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Enternecer apesar das facas

Soares Júnior | Soares Júnior | 31/07/2008 15:00:00

Ouvi uma frase tão lírica que tive vontade de dividir com aqueles que me dão o privilégio da leitura. A sentença é a seguinte "isso é tão velho que é do tempo que meu avô era em preto-e-branco". Aproveitei e pensei no que era preto-e-branco na minha vida.

Na minha galeria vieram a bola branca e gomos pretos com os nomes dos tricampeões do mundo, a meia branca e o kichute preto do uniforme da escola. Além disso, tinha a Paula Saldanha, no Globinho, o Vila Sésamo, com Armando Bogus e Sônia Braga, e a novela Estúpido Cupido. Ah, essa ficava colorida fase final, mas a TV lá de casa era preto-e-branco, então não adiantou nada. Achei essa frase cheia de ternura e pena que a gente esteja cada vez mais em dívida com esse sentimento.

Ao chegar à redação naquele dia encontrei o repórter da madrugada desolado. Bandidos haviam assaltado uma mulher e duas crianças. Os homens levaram o carro e a mãe não teve tempo de soltar o filho mais novo. Os monstros arrastaram a criança.

Terrível, segundo as palavras do repórter a cena era inacreditável. A história iria crescer e junto da indignação veio o cuidado para que a firmeza jornalística não desse lugar a sensacionalismo. Deveríamos relatar o que vimos, no entanto a descrição com detalhes sórdidos seria evitada.

João Hélio não teve tempo de fazer uma retrospectiva do que era preto-e-branco na sua vida. Não teve tempo de aprender o que era retrospctiva, tinha 6 anos. E o que falar de João Roberto, morto numa barbárie com apenas 3 anos. Monstruosidade cometida por quem deveria proteger. É a tal da falta de ternura? Não, é pior, é a falta de esperança no ser humano.

E por vezes no mais profundo da dor, um personagem fala algo simples, este foi o caso do pai de João Roberto. A frase foi na justa medida do que a gente pensa: "polícia não é para matar".

A simplicidade deste sentença me lembra a frase do começo, "do tempo que meu avô era preto-e-branco". O autor da frase é o meu filho, que não é João, mas tem nome de santo também. O rapaz ainda não teve tempo de se contaminar pela "desternura" (ok, inventei essa palavra, mas um ministro inventou imexível).

Como canta Mônica Salmaso "história de criança tem que ter final feliz".

Acompanhe a entrevista com a repórter Silvana Maciel que acompanhou as tragédias dos dois meninos chamados João.


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Postado por:Laura Machado | 31/07/2008 23:22:17

Soares, é...mais uma vez se comprova a importancia dos personagens nas matérias, se no texto anterior vc mostrou como eles traduzem os números nas reportagens de economia neste mostra como podem transmitir a emoção. Estava ouvindo rádio no momento em que o pai do João Roberto soube da morte do filho as palavras dele refletiram todo o sentimento da sociedade desamparada. Outra "sonora" que lembro é a mãe do João falando numa entrevista que não perdoria as autoridades... Triste é q não foram 2 Joões, mas mtos outros morreram vitimas da violência e como suas mortes não ganharam tanto destaque pela brutalidade acabaram virando apenas estatisticas... Espero q os pequenos cariocas possam ainda ter seus finais felizes e que suas recordações coloridas não sejam machadas de vermelho sangue... Aguardo o próximo..Bjs

Soares Junior

Jornalista desde 1996. Depois de passagens pela TV Bandeirantes e Rádio Tupi ingressou na rádio CBN. Durante os 9 anos no Sistema Globo de Rádio, ele apresentou e redigiu O Globo no Ar, fez cobertura aérea de trânsito, ancorou e foi chefe de reportagem. Soares Júnior é professor da PUC e da Escola de Rádio.