Hoje vou me aventurar numa seara que normalmente não é a minha. Certa feita fui convidado para integrar uma equipe de esportes, mas vi que não daria certo quando ao fazer um jogo, lamentei no ar a expulsão do jogador do meu time. Preferi participar da resenha de todas as segundas na redação. Sou completamente apaixonado pelo tema, mudo de humor na derrota do meu time, e demoro a dormir quando meu time joga às quartas-feiras.
Dentro deste espírito, foi muito bom ver integralmente a final da Copa de 58. O mito construído é que a Suécia fez 1 a 0 por acidente e que depois foi um massacre.. Não foi bem assim, os suecos abriram o marcador e poderiam ter ampliado.
Ávido, queria ver, nesta ordem, Garrincha, Didi e Pelé. No fim do jogo emergiu um sentimento de alívio e orgulho de Vavá integrar o "esquadrão de ouro". Jogador moderno, se movimentava, encarava os suecos e fez os dois gols que colocaram o trem nos trilhos.
Garrincha não ganhou todas as jogadas do adversário. Não cabia no mito que o João nem sempre era João. Garrincha não era perfeito em campo e poderia ter dado alguns passes em vez de ser individualista. Quando assisti a partida, ele ganhou dimensão humana e acabou o processo de conquista que havia começado na leitura do indispensável "Estrela Solitária", de Ruy Castro.
Como sou da época do futebol de resultados, vamos aos fatos. Ele passou como quis pelos adversários em pelo menos três oportunidades. Em duas delas Vavá completou o cruzamento e colocou o expresso nos trilhos. Por muito menos o Flamengo lamenta a saída do Marcinho.
Didi não fez nada de especial no jogo. Estranhamente, ele não errou passes. A bola saía dele e parava num lugar que não estava ninguém. Um segundo depois aparecia um pé brasileiro. Ele sabia que o companheiro ia estar naquele lugar antes do cérebro do outro fazer a sinapse. Imponente buscou a bola depois do primeiro gol e mostrou aos suecos que eles poderiam vencer, mas lutariam com um time de muita oportunidade. Sinceramente, tive a impressão que Didi escravizava o ritmo do jogo, quase que indolentemente.
Pelé era um moleque franzino, que perdeu muitos lances na disputa com os fortes zagueiros suecos. Chegou a dar um chute que saiu pela lateral. Pedra bruta que mostrou no que daria a lapidação no momento do terceiro gol. Ele deu um lençol no adversário e fugiu du a falta. A fuga foi intuitiva ou racional. Aposto no raciocínio, ele sabia o que o adversário faria, evitou a pancada e assinou a pintura.
Eles não eram perfeitos, erravam passes, faziam faltas e tinham adversários. Ao vê-los, em ação durante 90 minutos os coloquei no meu Olimpo particular. Obrigado tecnologia, finalmente vi Garrincha driblar, Didi desfilar e Pelé ser genial. O tempo era outro e o esporte mais lento. No entanto o que eles faziam era sublime. Agora sei disso não preciso mais de críticos saudosistas. Artur Xexéo escreveu algo como alguns filmes brasileiros que consagramos não passariam incólumes por uma sessão no Canal Brasil. Temi que acontecesse isso com a final de 58. Felizmente, o temor não se confirmou.
Agora só falta conseguir ver um jogo do Zizinho, aí vou me dar por satisfeito. Aliás, Zizinho será o tema da próxima coluna.
Até a próxima.
Ouça trechos da narração no endereço:
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