errado, não é novidade por estas terras. Nada que uma conversa responsável não resolvesse sem que ele perdesse tanto. Na minha modesta opnião, acho que os dirigentes do vasco e a grande torcida vascaína, principalmente esta, deve considerar tudo isso, e que todo mundo erra, e não esquecer que ele é um garoto que alguém está tentando fazer de fantoche com certeza para encher o próprio bolso. Para Bernardo, um conselho: aproxime-se de pessoas experientes e amigas de seu meio, que não tenham interesse em ganhar dinheiro às suas custas, mesmo que isso possa te custar a carreira. Se voce continuar achando que está fazendo o certo, vá em frente e defenda sua opnião. Mas, se voce entender que cometeu um erro, nÃ

Ricardo Medeiros

17/02/2012 23:21:33

Muito pertinente esse comentário! Creio que todo mistério está aí!

luiz paulo araujo

17/02/2012 19:35:42

todos no mundo dos negocios sabem que o celso de barros , presidente da unimed e um grnde bandido > podndo ser ate visto nas ruas de Paris com prostitutas brasileiras gastando o dinheiro ilicito que ganha no futebol>

Antonio

17/02/2012 16:36:16

Não confio mais nele. O Vasco tem que dar um jeito de virar o jogo, e depois se livrar do judas...

jorge g de paula

17/02/2012 13:03:07

Helio uma frase resume o que está ocorrendo," Não acredito em bruxas, mas que existem , existem". Pois bem, em termos de patrimônio espero que o Vasco acerte com o Bernardo e em seguida se livre do mesmo. Pois para readquirirmos a confiança no jogador., o mesmo terá que fazer muito mais do que tem feito nos últimos jogos. Finalmente gostaria de lembrar o seguinte: Até dezembro/2011 não soube de nenhuma atitude do jogador reclamando de salários, luvas, etc., será que tudo foi bem escondido pela Diretoria. O que será que houve??? Queimar dinheiro do clube, fixar sem fluxo de caixa. Esse pessoal não tem responsabilidade, faltou honestidade de se pronunciar e informar a torcida o que estava ocorrendo. Enfim Bernardo e a Diretoria se merecem, mas nós torcedores do Vasco da Gama temos que constantemente passar por humilhações. O caso Wendel não foi a gota d'agua. Helio e demais torcedores só nos resta torcer para que os "deuses" do futebol pelo ou menos nos premiem com a Taça Guanabara.

RAQUEL OLIVEIRA

17/02/2012 01:47:10

Hélio te adoro e concordo com tudo que você escreveu, só nos resta, então, esperar...

Hélio Ricardo Rainho

16/02/2012 21:46:30

Nada se pode afirmar, mas o comentário refere-se a uma especulação que - incômoda - andou rondando a imprensa. Nada seria surpresa. Mas uma questão é unânime: esse garoto, sendo ou não ingênuo, não maquinou isso sozinho. E já deve, inclusive, estar arrependido. Ainda que não tenha caminhos para voltar atrás.

Maurício Milhazes de Castro

16/02/2012 21:00:59

Muito boa opinião apresentada claramente em seu texto, Hélio Ricardo!