De quando em vez me bate uma tremenda saudade de um sujeito que em enquanto vida teve foi a imagem da alegria. Gozador nato foi totalmente desligado das coisas materiais da vida, inclusive carvão.
Beberrão contumaz fazia do bom conhaque e das belas cabrochas, que gostava de montão, suas constantes alegrias. Um sujeito extremante humano e amigos dos amigos. Os inimigos, se é que os tinha, ele solenemente os ignorava.
Édson da Cruz Lobo era o seu nome na pia batismal. Mas o pouco tempo que viveu no mundo samba ficou conhecido Edinho, o filho da Dona Carminha, o apelido caseiro sua mãe, a senhora Carmem Lobo. Do Edinho tenho em mente, várias e várias historinhas. Umas bem humoradas e outras até tragicômicas.
Como a passagem de seu pai em trágico acidente de carro. Ele, narrando o acidente, conseguia transformar o infausto acontecimento numa tracomédia ao melhor estilo das tragédias gregas. Prometo contar tudo isso em outra oportunidade.
Nascido e criado nas fraldas do bairro de Ramos. Edinho até que gostava da IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE. Freqüentava quase sempre a sua quadra na Rua Professor Lacê. O mesmo já não acontecia com o BC CACIQUE DE RAMOS, que dizia ter pavor.
Nosso relacionamento de irmãos se acentuou de forma mais evidente quando passamos freqüentar a famosa Praia de Ramos, seguindo uma patota que não ia ao CACIQUE DE RAMOS. Lá, na praia, acabamos fundando o BC SÓ FALTA VOCÊ juntamente com gente como saudoso Alomar Pinto Soares, Walter Marreco, Jorge Chapéu de Couro e tantos outros.
Como os tempos eram outros, Edinho subia e descia as tantas ladeiras, ruas, becos e vielas das favelas do bairro de Ramos sem tomar conhecimento da malandragem, que já começava montar o seu espaço á partir do Morro do Alemão, Praia de Ramos, Favela Roquete Pinto, e Morro do Adeus.
O seu trânsito era livre em todas essas bocadinhas. Mas gostava mesmo era de bebericar no famoso botequim Ferro de Engomar (ao lado da estação de trens) ou no Zé das Caralhas, um pé sujo da pior qualidade.
De tanto estar na quadra da Gresil, o Edinho acabou muito ligado nas coisas da escola e amigo do então carnavalesco da época, o popular Ary Catucha. Foi quando surgiu á idéia da escola apresentar como tema enredo as peripécias da vida da senhora Domitila de Castro Canto e Melo a popular e famosa Marquesa de Santos.
Sob o título de A FAVORITA DO IMPERADOR- MARQUESA DE SANTOS, o enredo começa ser desenvolvido. Ramos era uma festa só pois tal enredo agradara em cheio os componentes da escola. Foi escolhido o samba de autoria do saudoso compositor Maurílio da Penha Aparecida e Silva, o popular Bidi, mais tarde fundador do famoso grupo de pagode Originais do Sambas.
Um sambão, por sinal: " Nos salões imperiais / Domitila de Castro Canto e Melo / Consolidou seus ideais / Ao lado do Imperador / A bela titilia foi glorificada / Num suntuoso beija-mão / Onde esteve sentada / Ao lado do soberano / que solenemente quis / dar-lhe a glória de alguns momentos / Como Imperatriz "/... Diz assim esse samba da melhor qualidade.
O desfile estava ás portas, mas a escola tinha um problema sério: faltava uma mulher para representar a figura da MARQUESA DE SANTOS. Sabedor que querida mãezinha tinha paixão por um dia desfilar em uma escola de samba, Edinho, maquiavélico como era, bolou um plano genial.
Ele também sabia que o senhor Edvaldo Lobo, seu pai, austero oficial reformado da FAB, tinha horror só em ouvir falar em escola de samba. Sugeriu o Edinho, ao Ary Catucha, que convidasse a dona Carminha, já sabendo que o senhor Edvaldo iria soltar os bichos em que lá fosse formalizar o dito convite.
