| Chaguismo versão 2008 Em 27 de fevereiro de 1980, a revista Veja publicou uma matéria com o título "Samba de uma nota só" No subtítulo: "Um carnaval com três vencedoras. A Riotur, o bicho e a política conseguiram o impossível: um desfile de escolas de samba sem perdedoras".
A Beija-Flor, a Portela e a Imperatriz Leopoldinense empataram em primeiro lugar. E três escolas dividiram o segundo lugar: Vila Isabel, União da Ilha e Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas, de todas, a que mais festejava era a Unidos de São Carlos, com o último lugar. O motivo? Bem, esta não era protegida por bicheiro, mas pelo então deputado Miro Teixeira, herdeiro presumível do governador Chagas Freitas, jornalista e político brasileiro. Após chegar ao governo do Estado, seu nome deu origem a uma fase política chamada chaguismo - uma forma particular de utilizar a máquina pública estatal para vencer as eleições por meio de acordos políticos e apoio às lideranças locais. Com isso, Miro Teixeira conseguiu a anistia da agremiação, ou seja, não foi rebaixada como deveria.
Segundo Veja, Miro Teixeira, tinha um fraco pela Unidos de São Carlos, mas cuidava de todas. Passava a noite, a madrugada e a manhã de segunda para terça, depois do desfile de domingo, assistindo à exibição do grupo da segunda divisão das escolas, na época chamado de Grupo 2. Aplaudia, em local visível, todas as agremiações e beijava todas as bandeiras das escolas, hábito que foi inaugurado por Negrão de Lima em 1969, quando beijou o pendão verde-e-rosa da Mangueira. Essa rotina rendera a Miro Teixeira dois títulos: o de deputado mais votado do país, mas também o de campeão de beijos, claro.
Estamos agora em 2008. Será que mudou? Não, nada mudou. Aproveitando-se de que o carnaval é um laço social, políticos e candidatos nas próximas eleições já começaram sua campanha pelas escolas de samba e pelos órgãos administrativos responsáveis por elas.
O candidato à prefeitura do Rio, Eduardo Paes, já visitou a quadra do Salgueiro, a quadra da Vila Isabel, e já participou de um encontro na sede da Associação das Escolas de Samba, onde prometeu bancar o Condomínio do Samba (barracões para escolas do Grupo A) .
O também candidato à prefeitura do Rio, Marcelo Crivella, visitou a Mocidade Independente e também já foi recebido na Liga Independente das Escolas de Samba, e disse que o projeto Condomínio do Samba é totalmente viável e diz, também, que quer investir nos carnavais de bairro e nos Grupos de Acesso, que estão em péssimas condições, mas que geram emprego e renda.
A Liesa, democraticamente, está de portas abertas ouvindo os candidatos que a procuram com idéias sobre o mundo do carnaval. Apenas o candidato à prefeitura Paulo Ramos não visitou a Liesa, e fez críticas à visita de Marcelo Crivella. Achou um absurdo Crivella beijar a mão de um integrante da Liesa, pois considera um segmento alvo de ações criminais numerosas. Paulo Ramos disse ainda que, na sua administração, o comando do carnaval não pertencerá mais à Liesa.
Enfim, há um ditado que diz o seguinte: em eleição vale tudo. Será mesmo? Começando pelo candidato Paulo Ramos, acho que ele tem o direito de não querer ir à Liesa, mas hoje esta instituição exerce um papel importante na definição dos rumos do carnaval. A meu ver, é precipitado ter como finalidade sua extinção pura e simples, sem uma discussão mais aprofundada sobre o impacto dessa decisão. A declaração soa como um rompante de campanha eleitoral; além disso, falta um complemento, uma alternativa à idéia de tirar o carnaval da responsabilidade da Liesa.
Sobre a ida de outros candidatos, no entanto, vejo como algo positivo. Seria tão bom que as escolas de samba, diferentemente do passado, pudessem ter a parceria - verdadeira - do poder público, sem que a isso estivesse atrelada a barganha do voto fácil. É no dia dos desfiles das escolas de samba que vemos uma verdadeira multidão de políticos, alguns travestidos de folião, outros de componentes, geralmente usando uma camisa de diretor e com um compromisso ímpar de beijar e apertar mãos.
Todas as escolas precisam do poder público, de uma forma ou de outra; o que contesto é esta aproximação em período eleitoral, pois a escola de samba não pode ser tratada como curral eleitoral. O que candidatos e políticos devem fazer é procurar as agremiações e as entidades representativas com propostas e idéias que visam ao aprimoramento e tragam benefícios ao carnaval. Isso está longe do conceito do troca - troca do chaguismo carnavalesco. E, nas atuais circustâncias, muito perto da utopia.
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