Do Leme ao carnaval
Lula Branco Martins | Lula | 24/07/2008 15:30:58
Antes de qualquer coisa, perdão, leitores, pela ausência da coluna na quinta-feira passada. Tive uns probleminhas e não deu para cumprir a agenda. Mas retorno hoje à rotina normal: a cada quinta, uma nova frescura. Essa já é a décima oitava. E a de hoje é a seguinte. Tem a ver com almanaquismos.
Bom, a palavra eu inventei. Mas vocês vão entender já.
Há um mês mais ou menos, quando Jamelão morreu, escrevi sobre velhice aqui na minha coluna. Citei um cara que parece não envelhecer nunca, pois desde quase sempre já carregava uma imagem de senhor: Léo Batista, apresentador da equipe de esportes da Rede Globo. E, agora para falar de uma outra coisa, me valho hoje de outra figura televisiva: Reginaldo Leme.
Reginaldo Leme parece um almanaque ambulante. E isso faz dele um personagem essencial neste que deve ser um árduo trabalho: dar algum sentido àquela coisa chamada transmissão de corrida de Fórmula 1. Não fossem sua memória, seus registros, suas anotações, grande parte daquilo perderia a graça. Vou exagerar a seguir, ok? Mas é pra que me faça entender logo.
Assim: "É a primeira vez que três carros com pneus Michelin fazem o pódio de uma corrida na Ásia". Assim: "Este circuito é o único no mundo que tem mais de 10 curvas em sentido horário." Ou assim: "Nunca um piloto brasileiro, correndo com um carro italiano, fora da Europa, num dia de chuva, havia conseguido, até hoje, chegar na zona de pontuação". Ou mesmo: "Desde 1978, ou seja, há 30 anos, não corriam na mesma prova quatro pilotos franceses em quatro equipes francesas distintas." E, finalmente, e esta agora é real: "Este pódio do GP da Alemanha, com Lewis Hamilton, Piquezinho e Massa, é o de menor média de idade de toda história, com apenas 23 anos e lá vai bolinha e tal, e tal e tal."
Isso consegue, às vezes, dar um certo sabor a algo a princípio modorrento: um esporte que nem parece esporte, um esporte em que nem mesmo conseguimos enxergar o ser humano que está competindo.
Fico pensando como seria um Reginaldo Leme nas transmissões de desfiles das escolas de samba - que, também, cá entre nós, é um evento televisivo complicado de se sustentar, por tantas horas, com o mesmo chamativo para o telespectador médio.
Vamos ver. "Deyse Mocinha é a primeira porta-bandeira canhota, desde Fátima Regina, nos anos 60, que segura o estandarte de forma invertida." Ou então. "Nunca o Império Serrano, desfilando com samba em ré sustenido, conseguiu chegar entre as dez escolas primeiras colocadas." Tem mais essa. "Há 50 anos que uma escola vermelha e branca não apresentava um carro abre-alas verde." E, no limite do almanaquismo, e até misturando os dois "esportes"... "Só nos anos 80 uma escola tinha conseguido chegar ao setor 3 antes da marca de 5 minutos, 0 segundo e 3 milésimos." Ou "cinco duro", como acrescentaria o cara que faria o Galvão.
Gracinhas à parte, exageros obviamente desconsiderados, o clamor é sério: ou essa transmissão melhora, ou nosso amigo carnaval vai ficar cada vez menos comentado.
Conheço gente que não vê mais pela TV desde que reparou que o analista de bateria elogia todas as baterias; que a repórter de celebridades só pergunta "qual é a emoção" para as tais celebridades; que o locutor lê o que vem no livrinho da Liga e nada acrescenta; e que a comentarista de "olha ali naquela ala a Dona Palmira, filha de Nicéia e de Décio das Docas, isso que é tradição" está ali apenas com a incumbência de dizer "olha ali naquela ala a Dona Palmira, filha de Nicéia e de Décio das Docas, isso é que é tradição".
Estou querendo muito?
Até!
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