O gostoso dessa historinha começa agora. Avisada pelo filho, Dona Carminha se aprontou e ficou em casa esperando pelo emissário da escola, que foi o próprio Ary Catucha. O negócio do Edinho era tirar um sarro como o seu pai, com quem vivia as turras, justamente por causa de suas noitadas nas quadras de samba.
Artimanhoso, Edinho, a pretexto de uma dor de barriga, trancou-se no banheiro só para curtir o que aconteceria. Na hora aprazada, eis que surge o Catucha. Ele aperta na companhia do apartamento do Edinho e espera.
Surge então, o senhor Edvaldo, ainda de pijama. Ao abrir a portinhola da porta ele leva um susto e o Catucha então indaga com aquela voz típica de brioqueiro:
- É aqui de mora a dona Carminha, a mãe do Edinho? Posso falar com ela?
O senhor Edvaldo, ainda de pijama, responde com um voz forte:
- Sou o marido da dona Carminha. O que é que o senhor deseja com ela?
- Bem, respondeu o Catucha. Eu sou o carnavalesco da Escola de Samba Imperatriz Lepoldinense.
Nem terminou de se apresentar o Catucha ouviu novamente á voz alta e forte do senhor Edvaldo:
- Carminha vem até aqui na porta. Tem aqui num ANORMAL querendo falar com você!
Surge a dona Carminha da porta e o Catucha é convidado em adentrar e dizer o queria.
Catucha entra e senta do sofá e começa falar dos seus planos e fazer o convite para a dona Carminha representar a Marquesa de Santos no desfile da Imperatriz Lepoldinense.
_- Ela foi uma grande dama do Império e até chamada de Favorita do Imperador Pedro I. Era muito elegante e sempre ajudou os pobres e etc e de tal.
Calado. Sem dizer uma só palavra, o senhor Edvaldo apenas escuta.
- Então dona Carminha a senhora aceita ser a nossa Marquesa de Santos, perguntou esperançoso o Catucha.
Foi o bastante para o senhor Edvaldo erguer mais ainda a voz e bradar:
- Essa Marquesa de Santos foi sim, uma rameira, uma mariposa e que viveu pegando todos os homens da Corte Imperial, inclusive o nosso Imperador. Como é que o senhor aparece aqui em casa para convidar minha mulher para representar uma prostituta desta?
- E ainda aos gritos, o senhor Edvaldo decreta: Ponha - se daqui prá fora seu ADAMADO de uma figa. Não quero minha mulher nesse antro que é escola de samba. Isso deve ser coisa daquele maluco e irresponsável do meu filho.
Não precisa riscar, que trancado no banheiro, o Edinho mal podia conter as gargalhadas. Uma coisa é certa: Dona Carminha não foi a Marquesa de Santos que a Imperatriz sonhava e o Edinho, por via das dúvidas, passou uma boa temporada sem freqüentar a quadra de Ramos.
Mais tarde levado pelo JCN, Edinho foi para a Mangueira onde se tornou primeiro associado, depois Diretor de Harmonia. E por alguns anos por lá ficou na quadra grande da Mangueira sob ás ordens do seu Xangô da Mangueira.
Nos Carnavais de 1984/85, fomos os editores das belas revistas da folia que a escola colocou na rua.
Assim era o Edinho. Brincalhão, mas acima de tudo, competente e amigo dos amigos. Por isso risquei esse babadinho e espero não conflitar com os nossos fieis blogueiros.
Bebê de 47
José Carlos Netto | 28/04/2012 14h45
Troca-troca
José Carlos Netto | 07/05/2012 17h11
Ed Miranda: baluarte e realizador
José Carlos Netto | 02/05/2012 16h40
Harmonia para principiantes ou não..
José Carlos Netto | 18/05/2012 18h54




Comentários (0)