| E que vençam os melhores! As escolas entram agora em seu segundo momento, enredos escolhidos, sinopse nas mãos dos compositores e começam a nascer versos, rimas e melodias, estruturas melódicas diversas e variadas na busca de ver seu samba como o hino da escola. Essa é uma fase que me agrada bastante num projeto de carnaval. Algumas escolas chegarão a 70 ou 80 sambas, outras não passarão de uma dúzia deles. O importante é que teremos as escolhas dos sambas para 2009. Como carnavalesco e como diretor de carnaval tive a oportunidade de participar, como julgador, de mais de 3 dezenas de escolhas de sambas e gostaria de compartilhar com os amigos essa minha experiência em escolher sambas-enredo. A coisa toda começa na entrega da sinopse. Aqueles sorrisos largos e otimistas dos compositores te recebem como um rei, abraços e mais abraços e cumprimentos fazem prever uma tranqüila e agradável escolha de samba-enredo. Mas a coisa vai mudar... Em breve os sorrisos se tornarão cada vez mais raros, os abraços serão tímidos ou inexistentes. Aparecerão as caras feias, os rostos fechados dos compositores que olharam seu samba ser eliminado do processo. E aqueles amigos do inicio do concurso vão desaparecendo com os cortes dos sambas. E vão desaparecendo da escola também. Alguns estarão de volta em um mês, mas a maioria você só verá no dia do desfile e ainda reclamando do samba vencedor. Alguns compositores nessa fase de corte até evitam falar com os membros da comissão de escolha do samba. Até mesmo nós da comissão preferimos apenas um cumprimento sóbrio e rápido, já que um cumprimento mais afetuoso pode se tornar o papo predileto dos outros concorrentes. Os demais compositores podem ver nisso, e com certeza imaginarão, uma possível armação. Para quem não está muito envolvido na escolha de um samba-enredo imagina um momento de paz, tranqüilidade e harmonia, onde todos os segmentos da escola se irmanam na busca do melhor samba. A coisa vai muito além disso. Muitas vezes um compositor mais simpático, mas com um sambinha fraco consegue o apoio de alguns segmentos da escola. E esse segmento tenta te convencer das qualidades daquele samba bom de corte. E você nem pode questionar o gosto daquele componente, esse comentário chegará ao compositor. Muitas vezes um samba pra lá de mediano sempre se classifica e está quase chegando na final ultrapassando sambas bem melhores que o dele. Saibam que o diretor tesoureiro adora esse samba, na verdade, o que ele adora são as centenas de cervejas e pratos de salgados consumidos pelo comprositor (não errei não, ele não compõe, ele compra tiques de cerveja, tiques de batidas, CDs para quase toda a escola, adereços para a torcida e vai por aí). É claro que esse samba pode até chegar a final, mas será apenas um boi de corte, um convidado endinheirado que serviu apenas para engordar a receita da escola até o último momento. Nos grupos de acesso onde o dinheiro é muito escasso essa prática é muito normal. Nas riquinhas do Especial isso, atualmente, é muito raro acontecer, mas ainda acontece. Por isso não tentem classificar os sambas, na medida em que eles caem. Essa ordenação, certamente, será errônea. Uma outra coisa que a gente percebe num concurso de sambas-enredo é que quanto mais sambas apresentados, mais sambas ruins a gente precisa escutar. De um modo geral a metade dos sambas apresentados são muito fracos. Não me queiram mal, meus colegas compositores, assim como o Eugênio e o Lula Branco Martins também arrisco uns versinhos, mas essa é a verdade. Raramente numa disputa de samba-enredo, a coisa vai além de dois ou três sambas com reais possibilidades de vitória. Os demais são bois com abóbora, alguns até bem temperados, mas sem nenhuma chance de vitória. Nisso tudo, uma coisa é certa. Já vi escolhas erradas de sambas, já vi sambas excelentes serem cortados antecipadamente por razões pessoais e descabidas. Já vi sambas caírem e retornarem. Já vi de tudo um pouco nas seleções dos sambas-enredo e vejo com muito otimismo a seriedade com que as escolas tem encarado suas escolhas.
Um abraço |