Personagens importantes
Soares Júnior | Soares Júnior | 28/07/2008 14:00:00
Parte da família nordestina trouxe para mim hábitos que podem soar estranhos aos que têm uma visão única das coisas. Cresci tentando entender porque minha mãe guardava um retrato com o enterro do primeiro marido dela.
A fotografia era solenemente mórbida. O caixão branco no meio e todos os presentes ao velório rodeando o homem morto. A imagem é uma daquelas que não desabitam a memória. Não vejo a foto há mais de 25 anos, mesmo assim continua na retina.
Minha mãe ensinou-me a gostar de arroz, feijão e farinha amassados com a mão. O segredo é misturar fazer o bolinho e conduzir com a mão até a boca. Peixe com leite de coco. Ela tinha orgulho de guardar a foto e de ter conseguido criar sete filhos sozinha depois da morte do primeiro marido.
Os personagens são essenciais numa reportagem. Nas de economia nem se fala. As histórias das pessoas são a melhor forma de traduzir a numeralha. Ao fazer uma série de reportagens com dados da Pesquisa de Orçamentos familiares do IBGE reencontrei um desses batalhadores. O trabalho é o seguinte, você recebe um calhamaço com cerca de 300 páginas recheadas com gráficos e estatísticas. A função do repórter é transformar aqueles números em vida.
Um dos aspectos relevantes do levantamento era que no Nordeste aumentava o número de idosos responsáveis pela família. O motivo era simples, os que conseguiam a aposentadoria rural, eram a garantia de um rendimento certo numa terra de incertezas secas e áridas.
Em busca de personagens esbarrei em um agricultor de uma cidade a 400 quilômetros de Recife. Ele ganhava em 2004 um salário de R$ 240 por mês. Desabei quando o homem explicou que aquela era renda com a qual uma família com 16 pessoas contava. Neste momento "meu programa entrou em looping". O homem dizia que o resto do sustento saía da venda esporádica de galinhas e hortaliças. Chorei e por sorte a minha amiga Carolina Morand dividia a reportagem comigo. Ela tomou o telefone das minhas mãos e terminou a entrevista.
Minha mãe teve uma história semelhante e isso mexeu comigo. Imagino que seu José tenha algum retrato do enterro de um ente querido.
A luta contra um agreste inóspito faria de dona Alzira seria um belo personagem sobre retirantes que tentam a vida melhor no "Sul Maravilha". Aguinaldo Silva em "Senhora do Destino" e Chico Buarque em "Brejo da Cruz" já foram brilhantes ao descrever estes seres que às vezes "comiam luz". Foram menos áridos do que Graciliano Ramos em "Vidas Secas" e por isso menos viscerais, mas isso é literatura e o papo aqui é jornalismo.
Jornalisticamente, o personagem é vital para o transporte do ouvinte/leitor/ telespectador para o interior de uma história. Relato que é dele, personagem, mas pode caber na vida de qualquer um.
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Postado por:erick van-Erven | 04/08/2008 16:30:11
Olha, fazia tempo não ouvia uma história que me resgatasse uma bagagem de responsabilidade social como essa. A vida do nordestino é realmente dura, e saber que tanta gente sofre diariamente, com acesso tão restrito a tudo, me coloca uma responsabilidade ainda maior nas mãos. Nessa frase - "A função do repórter é transformar aqueles números em vida" - é altamente inspiradora e traduz certamente um ideal que muitos jornalistas deixaram no passado, nó início de suas carreiras. Gostaria que servisse de reflexão pra todos os profissionais de jornalismo o tamanho de nossa responsabilidade, pois o mundo só vê o que a gente mostra. Abaços
Postado por:Rafael Abreu | 31/07/2008 15:57:26
Transformar números em vidas deveria ser uma tarefa não só dos jornalistas. Provavelmente os que entraram na vida política com a ajuda de pessoas como este agricultor, se preocupam mais com os números pessoais. Os números do saldo de suas contas bancárias.
Postado por:Cristiana Richard | 30/07/2008 12:51:07
Bela crônica. Realista, sensível e didática. Personagens são essenciais numa reportagem, sem dúvida. Mas é preciso que o jornalista tenha sensibilidade para enchergar num personagem simples uma boa história.
Postado por:Nelma Espíndola | 30/07/2008 11:56:39
Soares Junior, sempre que entro no site, dou uma escapulida no seu blog; desde a sua estréia. Tenho gostado muito, mas particularmente, esta crônica me emocionou. Fui remetida a minha infância, pela discrição que vc fez dos seus hábitos familiares e, que são peculiares mesmo às famílias nordestinas ? o bolo de feijão com arroz e farinha, feitos à mão (minha vó Irene/mãe eram quem mais faziam). E, eu adorava comê-los; o peixe de coco, que também aprendi a fazer e, que ficou como uma herança de aprendizado, que as matriarcas da família me deram. Mas, não posso deixar de lhe contar que também, minha avó materna, tinha uma foto da própria mãe em contexto igual a que você citou. Eu tinha medo de ver!! Nunca tive coragem de perguntá-la o porquê daquela foto. Achei muito legal sua didática para a construção do texto, mas, principalmente pela demonstração de sua sensibilidade, da não vergonha em falar de seu ?choro? ao conhecer a particularidade socioeconômica dos nordestinos à época, em que fez a matéria citada. Bem, mesmo eu não sendo jornalista, fui atingida por seu objetivo e, acabei comentando com meu pai, que é pernambucano, o seu texto, a minha identificação e aí passamos a falar de alguns costumes dele na sua ?terra natal?. Parabéns, ficou muito linda a sua crônica!!!
Postado por:Priscila Nunes | 30/07/2008 10:32:20
Particularmente esta linda crônica também mexeu comigo.... somos filhos da terra.... A-D-O-R-E-I! bjos Priscila
Postado por:Vivi | 29/07/2008 19:55:12
Tá aí uma música da qual eu nunca vou me esquecer e que sempre vai me lembrar você: Brejo da cruz. Primeiro pq sua prova de G2 foi - e com certeza continuará sendo - algo ímpar na minha carreira universitária, segundo porque você, como professor, sempre estimulou seus alunos a verem além do que está escrito, além das entrelinhas, além do que a maioria das pessoas pode ver, e essa música é um exemplo disso. Adorei o texto.
Postado por:Carla Tavares | 28/07/2008 19:31:37
Olá Soares! Saudades! Realmente o relato dessas pessoas fala mais do que qualquer número ou estatística é a dura realidade de um Brasil sofrido e descriminado pelos próprios brasileiros, é uma espécie de violência contra o direito de viver decentemente, esse tipo de coisa não vemos estampados todos os dias nas manchetes de jornal, e o povo continua sofrendo. Sobre o arroz com feijão e farinha eu tb me lembrei da infância , pois minha mãe como boa Paraibana, me ensinou a gostar e comer.
Postado por:Guilherme Costa | 28/07/2008 14:36:38
A verdade é que, por mais que a nossa carreira seja difícil, e a gente ache que ganha pouco, tem sempre muita gente comendo o pão que o diabo amassou.. e sem perspectivas - e, àsa vezes, nem mesmo sonhos - de melhora.


















