Em 20/Nov/08 05:11:53

O céu recebe musas da alegria

No início da tarde de sábado, ao acessar os sites de carnaval, deparei com uma notícia que muito me emocionou. No fim da tarde, outra notícia me surpreendeu. No intervalo entre as duas, reflexões, muitas reflexões.

Os leitores, evidentemente, já sabem do que se trata.  

Dolores Gonçalves Costa, a querida Dercy Gonçalves, sempre será lembrada por sua alegria de viver. Atriz e comediante de expressão única, sabia como arrancar boas risadas de seu público, com seu jeito polêmico e escrachado. 

No carnaval, ficou marcada com a homenagem feita pela Viradouro em 1991, com o enredo "Bravíssimo - Dercy Gonçalves, o retrato de um povo", onde, mais uma vez, surpreendeu a todos desfilando com os seios à mostra.

"Ah! Obrigado Dercy,
Mercy, Dercy !
Abriu-se as cortinas pro seu show
São cinco letras a sorrir"

Mas, se há uma coisa que me faz lembrá-la, são as chanchadas. Já escrevi aqui, há pouco tempo, sobres esses filmes com estética carnavalesca - em muitos dos quais Dercy nos encantou com sua espontaneidade na interpretação, ao lado de grandes parcerias, como Grande Otelo, Chico Anysio, Costinha e Zé Trindade, entre outros. Por ser cineasta, tive o prazer de assistir a praticamente todos os seus filmes. O de que mais gosto chama-se "Entrei de Gaiato", de 1959, que é simplesmente impagável. Ao morrer, já havia recebido as flores em vida.

Antes de saber da passagem de Dercy, chorei, baixinho, a morte de Jacqueline Nascimento.  Rainha, musa, princesa. Os adjetivos conquistados por ela no carnaval não eram maiores do que os adjetivos que qualificavam sua pessoa: alegre, simpática, doce.

Tinha apenas 31 anos. Muito ainda havia por conquistar. Por que ir embora tão cedo? Por que não deixá-la viver mais décadas, terminar de construir uma obra que estava começando? São perguntas naturais, nascidas da dor, da revolta; eu mesmo as fiz, antes de muito refletir. Mas a ausência de respostas apenas amplia a angústia. Não é consolo: os desígnios de Deus são tão grandes, tão grandes que jamais conseguiremos apreendê-los, e é isso, por mais estranho e paradoxal que seja, que torna a vida bonita, misteriosa, radiante.

Hoje o céu está mais alegre. Acaba de receber duas musas. Sei que muitos não acreditam nisso. Não faz mal. Encerro este texto com um poema de Bruno Tolentino, chamado "Flautim", que resume nossos sentimentos:

Guardaremos juntos
os acertos, breves,       
os enganos, fundos

e aquele remoto
amparar de parcos,
altivos escolhos.

Cairão o signo
e a secreta cinza
desse ardente enigma.

Não lamentaremos
mais que o desencontro
dos humanos termos,

a rápida marca
que o passado imprime
na face, na máscara,

e os puros despojos
que às vezes são versos
e sempre são ossos.

Não diremos nada
dos velhos desejos
que a memória abraça,

sem qualquer palavra
não recordaremos
o que nos pesava,

mas apenas isso
que nos pese ainda:
ter vindo, ter sido.



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