A Escola se preparava para o desfile: tensão, euforia, temor e alegria em profusão naqueles momentos que antecediam o começo tão aguardado. Veio a grande ordem do presidente Mauro e a voz de Adilsinho começou a ecoar o esquenta da Em Cima da Hora, era o carnaval de 1999 e o mais belo dos tristes, ou melhor, o mais triste dos belos sambas tomou conta da Avenida do Marques.
Marcado pela própria natureza é verso que inicia de forma apoteótica "Os Sertões de Edeor de Paula", resumo fiel à obra de Euclides da Cunha e um marco na história dos sambas enredo em virtude do poder de síntese até então jamais visto. Podemos perceber bem definidos na primeira parte do samba os dois capítulos que principiam nas letras do imortal: A Terra e o Homem e na segunda do samba um breve encadeamento de versos que relatam com propriedade o retiro de milhares de sertanejos em torno do arraial de Canudos.
Contam alguns amigos que a comunidade de Cavalcante estava muito empolgada para aquele carnaval de 1976, muito pelo extraordinário samba como também, pela qualidade das alegorias vista por quem ia ao barracão nos dias que antecediam o desfile. Pois bem as alegorias eram grandes e altas demais para passarem no portão de saída do barracão e foi dada ordem de quebrar uma parede, neste momento tornou-se drama o enredo da Em Cima da Hora já que toda edificação que comportava seu barracão era tombada pelo patrimônio histórico e não podia ser derrubada. As alegorias não puderam participar do desfile e a tristeza fez seu concerto como uma grande tragédia acompanhada pela dolência do samba.
Naquele sábado de carnaval eu estava no setor 01 à espera da escola que aprendi a gostar e por motivos particulares não poderia desfilar, naqueles cinco minutos intermináveis a Sapucaí me fez chorar e quase todo primeiro setor como num efeito dominó, que não sei de onde começara, chorava também, Adilsinho cantava Oh Solitário sertão... E o calor de toda multidão levava ao abraço, algo coletivo. E pensar que algumas vozes do bairro salientam que durante a disputa para o carnaval de 1976 este samba não era nem o favorito, somente ganhando força para ser campeão quando um dos fortes concorrentes, exatamente na semifinal, foi retirado em apoio ao grande samba que permanece na memória do povo carnavalesco. Foi no século passado... Mas parece hoje que um dos mais belos sambas de todos os tempos, o mais belo dos sambas tristes, me fez feliz ao chorar de alegria.
Claudino Marques
Membro SRZD desde 07/07/2011
22/11/2011 08:39:35
Caro amigo Cunanins, mais um belo texto, não esqueça dos amigos, abraços Marques
Zappa
Membro SRZD desde 16/04/2009
19/11/2011 05:29:27
Russo quero ressaltar sua observação sobre o poder de síntese do texto do livro “Os Sertões” de Euclides da Cunha, disposta em uma letra musical. O samba de Edeor de Paula é grandioso, magnífico, esplêndido, uma das maravilhas dentre os sambas enredos que, conjuntado a outros como Heróis da Liberdade ou Os Cinco Bailes, ambos do Império Serrano, desmistifica o conceito de quem rotula os sambas-enredos do passado de “velharias”. Com relação às alegorias, existe outra versão contrária a que expusestes. Não puseram a parede de entrada do barracão abaixo para que os carros passassem, fizeram pior, serraram a parte superior das alegorias e senão bastasse, uma chuvarada acabou por dizimar a escola, mas mesmo assim, que danado de samba bom! Saudações!
Claudio
Membro SRZD desde 04/06/2011
18/11/2011 18:22:21
Amigos me traz orgulho perceber em suas palavras o perfeito entendimento de nossa proposta que é trazer sempre a verdadeira imagem do samba e do sambista. Claudia e Marcia muito obrigado por tudo que vcs escreveram, é de emocionar; Herlon a Em Cima da Hora é um berço de grandes sambistas, Baianinho daria grandes textos para nossa coluna e me sinto agraciado por ter concorrido e desfilado por esta grande escola.
Herlon Eduardo lopes da Silva
Membro SRZD desde 09/09/2011
16/11/2011 18:24:25
Meu Querido Cláudio, eu tive o prazer de sair na Bateria com o Saudoso Mestre Ricardinho, que por sua Vez nos Proporcionou verdadeiras Paradinhas com este Maguinífico samba. Na voz do então Interprete Tico do Gato que cantou maravilhosamente bem este Clássico. Gostaria que em breve Vc, falasse um pouquinho do Clássico, dos Clássicos da Em Cima Da Hora. O Saber Poético da Literatura de Cordel. Onde surgiu o Extraordinário, Eládio G. dos santos. o popular Baianinho da Em cima Da Hora. Fortes abraços;;
Marcia
Membro SRZD desde 23/07/2009
12/11/2011 20:25:42
Claúdio, ao ler seu texto confesso que chorei, pois o samba tem esse poder: nós que somos totalmente "viciados" no samba, no carnaval e consequentemente nas escolas de samba, podemos através de belos textos como o seu, nos transportar e nos emocionar com algo que não vivemos, pois emoção é simplesmente sentir. Vários fatores me levam a abraçãr o carnval e samba: a bela voz de Aroldo Melodia é a trilha sonora dos meus carnavais, minha infancia carnavalesca foi pontuada pela VOZ desse GIGANTE da avenida e essa OBRA PRIMA da querida Em Cima da Hora é o meu samba predileto, embora reconheça que outros são antológicos mas esse é especial. Li o livro de Euclides da Cunha e como você mesmo destacou com extrema perfeição em seu texto, o poder de síntese dele é impressionante. Agora, 35 anos depois, tendo uma noção do que foi aquele carnaval através da sua coluna, concordo totalmente com você: É o mais belo dos tristes. Parabéns, foi no século passado, mas é inesquecível, as grandes obras permanecem para sempre, são eternas. Obrigada Claudio Russo.
claudia
Membro SRZD desde 11/11/2011
11/11/2011 18:54:31
..poxa Claudio Russo,Me emocionei tambem,,Digo que na avenida ,ali que vemos o p q o samba é ,e foi vencedor,,sem mais ,,,parabéns pela bela lembrança..Foi no século passado...Mas ainda está em nossa lembrança!
A União mudou...
Claudio Russo | 27/04/2012 16h30
Cavalo de Batalha
Claudio Russo | 10/05/2012 19h38




Comentários (6)