B.O.: eu acredito

Rachel Valença | Rachel Valença | 19/12/2011 09h46

A notícia da desavença ocorrida há quase um mês na quadra da Imperatriz Leopoldinense, tendo como protagonistas o presidente de honra da escola, Luizinho Drummond, e seu diretor de bateria, mestre Marcone, teve intensa repercussão no mundo do samba.

Mais que isso, ganhou destaque no noticiário dos principais jornais do Rio de Janeiro. Isso me chamou a atenção. Afinal, "barracos" desse tipo são infelizmente comuns nos bastidores do carnaval.  Mesmo agressões físicas são muito mais frequentes do que se desejaria ou se esperaria. O intérprete chega atrasado ao desfile? Tapa na cara. O diretor de carnaval não anda na linha? Tapa na cara. Até mesmo carnavalescos, segundo se sabe, estão sujeitos a esse tipo de reação violenta.  E falo genericamente em tapa na cara para não dizer coisa pior.

Foto: Ricardo Almeida

A sutil diferença entre esses casos, que se acumulam no lamentável "folclore" que envolve as escolas de samba, e o ocorrido naquela noite de domingo em Ramos foi a decisão do cidadão Marcone da Silva Sacramento de registrar queixa contra o agressor, com exame de corpo de delito e tudo o mais. Do desentendimento resultou um Boletim de Ocorrência, o popular B.O., fato inédito em se tratando de sambistas.

A formalização da queixa na instância da sociedade organizada representou um fato novo em situações desse tipo. E mesmo que eu não tivesse - nem pudesse ter, já que lá não estava - uma opinião sobre quem tinha razão, comemorei intimamente o fato, pelo que ele representava: a negação do direito de qualquer um, dirigente ou não de escola de samba, de exercer um poder acima da lei.

Repito: não se trata de tomar partido na questão. Não tenho meios de julgar quem tem razão nem se espera de mim opinião sobre questões internas, sobre as quais correm várias versões. Os protagonistas do episódio me são ambos simpáticos. Luizinho é um apaixonado pelo samba, o que representa um fator de identificação com o que me há de mais caro. Por outro lado, admiro e respeito o jovem Marcone, que foi capaz de, em pouco tempo, dar uma cara nova à bateria da Imperatriz e colocá-la num patamar de qualidade nunca antes atingido. Para a escola, o desentendimento deles é uma perda, mas esse é um risco que sempre se corre.

Surpresa mesmo foi saber que dias após o cidadão Luiz Pacheco Drummond também procurou a polícia para registrar o seu B.O., dizendo-se agredido e correndo atrás de seus direitos. Ao ouvir esta notícia, confesso que cheguei a comemorar, porque imaginei o samba entrando no bom caminho da lei e do direito: quando duas pessoas se desentendem, procuram a autoridade competente para sanar a questão, em vez de tentar resolvê-la às brutas.

Como a briga se dera no dia 20 de novembro, em que se relembra o imortal Zumbi, ocorreu-me o primeiro verso do samba da Mangueira de 1988: "Será que já raiou a liberdade?" Ou seja, será que poderíamos sonhar com um mundo do samba onda as questões se resolvessem sem violência e sem a prática de fazer justiça com as próprias mãos?

Este fim de semana um atentado tirou a vida de uma pessoa na Rua Professor Lacê, em Ramos. Bem em frente, pelo que informa a imprensa, ao prédio onde mora o Mestre Marcone. As outras pessoas atingidas por disparos, segundo li no jornal Extra, eram integrantes da bateria da Imperatriz. Não há confirmação de que Marcone seja um deles. Numa cidade como a nossa, um episódio como esse pode ser apenas mais um nas estatísticas de violência e não ter qualquer ligação como o que se passou anteriormente. Mas confesso que fiquei um pouco triste de constatar que me regozijei antes do tempo e que será preciso viver bem mais para ver chegar o dia em que cidadãos que se desentendem registrem seus BOs e aguardem a ação de quem de direito.

Talvez, como no samba da Mangueira, tudo tenha sido ilusão.

Comentários (3)

Denise

Membro SRZD desde 08/04/2009

27/12/2011 22:32:04

Não sei de fato o que teria acontecido, só acho uma pena. Acho que esse jovem mestre de bateria fez em pouco tempo um excelente trabalho na bateria da Imperatriz. Ele ousou e se fez respeitar. Uma pena o acontecido.

Zappa

Membro SRZD desde 16/04/2009

22/12/2011 18:40:20

Rachel quando do episódio Marconi x Luizinho, o que me chamou a atenção não foi a tal agressão sofrida pelo diretor de bateria, ação realmente mais que comum no mundo do samba. O que me foi notório foram as ações defensivistas pró Marconi. Aqui mesmo no SRZD li na editoria Carnaval uma espécie de comoção em favor do sambista e justo por isso fiz um comentário alertativo solicitando neutralidade do portal. Acho que faltou ao ex-diretor de bateria da escola de Ramos alguém que lhe dissesse para refletir antes de uma atitude tão radical como um registro policial, pois o único prejudicado em toda esta pantomima foi ele Marconi. Conheço a família Drummond e sei que Luizinho apesar daquele jeito trincado é um coração mole, mas também sei que não “ACEITA DESACATO” e para bom entendedor, metade da palavra basta. Saudações!

Carlos M. Soares

Membro SRZD desde 16/08/2011

20/12/2011 19:56:08

Está pagando o preço por agir com correção de atitudes...Vai ser vítima do ostracismo e de outras retaliações...Ia ser lindo ver cada bateria parar de tocar por um minuto em apoio a um de seus melhores mestres.mas sabemos da hipocrisia, covardia e corporativismo que imperam nesse nicho...Talvez daqui a uns dez anos, atitudes como essa realmente não sejam notícia. Mas por hj, o vergonhoso fantasma dos coronéis-presidentes está aí, para dizer que, mesmo carcomidos pelas doenças e pelo tempo, possuem uma legião capaz de qq coisa para defender seus caprichos e mimos...Vida que segue e, Marcone, vc não foi errado...