A Igreja não é o Reino de Deus
Sérgio Albuquerque * | Fé | 31/07/2008 08:14

Olhar para Jesus de Nazaré é deparar-se com a sua total entrega no anúncio do Reino de Deus. O Reino constitui o centro de toda a vida de Jesus. Também é verdade que a noção de Reino já é parte de uma longa tradição judaica, entretanto, a novidade anunciada por Jesus está no fato de que o ele já está presente e atuante na história da humanidade, mesmo que ainda não tenha se manifestado plenamente. Contudo, a manifestação do Reino pode ser apreendida nas opções, nas palavras e mesmo na morte de Jesus. Um Reino que atua através da construção de uma nova realidade onde o mal e a injustiça são vencidos mediante a vivência da solidariedade e da paz. De forma incontestável, Jesus viveu isso de maneira radical no convívio com pobres, leprosos, prostitutas... Apontando-os como preferenciais destinatários do Reino.
O Concílio Vaticano II afirma que a Igreja "recebe a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus em todos os povos" (Lumen Gentiun 5). Buscando superar o "eclesiocêntrismo" que durante séculos a desfigurou, a Igreja propõe-se a "abraçar com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu fundador pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo". (Lumen Gentium 8). Assim, depois de séculos de enclausuramento, abre-se à realidade do mundo com todos os seus questionamentos. Novas perspectivas emergem dos documentos do Concílio, trazendo consigo a possibilidade de uma profunda renovação na linguagem e na consciência eclesial no que abrange a sua missão de proclamadora do Reino.
Porém, no interior da Igreja é visível um movimento de ruptura em relação a aspectos apontados pelo Concílio como características próprias da comunidade cristã. Assim, desenvolve-se no seio eclesial uma forte tendência ao retorno do clericalismo e a um anúncio alicerçado no proselitismo. Uma súbita saudade da cristandade medieval impulsiona o retrocesso no diálogo com a sociedade e uma pretensa defesa da ortodoxia cristã, tornando o ambiente eclesial um local marcado pelo receio do diferente e do novo. O Reino volta a ser identificado com uma esperança futura e "supraceleste" que não toca a realidade humana e a salvação só alcançada mediante o cumprimento de determinadas normas rituais. A reflexão sobre a atuação social torna-se assunto proibido, a preocupação gira em torno do universo religioso...
Mas, mesmo diante cenário, o Reino segue questionando a Igreja a uma profunda conversão. Não a permitindo permanecer indiferente diante da situação dos excluídos da sociedade. De fato, a Igreja não é enviada só para proclamar o Reino, mas também deve realizar sinais e opções que o manifestem no seio do mundo. Um anúncio marcado pela abstração alienante não conseguirá ser fiel a sua missão. O Reino é baseado no amor e na justiça, na participação de todos no mundo criado por Deus para todos. Extrapola as paredes das sacristias, mesmo que estas estejam a seu serviço.
Neste movimento de anúncio e realização a Igreja deve identificar-se realmente com a situação dos pobres e dos marginalizados (Gaudiun et Spes 1), empenhando-se em devolver-lhes a dignidade de Filhos de Deus, através da denúncia das "estruturas de morte" que obstaculizam a realização do Reino em nosso meio, condenando milhões de pessoas a condições de vida sub-humanas.
* Tutor do Curso de Teologia à Distância da PUC-Rio e assessor de pastoral.
Postado por:Felipe Aquino | 31/07/2008 16:51:53
Discordo que se separe a Igreja do Reino de Deus, o autor deixou de dizer (de propósito?) que a Lumen Gentium afirma que a Igreja tem ?a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes o Reino de Cristo e de Deus, e constitui ela própria na terra o germe e o início deste Reino? (LG ,5). Ora, se ela é o "germe" do Reino, não pode haver Reino sem Igreja; não há árvore sem a semente. Alem do mais diz a LG que a Igreja é o ?Sacramento universal da salvação?. O Papa Paulo VI, cujo amor à Igreja era imenso, assim se referiu a ela: ?A Igreja! Ela é nosso amor constante, nossa solicitude primordial, nosso pensamento fixo! ... Não se ama a Cristo se não se ama a Igreja; e não amamos a Igreja se não a amamos como a amou o Senhor: ?Amou a Igreja e por ela se entregou? (Ef 5,25)".
































